
Ao sairmos de lugares tenebrosos, o Poeta apontou para uma enorme porção de terra de variados tons de verde. Muitos, claros e geométricos, indicando plantas novas cultivadas pelo esforço de alguma inteligência.
Outros, mais escuros e entremeados por pedaços avermelhados. Florestas sendo postas abaixo pelo esforço de outras inteligências.
Traços curvilíneos ligavam estes dois verdes a inúmeros amontoados disformes de oscilante luminosidade.
Quanto mais perto se chegava, mais sombria e malcheirosa a terra se mostrava. Mesmo do alto, podia-se sentir o cheiro horrível da morte misturado com a acidez do ódio e a rançosa indiferença.
– Aonde estamos indo?
– Um lugar de indefinições. Onde tudo é incerto e, por isso, medonho e esperançoso. Cegos de soberba convivem com dóceis entristecidos. Entre uns e outros, legiões de ressentidos bajulam os primeiros e tratam com perversidade os segundos.
– Mas os entristecidos não mostram, falam ou gritam suas tristezas?
– Sim. Mas recebem por isso a indiferença dos soberbos e o achincalhe dos ressentidos.
– Mas não há quem se oponha a tal injustiça?
– Sim. Os amorosos. Respeitados por uns poucos. Odiados por outros poucos. Tratados com indiferença pela maioria.
No centro daquela vasta terra, destacava-se uma torre em forma de espada cravada em uma enorme cabeça morta. Dela, era possível ouvir impropérios ditos com raiva a uma multidão rastejante à sua volta. Que os repetia com ainda mais raiva e os entremeava com gritos, tiros e danças desconjuntadas.
Mais de perto, os cheiros pútridos tornavam o ar pastoso e translúcido. À penumbra que se avistava com dificuldade, era possível distinguir uma grande fila de lamuriosos.
– São os mortos. – Apontou o Poeta. – De doença, raiva, fome e brutalidade.
Andavam lentamente em direção a não se sabe onde. Enfileirados e sozinhos, cada um cantava sua própria história, dores e sofrimentos em uma procissão macabra de rostos retorcidos, lembrando que mesmo após a morte levamos conosco o que cultivamos em vida.
Uns poucos desenfileirados pareciam planar sobre as multidões com encantador ar calmo, mas compadecido.
– Os amorosos! – Disse o Poeta, como se adivinhasse minha curiosidade por aquelas figuras cativantes.
– Não são muitos… – Deixei escapar num murmúrio, quase sem querer.
– A maioria das pessoas daqui se perde de si mesma. Embevecidas pelo poder sobre os fracos ou pela raiva de ser fraco. Unidas no ódio que sentem pelos que consideram indignos.
Uns dominam com brutalidade e indiferença. Outros, tentam se livrar da dominação com brutalidade e indiferença.
Poucos, apenas, os que percebem que o que lhes aflige não é o outro, mas a brutalidade e a indiferença nascidas do ódio que acalentam.
Ao deixarem de reparar nos outros, encontraram a si mesmos. Perceberam e enfrentaram dentro de si o ódio abominável. Aos poucos, tornam-se amorosos. Começaram amando o amor em si mesmos para em seguida amá-lo nos outros.
– Poeta, por que me mostra este lugar entre a alegria e a tristeza. Entre o céu e o inferno. Reino do ódio e suas filhas, a brutalidade e a indiferença?
– Para que diga aos teus o quanto os homens podem produzir mortes para se iludirem de que estão a viver.
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