
Javier é um defensor de Deus, pátria e família. São valores tão importantes que insiste que devem ser defendidos a bala. Anda armado para defender a família dos bandidos. Quer militares americanos armados para lhe defender dos resultados das urnas quando estes não são do agrado de Deus. Aplaude genocídios de não cristãos, depredação de igrejas e terreiros, tudo pela defesa armada da vontade de Deus. Javier é cristão convicto das convicções de seu pastor e dorme tranquilo à espera do armagedom pelo qual se esforça.
Martha, esposa de Javier, não é tão cristã quanto o marido. Acha quase todas as ideias do marido um amontoado de bobagens. Lida com elas como se lida com fantasias e brincadeiras de crianças pequenas, com a diferença de que não precisa ficar vigiando tão de perto porque, supostamente, o marido não vai enfiar a língua na tomada, colocar coisas contaminadas na boca, enfim, não vai fazer essas criancices. Ela prefere outras fantasias e afazeres. Suas armas favoritas são outras. Quando Javier sai de casa para seus afazeres em defesa de Deus, pátria e família, Martha se refestela na cama com Janjão, seu amante favorito.
Janjão e Martha estavam distraídos sobre a cama molhada de suor, fluidos e espumante quando a porta rangente da sala anunciou a volta repentina e inoportuna de Javier para casa. Janjão lembrou logo da arma semiautomática que Javier sempre traz consigo enfiada por trás na calça. Buscou esconderijo às pressas. Escolheu o clássico, saltou para dentro do armário segurando, desajeitadamente, suas roupas catadas às pressas.
A mulher foi interceptar o marido antes que flagrasse a cena do crime. Janjão não sabia ao certo o que se passava fora do armário, mas a falta de gritos lhe tranquilizava. Tentava ver algo por uma fresta, mas havia pouco a se ver. Apenas o quarto com seus móveis, tecidos e lembranças imóveis.
Estava tão distraído com a fresta que ainda não tinha examinado o armário. Assustou-se quando olhou para trás. Pensou em sair correndo dali, mas a vergonha e o medo de tomar tiro de um defensor dos valores da família tradicional o conteve.
Havia um mundo ali. Verdadeiramente, outra dimensão. Uma estrada de tijolos verdes e amarelos levavam a mulheres assassinadas, crianças aliciadas para prostituição infantil, um amor incondicional por gente gringa branca e um desprezo escravocrata por gente pobre, preta e nordestina. Tudo isso e muito mais ali, dentro do armário de Javier, envolvido entre suas roupas, acessórios e outros trecos de se emperequetar.
Havia muito no armário de Javier. Muitas coisas que, realmente, não pegavam bem serem exibidas por aí, mas que estavam ali, na escuridão fechada, aguardando o momento de vir plenamente à luz. Aguardando o momento mágico em que brilharão sob o sol, lado a lado com todos os ódios, machismos, preconceitos e burrices que já ganharam o “direito” de serem exibidos por aí.
Janjão é um sujeito de paz. Nunca gostou muito de política. Ao menos, nunca gostou tanto quanto gosta de mulheres e de outros prazeres. Por isso, seguia, sempre indiferente, de eleição e eleição. Mas dessa vez, seu humor mudou. Nunca teve medo de político ruim. Nem de perder direitos que, no fundo, nunca sentiu que realmente os tinha. Mas agora, teme. Treme de medo de que as coisas presas no armário de Javier saiam por aí fazendo das suas.
Janjão precisou olhar no armário para se decidir politicamente. Mas nem precisava. Bastavam ouvidos atentos. Bastava ter prestado atenção aos ruídos. Bastava a atenção que nunca teve porque estava entretido demais com a inocência de seus prazeres.
***
Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
TP: Clique aqui para ingressar no site FURA BOLHA, um espaço democrático onde estão depositados vídeos de excelente qualidade, para serem encaminhados aos brasileiros que ainda têm alguma dúvida se devem votar contra a extrema direita.






