Por um instante efêmero, baixou sua guarda e mostrou a todos seu coração que sangrava algo viscoso.

Nicanor é homem sério, apesar de não ser sisudo. Sorri facilmente quando apresentado a alguém. Sorri mesmo quando não gosta da pessoa. E ele não gosta de gente preta e nem de gente gay. Mas cumprimenta como se gostasse. Racista e homofóbico, Nicanor se fantasia de sujeito bacana e cumprimenta, dá bom dia, sorri, convive. Mas tudo dentro dos limites de que a sua fantasia o afasta da realidade de seu espírito odiante e odioso. Às vezes, depois de cumprimentar quem detesta – abraçar, jamais! – vai discretamente ao banheiro para lavar as mãos.
Martinha é super fofa. É o que todos dizem dela. Em parte, porque ela usa “super” em quase tudo que diz. Super legal! Super gostei! Está superficial, amiga! No seu “super” super dito, ela se fantasia de intensa. Teriam seus afetos tamanha intensidade que tudo dela ou nela seria super. Mas a verdade é que, por detrás da super fantasia, é melancólica. Não se empolga de verdade com quase nada. Nem com quase ninguém. Na solidão, quando não sente necessidade de ser super, enche a cara de qualquer coisa forte o bastante para fazê-la se esquecer de suas angústias ou sentir qualquer coisa para além de sua superficialidade.
Na igreja, Anfáseo fala com doçura. Sua voz grave e aveludada dá às suas palavras um quê etéreo, angelical. Enuncia sabedoria bíblica com olhar doce de quem está a amar de forma incondicional. Mas cristão amoroso é a fantasia que Anfáseo usa. Despido de sua religiosidade de fachada, é como um sepulcro caiado. Reluzente por fora, putrefato por dentro. Seu coração ama si mesmo e o dinheiro, nada mais. Ninguém mais. Nem mesmo sua esposa e filhos. A ela, lhe cabe a servidão de seus caprichos domésticos e desejos de alcova. Aos filhos, louvá-lo e obedecê-lo. Seu verdadeiro deus, Anfáseo vê quando se olha no espelho.
Adalgisa elegeu-se bem votada. Era a renovação política. Diferente de todos e de tudo que já havia sido eleito antes. Ela não seguia as regras, os modos, nem o sentido da política que ela e seus eleitores aprenderam a chamar de velha. Mas deputada Adalgisa não é tão nova assim, nem tão renovadora assim. Longe das lentes que lhe projetam em performances indignadas nas redes sociais, pratica coisas indignas. Combina desvio de emendas parlamentares com dinheiro público distribuído em troca de favores pessoais e eleitorais. De novo nela, só sua fantasia de renovação política.
Adamastor nunca foi criativo. Prefere imitar quem acha que é mais imitado. Por isso se fantasia de conservador. Se diz indignado com coisas que ofendem a família, no caso, a família como entidade social e não como realidade em sua vida. É indiferente aos filhos que não vê há mais de dois anos e não lhes paga pensão. A esposa atual, trai com algumas mulheres pagas em festinhas animadas com drogas. A verdade é que ele não liga para nada do que gente que se diz conservadora diz que liga, mas parece realmente gostar do que gente que se diz conservadora parece gostar.
Nenhum deles vai pular o Carnaval. Não conseguiriam sair por aí com outras fantasias que não aquelas que revestem suas almas perdidas.
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Ilustração: Mihai Cauli
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