O campo na várzea estava ainda com algumas poças da última chuva quando as crianças chegaram. Decidiram no improviso. No rompante da boa ideia de jogarem futebol naquele dia, hora e lugar, faltava a bola. “Eu tenho!”, prontificou-se Ronald. Era o menino da família mais rica da rua. Mimado como poucos. Mas era a bola que tinham à disposição. “É importada”, fez questão de apontar enquanto a exibia.

Ronald, porque trouxe a bola, fez questão de ser capitão de um dos times. Perdeu o duelo de pedra, papel, tesoura para ver quem escolheria primeiro quem jogaria ao seu lado. Não gostou, mas aceitou não ser o primeiro a escolher. Pedro era o melhor jogador da rua. Ágil goleador. Terror daquela várzea. Foi o primeiro escolhido. Ronald não aceitou. Pedro tinha que ser do time dele. “Mas você perdeu. É a regra”, ponderou seu oponente. “Mas a bola é minha”. Os meninos deram de ombros. Queriam jogar. Aceitaram a imposição e Ronaldo montou seu time com o melhor atacante e o melhor goleiro.

Onualdo não era muito de jogar bola, mas gostava de brincar. Ofereceu-se como juiz. Ronald não aceitou. “Você não, o juiz vai ser o Arthur”. Na escolha de jogadores, Arthur havia ficado de fora. Era notório perna de pau, mas um cara legal. Também era um tremendo puxa-saco de Ronald. Como a meninada só queria jogar, aceitou a imposição.

As poças do campo transformaram o jogo numa divertida brincadeira com mais sujeira do que habilidades. O primeiro gol saiu de um inesperado desvio da bola provocado por uma poça após um chute desajeitado. “Estava impedido!”, reclamou Ronald, capitão do time. “Como assim? Ele chutou quase do meio do campo! Metade do seu time estava na frente dele!”. “Impedido!”, insistia Ronald já olhando para Arthur, que assistia à discussão calado e meio sem graça.

Ronald não aceitava os fatos e nem o gol. Não poderia valer porque ele não queria perder de jeito nenhum. Nunca perdeu nada. Nunca aceitou perder nada. Quando, de fato, perdia, era roubado. Jamais admitiria uma inabilidade ou inferioridade fosse para quem fosse. “Im-pe-di-do!”, repetia sem parar, fazendo bico a cada sílaba.

A meninada estava impaciente. Queria jogar. Ronald não deixava. Lançou seu argumento final. “A bola é minha. Se o gol valer eu vou embora!”. Não gostaram, mas aceitaram. Gol anulado porque só queriam jogar bola.

Assim foi com o segundo gol, dessa vez anulado pelo juiz condescendente e bajulador que entendeu que ou as coisas seriam do jeito que Ronald queria ou não seriam.

O terceiro gol foi de Ronald, contra um time já desanimado daquela brincadeira na qual não se podia brincar, mas só obedecer, ceder, deixar. Dono da bola que era, virou dono do jogo.

A brincadeira terminou antes do tempo. Cada um foi brincar sozinho na sua casa. Ronald voltou feliz para sua mansão. Dono da bola, dono do jogo, dono da rua. Tomou banho e foi dormir seu sono infantil de dono da bola do mundo.

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Ilustração: Mihai Cauli
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