Reginaldo se acha coerente e esperto. Acha que no mundo só tem gente desonesta, exceto ele, que quando mente, engana e quando dá calote, está apenas se defendendo honestamente de um otário desonesto qualquer.

Ele não acredita em gente engravatada, nem em gente sem gravata, exceto quando lhe diz o que ele quer ouvir. Não acredita nos jornais, nem na TV, mas acredita no que aparece no WhatsApp.

Inteligente, descobriu que um grande segredo guardado pela CIA e pela NASA, algo que ninguém quer que ninguém saiba, foi descoberto pelo dono de uma oficina de eletrodomésticos de Belford Roxo. Inequívoca verdade justamente porque ninguém mais fala naquilo.

É um defensor incondicional da moral. Não gosta de bandido. Fura fila, não devolve troco recebido a mais, inventa defeitos e peças que precisam ser trocadas nos aparelhos que lhe confiam para consertar. Tudo isso com muita honestidade.

Gosta de mulheres. De todas, exceto daquela com quem se casou. A acha mal-humorada, feia e ranzinza. Canta todas que lhe aparecem pela frente. Assediou a amiga da filha. Flagrado tentando pegar a menina à força, disse que a culpa era dela que se insinuava com aquelas roupas: “vestida assim, ela esperava o quê? Pintou um clima”.

Martha, esposa de Reginaldo, sabe muito bem o que o marido faz. É calada, mas não é cega. Não fala tudo que sente porque aprendeu que mulher tem que ser submissa ao marido. Deveria ganhar amor ou, ao menos, respeito de volta. Mas aprendeu também que botar comida em casa é o jeito do homem respeitar a mulher.

Cozinha, cuida da casa e da filha que só pensa em sair de casa. Tem medo e, ao mesmo tempo, inveja da filha. Queria ser menos presa como ela. Procura não ensinar o que aprendeu com seus pais: “pense em você, filha. Nenhum homem vale a sua vida e os seus sonhos”. “Vamos juntas sair daqui, mãe!”. “Não posso, filha. Seu pai não deixa”.

Martha acha que não entende muito de nada. Aprendeu a se sentir burra e é frequentemente lembrada de sua “burrice” por Reginaldo. Não se interessa por política nem por nada. Mas sonha com tudo. Sonha com vida, liberdade, amor, segurança e respeito.  Sonha com tudo que não tem. Com tudo que não ousa admitir que deseja. Sonha escondida de si mesma.

Martha sabe em quem quer votar. Reginaldo também. Votam em candidatos opostos no segundo turno. Esperam coisas diferentes da vida. Reginaldo quer mais do seu mesmo. Martha não quer mais do seu mesmo. Os dois querem dignidade, apesar de dignidade para Reginaldo significar ser obedecido, enquanto para Martha, é ser respeitada. Ambos querem democracia, apesar de democracia para Reginaldo ser o predomínio de suas ideias e para Martha, a existência de alguma coisa na sociedade e no Estado que a proteja de um mundo insano.

Estes personagens são inventados. Talvez existam exatamente desse jeito, exatamente com essa vida, só que com outros nomes e outras imagens. Repare que neste texto não se diz em quem cada um vai votar, mas, ainda assim, você, leitor, sabe exatamente em quem cada um destes votará.

E, mesmo com valores tão explícitos entre a boçalidade e o respeito, entre a tirania e a liberdade, entre o desrespeito e a dignidade, ainda há quem ache esta escolha difícil…

***
Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Leia também “Não contem comigo”, de Paulo de Tarso Riccordi.