Tudo só depende de você! Dizia uma moça quase aos gritos. Explicava no YouTube, com palavras estranhas, como ganhar dinheiro. Brêndi, brendimárquetin, âp, tárgueti e por aí vai. Tudo sem descuidar do compláienci… Marcelo não fazia ideia do que significavam, mas supunha.

Noutro vídeo, branquelo barbudo, com pinta de barbeiro daquelas barbearias que lhe raspam a cara e o bolso, dizia que tudo só depende de você! Essa frase ficou martelando na cabeça de Marcelo o resto do dia.

Na igreja, ouvia toda semana que tudo depende de Jesus. Pastor dizia que Argemiro tinha uma vida ferrada de tudo. Mas com fé, ficou rico. Já Carlota, tinha dinheiro, mas afastou-se da igreja e agora vive na sarjeta. Loja, carro, casa. Quem tem fé, tem grana.

Marcelo conhece gente que tem muita grana. Os caras da milícia tem muita grana. Muita mesmo. Casas grandes, carrões e armas. Marcelo tem dificuldade de entender porque Jesus dá tudo isso pra gente que mata e rouba.

Nenhum deles vai a igreja nenhuma, mas deram grana para ajudar todas. Padre e pastores da comunidade fazem discursos de agradecimento aos milicianos. Fé estranha.

Saiu de casa andando a esmo pela comunidade, só pra pensar melhor. Entrar para a milícia ou tentar ganhar dinheiro por conta própria? Na milícia, a rotatividade é alta. Seria fácil aceitarem ele. Ainda mais tendo sido paraquedista. Atirava bem. Mas só em papelão. Atirar em gente devia ser diferente.

Ouviu dizer que brasileiro é naturalmente empreendedor. Não sabe muito bem o porquê. Nem mesmo depois de assistir tantos vídeos de gente branca dizendo como é fácil ganhar dinheiro. Que é preciso foco, disciplina e umas coisas em inglês. Marcelo não sabe se tem essas coisas. Mas sabe que tem fome e que não tem dinheiro. E que é preto. E que pra preto, a coisa não é fácil do jeito que branco acha que é.

Na TV vê muito branco reclamando de imposto. Na comunidade não tem imposto. Nem alvará e nem licença. Mas tem a milícia. Que tem que deixar trabalhar. E pagar taxa de proteção. Rico que não paga, é processado. Perde o carro. Pobre que não paga, perde a vida.

Talvez pudesse trabalhar no tráfico. A milícia toma conta do tráfico. Os traficantes são os mesmos de antes. Todos jovens, com fuzil na mão e coisas douradas penduradas pelo corpo. Tudo igual ao que sempre foi, menos a chefia.

Dobrou a esquina e deu de cara com o chefe da milícia. Lembrou do vídeo do branquelo barbudo. Tudo só depende de você. Tinha fome, um celular e uma cama na casa que a mãe alugou dos milicianos. Devia o aluguel e o resto da grana que tinha gastou no enterro da mãe. Lembrou do pastor. Tudo depende de Jesus. Era um sinal.

Num golpe rápido, arrancou a pistola da cintura de um dos seguranças. Sem hesitar, atirou à queima-roupa no chefe da milícia. Morreu pensando que atirar em gente não era igual a atirar em papelão.