
O réveillon foi como todos os outros. Ainda de ressaca, Alberto via memes sobre uma cidade chinesa de nome esquisito e uma doença. Só mais um entre os de gente bêbada dando vexame, gatos em cambalhotas, dancinhas, dublagens toscas e Instagramers fazendo graça. No final do mês, estava aliviado por morar tão longe da nova gripe e não comer morcegos.
Passou o carnaval entre a embriaguez, o cansaço e o êxtase. Curtiu com a alegria dos inocentes seu último momento de tranquilidade. Em março, estava amedrontado com a doença, mas esperançoso. Não seria nada grave.
Tudo parou em abril. Nada demais. Seriam só uns 15 dias confinado. Depois vieram mais 15. Mais um mês. E outro. Aplausos para lixeiros e enfermeiros fortaleciam o ânimo de aguentar-se em casa. Com o humor habitual, as redes enalteciam a possibilidade de salvar a humanidade deitado no sofá e tomando cerveja.
As piadas sobre heroísmo perderam a graça quando Alberto perdeu o emprego. Teria auxílio emergencial. Ou não. Cada hora falava-se de um valor, data e critérios. Restou a esperança de que a grana da indenização pagasse as contas até lá.
O auxílio veio. Baixou aplicativo. Falhou. Tentou de novo. Falhou de novo. Mais uma vez. Conseguiu. Dias depois, foi negado. Não soube o porquê. Viu que gente empregada recebeu. Descobriu que a incompetência é amiga dos ambiciosos. O ano ainda teria muitas descobertas.
Descobriu que seu casamento não resistia ao desemprego e à convivência. Entendeu que esta e outras relações da sua vida eram frágeis como a casa de palha da história infantil, que não aguenta o sopro do lobo. Sobraram uns poucos amigos. Os de sempre.
Próximo do fim da grana, conseguiu o auxílio. Teve que ir ao banco. Com fila na porta e sol na cabeça. Voltou pra casa com dor, mas aliviado. Dias depois, descobriu que estava com Covid.
No começo, foi gripezinha. A esperança de que continuasse assim durou pouco. Veio cansaço anormal e falta de ar. Um amigo o levou ao hospital. Acabou entubado. Acordou dias depois. Sem saber o que tinha acontecido. Um médico explicou que entrou em coma, mas que ficaria bem.
Sobreviveu para contar. Pediu nas redes que as pessoas se protegessem. Quanto mais se engajava contra a doença, mais as pessoas pareciam não ligar. O medo não era tão grande quanto o incômodo do vazio de estar sozinho consigo mesmo. Ou acompanhado de alguém por quem se descobriu a fragilidade do afeto que os unia.
Passou o Natal sozinho. Imaginando se não teria passado todos os outros sozinho também, apesar da gente em volta. Percebeu as pessoas esperançosas por causa da vacina que não sabem quando e nem para quem chegará.
Concluiu que não queria que as coisas voltassem ao normal. Não aquele normal em que tudo era falso. Mas também não queria esta anormalidade em que tudo é cruamente verdadeiro.
Abriu outra garrafa de vinho e brindou sozinho. Bebeu em busca do esquecimento e de alguma ilusão mais doce que a realidade.






