O controle da mente no fundamentalismo religioso

João acordou confuso e com frio. Primeiro, percebeu uma mancha que se mexia no meio de uma luz intensa. Com esforço, divisou o rosto enorme de uma mulher que parecia falar com ele. Ouvia ruídos. Talvez fossem palavras.

A palavra “bem” foi a primeira coisa que entendeu. Como a mulher fazia cara de interrogação, imaginou que lhe perguntava se estava se sentindo bem. Não sabia o que dizer. Nem como. Fechou os olhos com força, como se isso fosse uma resposta. Parece ter dado certo porque a mulher sorriu.

Aos poucos, as coisas ficaram mais nítidas. Conseguia distinguir rostos de gente que não conhecia. Confuso, concluiu que perdera a memória. Um acidente, talvez? Passou as mãos na cabeça para procurar algum machucado. Nada.

A mulher que lhe sorrira apareceu novamente. Parecia médica.

– O que aconteceu comigo? – Perguntou com uma voz ainda pastosa.

– Você estava em coma. Do que se lembra?

– Há quanto tempo estou aqui?

– Está em coma há oito anos, mas aqui conosco há apenas dois.

Aquilo era um pesadelo. Tinha que ser! Não se lembrava de sua vida, mas tinha lembrança de como as coisas são. Dos parques, engarrafamentos, lojas e de um cotidiano repleto de pequenos vícios como café e bolo de laranja.

– O que aconteceu?

– Não sabemos bem. Compramos você já assim. Perece ter alguma coisa a ver com uma doença. Covid, talvez.

– Compraram?

– É verdade! Você estava em coma! Deixe eu explicar. Compramos você de um hospital. Somos uma empresa que compra corpos e os vende para novos espíritos serem transplantados nele. Fique tranquilo porque vamos garantir alguém que cuide bem deste corpo. Até melhor que você.

– Mas… Como assim? Fui comprado? E os meus direitos?

– O país agora segue a lei Mosaica. Deus está acima de tudo! – Disse demonstrando contido fervor. – Os cristãos são protegidos pela Lei, mas você não foi batizado e, por isso, é só uma criatura de Deus para nós. Como um boi.

– E os tribunais?

– Não os temos mais desde que foram incendiados pela Milícia dos Templários. Agora, um conselho formado por pastores da Igreja do Estado, empresários e militares é quem decide como a lei de Deus deve ser obedecida e, segundo eles, quem paga por alguma coisa, é dona dela. Seu corpo é nosso agora.

– Eu vou chamar a polícia!

– Isso não existe mais… – disse como se respondesse a uma criança – Agora, temos apenas milícias. A desta região é nossa.

– E os políticos? – Perguntou já demonstrando um melancólico inconformismo.

– Todos foram mortos, com a graça de Deus; logo depois da Revolução Miliciana. Banimos deste mundo as religiões incorretas e os religiosos hereges. Temos uma única igreja, porque Deus é um só. Também não há mais comunistas e nem gays. Apenas famílias. E toda família pertence à Igreja do Estado e a uma empresa. E estas pertencem a Deus! Acabou a baderna que era este país.

– Então… Vocês vão me matar?

– Não! Imagine! Vamos apenas retirar suas memórias, ideias e sentimentos e colocar no lugar as da mente de outra pessoa cujo corpo não conseguem mantê-las mais.

– Mas e eu?

– Você é só uma lembrança, e logo será esquecido – Disse com sorriso de dentes radiantes como os de um comercial.

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