
Thiago parou para tomar um café. Estava cansado de perambular pelo shopping. Detestava shopping. Mas insistia em enfrentar o detestável. Era preciso comprar um presente para sua mãe. Aprendeu desde cedo, de aniversário em aniversário, de natal em natal, de dia disso e dia daquilo, que afeto se demonstra com o cartão de crédito e romaria em shopping.
O chantili deixou o café gorduroso, frio e meio aguado. Bebeu de uma vez, com raiva do café e de si mesmo por ter pago mais um tanto por aquela peruca branca na xícara. Estava tudo errado. O café e os sentimentos. Dia das mães deveria ser para se comemorar o amor e não para sentir raiva.
Dedilhou o celular em redes sociais lotadas de imagens fofas e textos melosos. Viu mensagens amorosas de gente asquerosa. Despudor sentimental em palavras que anunciavam sentimentos não sentidos. Como os protocolares cumprimentos natalinos que fazem perversos desejarem paz e felicidade aos que entristeceu antes e entristecerá depois da ceia.
Pediu outro café. E uma garrafa de água com gás, para tirar o sebo do chantili do céu da boca.
Pensou nos sentimentos e nos sofrimentos. Mensagens de amor deveriam trazer paz e esperança. Se fossem sinceras. Na sua formalidade festiva, só provocam estranhamento.
É como se no despudor do dito por dizer, um silêncio bizarro fosse imposto. Silêncio dos afetos. Silêncio dos sofrimentos.
Como o silêncio das mães do Jacarezinho, e das de tantos outros Jacarezinhos, que perderam seus filhos para a violência.
Como o silêncio sofrido das mães de policiais deste país enlouquecido de violência. Orgulhosas, mas temerosas de que o abraço que dão no filho possa ser o último.
Como o silêncio das mães silenciadas por maridos, noivos e namorados que as espancam e matam movidos por seus orgulhos disfarçados de amor.
Como o silêncio das mães que não têm o que dizer porque colocaram o amor ao dinheiro, ao status e ao prazer acima do amor pelos filhos.
Como o silêncio das tantas mães e filhos que acompanharam a morte sufocante de quem se ama, assassinado pela ignorância e má fé no enfrentamento à pandemia de Covid-19.
Como o silêncio faminto e desesperado das mães que não sabem onde conseguir comida para seus filhos.
Como o silêncio de tantos silenciados pelo desamor que os exclui e mata por terem a cor errada, o corpo errado, o gênero errado, o nascimento errado, a nacionalidade errada, a religião errada e tantos outros erros que os preconceitos conseguem inventar.
Talvez fôssemos mais amorosos se, ao invés de palavras bonitas, posts reencaminhados no WhatsApp e compras de presentes, fizéssemos um instante de silêncio reflexivo.
Deste silêncio, quem sabe, pudesse surgir algo mais transformador que uma mensagem bonita. Talvez, uma oração sincera por quem sofre. Ou um abraço amoroso, mais valioso que o mais caro dos presentes. Talvez surgisse um “eu te amo” que valesse à pena e precisasse ser dito, porque sincero. Talvez, nascesse por quem foi silenciado um amor como o de mãe, incondicionado.
Pagou o café e foi-se embora sem comprar nada. Precisava abraçar sua mãe. Já! Por amor e pelo amor. Só aquele abraço seria capaz de devolver-lhe a paz que o mundo lhe roubou.
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