Juca e Joca. Nasceram no mesmo dia. Vizinhos, cresceram na mesma favela. Um foi o primeiro e melhor amigo do outro por muito tempo.
Consolavam-se em brincadeiras e filosofias infantis nos momentos difíceis. Juca nunca soube quem era seu pai. Joca viu o seu ser morto num tiroteio. Bala que uns diziam perdida pela polícia, outros pela bandidagem local. De nem um, nem outro, ouviu um “sinto muito”. Só Juca estava lá para abraçar e consolar.
A mãe de Juca morreu quando ele nem bem sabia andar. Doente não se sabe do quê porque passou meses perambulando entre postos de saúde que a mandavam de volta para casa dizendo não ser nada grave e à espera eterna por fazer um exame sempre remarcado porque faltava médico ou a máquina havia quebrado. Joca, que raramente via sua mãe, sempre ocupada com trabalhos, estava lá para consolar o amigo.
Colegas de sala, brigaram juntos e brincaram juntos com outras crianças. Não eram maus alunos. Também não se destacavam. Estudavam meio que só por estudar mesmo, sem muitos objetivos na vida. A verdade é que sós queriam sobreviver no meio de tantas cenas e histórias de morte, tristezas e aporrinhações. Estudar era uma forma de sobreviver sem aporrinhações à escola.
Foi Juca quem apresentou a Joca aquela que viria a ser sua primeira namorada. Juca já namorava a irmã dela. Seguiram juntos até aí, quando o pai das irmãs namoradas, depois de matar a esposa, espancou as filhas, os dois amigos quiseram tirar satisfação em defesa das amadas. A avó de Juca e a tia de Joca perceberam o perigo e trataram de tirá-los de lá. Juca mudou-se com a avó para outra comunidade. Joca foi morar com o tio, policial, em outra cidade. Assim, aos 15 anos, afastaram-se.
Na nova comunidade, Juca fez outras amizades. Nenhuma tão forte quanto a de Joca. Foram os amigos que o levaram para trabalhar no tráfico. Sua avó tentou dissuadi-lo como pôde, mas pouco podia, ainda mais depois que Juca a viu tomando um tapa dado por um policial que não gostou por ela ter lhe pedido calma.
Joca gostou de morar com o tio, ainda que sentisse muitas saudades de sua antiga comunidade, de Juca e da tia. Desde a mudança, nunca mais viu a mãe, que era brigada com o irmão. Viu no tio um novo pai e aprendeu com ele a pensar que a bala perdida que matou seu pai verdadeiro saiu da arma de um bandido. Tornou-se policial.
A chapa esquentou no morro quando virou lugar de disputa. Outros traficantes e a milícia queriam aquela área, estratégica para os negócios de todos. Juca tornou-se guerreiro. De fuzil na mão, defensor do território. Joca, soldado do batalhão, guerreiro precursor da tropa. Tiros e medo se espalharam.
Um soldado tombou baleado, o que enfureceu o batalhão. Fúria foi respondida com fúria pelos traficantes. Mesmo quem estava acostumado com aquela violência impressionou-se naquele dia. A luta concentrou-se numa passagem estreita. A polícia precisava passar, traficantes não podiam deixar. Joca no ataque, Juca recrudescido na defesa.
A explosão de uma granada deu a oportunidade para a tropa avançar pela passagem. Joca na frente. Juca saltou de sua proteção para, corajosamente, colocar-se diante dos invasores. Joca e Juca viram-se frente a frente, fuzis nas mãos, olhos enfurecidos. Reconheceram-se.
Paralisaram. Seus corações não estavam preparados para aquilo. Os dois estavam surpresos. Juca começou a baixar o fuzil. Joca começou a levantar a mão para parar a tropa. Não tiveram tempo. Os companheiros de Joca atiraram em Juca. Os companheiros de Juca atiraram em Joca. Os dois tombaram, feridos.
Ferido, mas consciente, Joca não deixou que seus companheiros executassem Juca. Os dois foram levados para o mesmo hospital. Dividiram a mesma enfermaria. Falaram com dificuldades um com o outro sobre coisas boas da infância. Repetiram as brincadeiras dos bons tempos.
As enfermeiras não entenderam e acharam curioso que os dois tenham morrido ao mesmo tempo, olhos abertos numa troca de olhares gentis e com sorrisos nos rostos.
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Ilustração: Mihai Cauli
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