Cresce a probabilidade de conflitos

Trump, em seu segundo mandato, tem primado pelo isolacionismo e intervencionismo, sem respeitar os marcos legais do direito norte-americano e muito menos o do direito internacional. A retirada dos EUA de 66 órgãos internacionais confirma sua descrença no multilateralismo. A ONU, cada vez mais fraca, perdeu notoriamente sua influência.

Os EUA veem a China como a principal ameaça à sua segurança e aos seus interesses globais. O documento da Nova Estratégia de Segurança Nacional, publicado em dezembro/25, considera um erro histórico o fato de terem contribuído com a projeção da China no cenário internacional.  Assim, eles buscarão afastar a Rússia da China, num claro esforço de reconfiguração das grandes potências. Isso aponta para apoio à reinserção da Rússia no mercado internacional, nas negociações de paz com a Ucrânia e arrefecimento dos planos de expansão da OTAN. Para isso, será necessário um árduo esforço negocial dos EUA com os países europeus.

Os EUA precisam garantir acesso às cadeias de suprimentos e materiais críticos, sendo necessário obstruir as ações da China em áreas estratégicas. A China, por seu turno, tratará de fortalecer suas forças nucleares, balística, poder naval e aéreo, buscando paridade com os EUA e superioridade regional no Pacífico Ocidental.

É inteiramente inusitada a ideia de gerir a Venezuela remotamente e não será nada fácil essa estratégia ser bem sucedida. Ela inaugura um novo conceito: o de comandar à distância, acenando com a ameaça permanente do Big Stick. É o realismo predador do imperialismo norte-americano que quer evitar os fiascos prováveis de novas ocupações, como aconteceu no Iraque e Afeganistão. Contudo, é possível que enfrente alguma resistência armada das milícias venezuelanas.

Para os países da América Latina, o risco de intervenção é aumentado pela presença ultrarreacionária do descendente de cubanos Marco Rubio, que acumula a diplomacia e o Conselho de Segurança Nacional dos EUA. Ele leva muito a sério a nova Estratégia de Segurança Nacional que introduz na doutrina Monroe o corolário Trump: América para os americanos, com utilização de força quando necessário. E para usá-la, são inventadas razões estapafúrdias como o tráfico de drogas e a imigração ilegal para os EUA.

A opção pelo domínio do hemisfério ocidental, estabelecendo áreas de influência norte-americana onde China e Rússia teriam penetração reduzida é um claro sinal da divisão do mundo entre as potências. Os objetos de desejo dos EUA são o petróleo, a energia alternativa, a água, os minerais críticos, as infraestruturas geopolíticas tais como territórios e bases militares. Os próximos alvos prováveis são Cuba, Nicarágua, México e Colômbia.

A aplicação de tarifas tornou-se um poderoso instrumento de chantagem que agora talvez seja aplicado ao affair Groenlândia. Trump simplesmente ignora a parceria de décadas com a Europa e a OTAN, deixando a Rússia à vontade para resolver sua guerra com a Ucrânia.

No Oriente Médio está pendente a paz duradoura em Gaza e na Cisjordânia o que, a depender de Israel, não terá nunca uma solução justa e humanitária. Já para a crise no Irã é difícil vislumbrar uma solução sem novas sanções e intervenções militares.

A China, por certo, continuará se apresentando como parceira confiável para todos os países do planeta que detenham ativos de seu interesse. Continuarão proliferando os tratados de livre comércio com os países africanos e asiáticos, em especial os acordos de transição energética, que também são de interesse da América Latina.

Reina no mundo a imprevisibilidade e o caos geopolítico. Daí, aumentam as probabilidades de conflitos. Nas palavras de José Luis Fiori, professor emérito de economia política internacional da UFRJ, em seu artigo “A ordem e o caos, longe do equilíbrio”, publicado no Observatório Internacional do Século XXI, em janeiro de 2026:

Não há dúvida de que a desordem e o caos contemporâneos devem ser mais intensos e se prolongar por mais tempo do que no passado, porque desta vez, o epicentro da convulsão mundial envolve o deslocamento e o ocaso da “hegemonia civilizatória” da Europa.

Evidentemente, é mandatória a expansão cada vez maior das grandes potências mundiais para conquistar e monopolizar o poder global, ou parte dele, e impedir sua equiparação/superação pelos concorrentes.

Fiori descreve dialeticamente esse movimento como, primeiramente, uma “condensação energética” que termina com uma “explosão expansiva” amealhando novos territórios e ativos estratégicos. Segundo ele, “a desordem e o caos que o mundo está vivendo são parte dessa explosão que deverá prolongar-se – muito provavelmente – por toda a segunda metade do século XXI.”

Diz ainda Fiori:

A nova expansão do sistema interestatal aponta para a conquista do espaço sideral e do fundo dos oceanos, e para a manipulação genética da espécie humana e o controle à distância da mente humana. Por trás desse caos, desenvolve-se uma luta à morte entre as potências ascendentes e as que resistem a retirar-se do epicentro do poder mundial, em particular a Europa, neste caso. Trata-se de uma luta que não respeita regras e atropela todo tipo de normas e instituições preestabelecidas. Mas o tempo da resistência das velhas forças dominantes pode ser muito longo – deverá ser muito longo.

É simplesmente impossível prever onde isso terminará. Mas, segundo Fiori:

Uma coisa parece certa nesta terceira década do Século XXI: o que estamos assistindo não é apenas o fim da ordem mundial do pós-II Guerra Mundial e do pós-Guerra Fria. É o fim da hegemonia ética e cultural do “universalismo europeu”, que foi até hoje o verdadeiro “software” do sistema interestatal que nasceu na própria Europa, e se universalizou no Século XX. Por isso o estrondo que estamos escutando é tão forte e assustador!

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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