
A vida já caminhava para o virtual. Jornais e revistas, só pela internet. No trabalho, os memorandos tornaram-se e-mails. Depois, mensagens no Whatsapp. Ensebados processos foram virtualizados, esvaziando mesas. Quando veio a pandemia, mesa e sala tornaram-se obsoletos. Pedro agora trabalha em casa.
Vestiu-se para a reunião virtual. Camisa social e cueca furada. A pior que tinha. Escolhida a dedo para a ocasião. Não pela afronta, que só existiria se alguém o visse de corpo inteiro, mas pela satisfação de sentir-se libertário e libertino. No meio da reunião, tirou também a cueca.
Imaginou gente chata escrevendo os despachos tediosos que ele lia. Sobravam-lhes calças e saias, pensou. Fechou todas as cortinas do pequeno apartamento e tirou a camisa social. Trabalho agora, só pelado! Decretou.
Na tela, pipocou mensagem. Notícia de explosão lá longe. Bip anunciou novidade no zap. Respondeu e leu outras. A maioria, gente tentando ser engraçada ou dando boa-noite. Foi aí que percebeu que já era noite. Pouco importa! Na vida online, a noite só vem quando desliga a tela.
Abriu o Face, só pra ver coisas engraçadas. Não estava com paciência pra ler discurso mal escrito de gente indignada. Deixou aberto e foi pro Insta. Colocou música pra ouvir alguma coisa diferente de um bip. Assistiu a vídeos só pra ouvir uma voz humana.
Pensou em correr pelado na rua, gritando e com os braços abertos. Outro bip o trouxe de volta à tela. Mais processos. Fechou o site do trabalho sem nem ver as horas. Buscou gente na internet.
Sentia falta de conversa de verdade. Nas reuniões de trabalho as conversas não são verdadeiras. Há hierarquia e protocolos demais para que alguma coisa ali seja genuína. Desfile virtual de gente tentando ser vista como inteligente e competente. Com camisa social pra mostrar a marca, mas só de cuecas e calcinhas da cintura pra baixo. Ou nem isso. Gente sem carne, sem calor, sem cheiro. Só imagem distorcida pela vaidade e insegurança.
Pensou em abraçar alguém. Sentiu o aperto no peito que sentia de vez em quando, sem saber se era tristeza, medo, angústia ou os três ao mesmo tempo. Que nome teria isso? Se tivesse um nome, saberia que não estava sozinho na sua solidão. Respirou fundo três vezes pra aliviar. Como fazia sempre. Precisou de mais três. E outras três.
As fotos de gente feliz no Face e Insta desanimavam. Também não pareciam de verdade. Felicidade demais. Beleza demais. Deus demais! Tudo da tecla pra tela. Só pra mostrar-se bonito, feliz e piedoso em um mundo carente de beleza, felicidade e piedade.
Tremeu sem saber se de frio, medo ou o quê. Como só podia resolver o frio, meteu-se embaixo do cobertor. Pelado mesmo. Apagou a luz e se deparou com o escuro mais escuro que o normal. Fechou os olhos e ainda via a tela. Pensou nas pessoas que vê e conversa sem realmente ver e conversar. Dormiu com a sensação de serem todas falsas e melancólicas como bonecos de papelão.






