Quando criança, Giovanna era daquelas meninas que estrangulavam pelúcias em fortes abraços. Continuou assim. Adulta, abraçava mais pessoas. Quando havia pessoas para abraçar. Na falta, contenta-se com doces.

Há um para cada momento. Para os felizes, quindim. Solar, brilhante e com aquele croc croc dos pedacinhos de coco queimado que parecem fogos de artifício fazendo um réveillon na boca.

Os momentos de tranquilidade pedem pudim. Simples, sem ser banal. Cremoso, sem ser rançoso. Espetacular, sem ser presunçoso. E ainda tem aquela sensação geladinha na boca que lembra o ar fresco prometendo um bom dia.

Mas para encarar a tristeza, a angústia e todas as infelicidades, leite condensado. Aos litros. Bruto e energizante como choque elétrico. Bebido direto da lata, sem fineza. Ao contrário de quindim e pudim, leite condensado é coisa íntima.

Descabelada, descalça e nua, atraca-se à lata em pé, em frente à porta aberta da geladeira. Ou no sofá, cutucando as tristezas com filmes melosos. Às vezes, aos prantos, lambuza-se no banheiro. Entre o trágico e o patético. Como se tomado pelos poros e orifícios a magia do leite condensado fosse mais intensa.

Os vizinhos acham estranho quando a veem chegando do mercado com tantas latas. Uma vez, um deles perguntou se ela era doceira. Talvez quisesse um doce. Ou só puxar assunto, vai saber. Ela olhou o sujeito de alto a baixo. Não era feio. Também não era bonito. Dava pro gasto, pensou. Respondeu com um não seco e seguiu sozinha.

Busca os doces para tirar o amargor da sua vida, que começou com o isolamento. Menos pela pandemia e mais por vontade, só que com desculpa sanitária. Solitária por vontade e, ao mesmo tempo, sofrida de solidão.

Quer gente, mas não quer gente amarga. Que amargura com sua estupidez. Quer gente doce como leite condensado. Que lhe empastele as entranhas de doçura. Enquanto não acontece, vive como pária. Lambuzada de leite condensado.

Isolada, vê o mundo mais pelas notícias. Amargas como jiló. Tudo encarece enquanto ela empobrece. As compras, reduzidas ao essencial. E leite condensado é o essencial mais que essencial. Mais que saúde e estudos. Para que conhecimento e saúde, se a única coisa que a faz sentir-se bem já sabe qual é?

Num devaneio, pensou em encher a banheira de leite condensado. Talvez colocasse alguns biscoitos também, só para que algo lhe roçasse o corpo no banho. Colocaria alguma música trágica. Talvez, Turandot! Naquela ária em que a princesa entristecida decreta ao mundo a insônia, terminaria tudo, deixando o vermelho dos pulsos manchar o doce mar amarelado com ilhas de biscoito.

Esqueceu a ideia tola numa lata de leite condensado. Tomada em pé mesmo. Não tinha banheira. Nem dinheiro para encher uma. Talvez nem de água.

Ficou esperançosa quando soube da montoeira de leite condensado que o governo comprou. Coisa boa. Talvez estivessem como ela, tentando livrar-se dos ressentimentos. Tentando deixar de ser pária. Tentando curar-se de uma doença da alma para a qual não há remédio ou vacina. Só o alívio condensado.

Ou, talvez não. Só outro pensamento bobo. Otimismo de uma alma curtida na alegria do leite condensado.