Como pode um Deus sábio ter achado boa sua criação se nela há tantas monstruosidades?

O espelho não mente, e concorda com os comentários da gente que o vê. João é lindo. De corpo e rosto. Coisa de modelo. E sabe ser bonito. Macho alfa. Playboy padrão. Vaidoso com motivo estético para isso. Aumentou ainda mais sua vaidade quando retirou os cabrestos do bom senso. Tomou a red pill que viu na internet e deu à seu narcisismo uma intrincada sociologia na qual sua aparência e virilidade teriam o direito natural de resplandecer contra a falta de macheza e feminilidade que apequenariam a humanidade.

Maria também é bonita. Como as princesas dos antigos desenhos infantis, de pele branca como a neve e cabelos negros como a asa da graúna. Lábios vermelhos que fazem crer a quem os deseja terem gosto de framboesa e olhos de um azul profundo como as mágoas dos amores não correspondidos por ela. Um bibelô de corpo esculpido em dietas, academias e intervenções médicas. Encontrou em João seu grande amor. Juntos, irradiam beleza por onde passam.

As quatro paredes de seu quarto testemunham as refregas amorosas e também os tabefes que, vez ou outra, João estampa na cara de Maria. Ela grita, chora, apanha novamente, às vezes toma um soco ou chute e, ao final, se cala. João sempre se arrepende. E diz que a ama. E Maria sempre acredita. E diz que também o ama. E João faz tudo novamente, sempre que se sente inseguro quanto a não ser tão alfa, tão macho ou tão bem-sucedido quanto faz questão de parecer ser.

Maria também faz das suas. Os tapas e humilhações que sofre em casa desconta nas empregadas, nas atendentes de lojas, nas garçonetes. Espezinha mulheres que aparentam ter menos dinheiro ou mais medo de não se submeter do que ela. Mente, distorce, inventa e teatraliza sempre que se vê contrariada ou pelo simples prazer de ferrar com a vida alheia. Só mexe com homens acompanhada, para provocá-los e ser “defendida” por João. Suspira de amor verdadeiro quando a mão que a esmurra, soca outro rosto por sua causa.

João não gosta de pobre. Nem de gente feia, o que, para ele, dá na mesma porque acha todo pobre feio e culpado pela pobreza. Acha que pobre é gente preguiçosa e ignorante. Diz isso para quem quiser ouvir, e sem constrangimento, apesar de ser ele próprio preguiçoso e ignorante mesmo de coisas básicas da vida ou do trabalho. Sua competência vem de sua beleza, segurança de si, bajulação de gente acima de si, nojo e impiedade para com gente abaixo de si. Uma verdadeira fórmula do sucesso no seu mundo de pessoas sempre ocupadas em ganhar dinheiro.

Maria também não gosta de pobre. Acha que fedem. São porcos e têm cara encardida. Não sabem se cuidar, como ela. Nem pensar como ela, sempre certa de tudo. Por isso não merecem o que ela tem. A casa que ela tem. O corpo desejável que ela tem. O homem bem-sucedido que ela tem.

Mas, às vezes. Só às vezes e por muito pouco tempo, tanto João quanto Maria se veem atravessados por uma estranha melancolia. Afetado assim, João se pergunta se é feliz. Maria chora escondida sem saber por quê. João foge das dúvidas ligando para a amante. Maria foge do choro publicando suas fotos sensuais no Instagram.

Seguem a vida indiferentes a si e aos outros, na sua maravilhosa monstruosidade.

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Ilustração: Mihai Cauli
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