
No último dia 28 de fevereiro, acordamos com as notícias da concretização do que já estava desenhado há pelo menos duas semanas. Os EUA estavam atacando o Irã em parceria com Israel. Apesar da desproporção de forças, como esperado, o Irã reagiu dentro das suas possibilidades, bombardeando Israel e bases estadunidenses em países do Golfo Pérsico.
O mote oficial para o ataque ao Irã foi pressionar o país a fazer concessões na mesa de negociações em um processo que ocorria em Genebra, na Suíça. Muito claramente, a substituição da força dos argumentos pelo argumento da força. Aliás, essas negociações foram feitas no passado de forma multilateral (envolvendo alguns outros países), fechadas no período do governo Obama nos EUA e rompidas pouco tempo depois pelo próprio Trump em seu primeiro mandato.
O centro das negociações tradicionalmente é a limitação à capacidade de enriquecimento de urânio por parte do Irã, buscando evitar que aquele país atinja a situação de potência nuclear (ou seja, tenha a capacidade de produzir armas nucleares a partir do urânio enriquecido). Sobre esse tema o Irã sempre negociou – esta não seria a primeira nem a última vez.
Entretanto, há que ver o conflito segundo duas óticas importantes, dentro das muitas pelas quais ele pode ser analisado.
A primeira diz respeito à questão específica do Oriente Médio e das afirmações das posições israelenses na região. Isso ficou claro já no ano passado, com a troca de bombardeios entre o Irã e Israel. Israel entende que o Irã hoje é o seu principal adversário na região, e até pouco tempo antes da guerra e genocídio em Gaza se via cercado de aliados iranianos nas suas fronteiras (o Hamas na Faixa de Gaza, o Hezbollah no Líbano, particularmente no Sul, e a Síria do governo Assad – os fundamentalistas sunitas derrubaram o governo de Assad, na Síria, e na guerra em Gaza Israel atingiu pesadamente o Hamas e aproveitou para avançar sobre os xiitas do Hezbollah, no Líbano). Além disso, Israel aproveitou a guerra para atacar o Irã diretamente, já naquela época com apoio dos EUA, fazendo o que o presidente estadunidense chamou de obliteração da capacidade de desenvolvimento nuclear dos iranianos. Israel e os EUA, naquela altura, atuaram sem nenhuma resistência ativa por parte dos governos árabes de maioria sunita na região, embora a ação tenha dificultado o plano de Israel e EUA de reforçar laços diplomáticos e econômicos de Israel com alguns desses governos. Agora, é como se Israel e EUA atuassem para completar o serviço iniciado no ano passado, visando obliterar (para usar o termo anterior) a capacidade de produção de mísseis balísticos pelo Irã (que se mostraram bem eficientes no ano passado e mesmo na atual guerra) e tentar promover o que chamam de uma mudança de regime no Irã, desarticulando a atual liderança iraniana. Desse ponto de vista, os EUA estão funcionando como uma poderosa alavanca para Israel.
A outra perspectiva é ver a guerra dentro de uma disputa mais ampla entre EUA e China. A China se tornou um enorme parceiro econômico do Irã, sendo inclusive o maior importador de petróleo iraniano. O território iraniano também é um importante apoio para as rotas logísticas chinesas. A China também avançou na cooperação diplomática e militar com o Irã. E, obviamente, desde a revolução islâmica no Irã em 1979, o Irã busca estar sempre em oposição aos EUA no cenário mundial, com a evidente desproporção de poder entre os dois lados. Assim, nesse xadrez geopolítico internacional, o Irã funcionava, na defesa de seus próprios interesses, como um parceiro chinês e um inimigo dos EUA. Mudar o regime, nos padrões estadunidenses, significa evidentemente afastar o Irã da China.
Sempre é muito difícil fazer análises ao mesmo tempo em que as coisas estão acontecendo, e muitos movimentos estão em curso. Mas talvez seja fundamental pensar em alguns possíveis desdobramentos do conflito, pelo menos sob esses dois pontos de vista, não desconhecendo que existem outros possíveis.
Do ponto de vista de um conflito no Oriente Médio, até aqui o que temos visto é uma escalada do problema. A questão Líbano-Israel, que estava administrada, voltou com os ataques de Israel ao sul do Líbano, área de grande influência do Hezbollah. Mas lembramos que a população libanesa é bastante mesclada, e que um míssil israelense disparado especialmente contra áreas urbanas altamente povoadas no Líbano não diferencia um xiita de um sunita, um cristão ortodoxo ou maronita, um druso. Ou seja, o ataque israelense vai fazendo um estrago humanitário, mas também político. No caso dos governos sunitas da região, a situação também é de uma saia justa, pois em um conflito entre um país muçulmano, mesmo de maioria xiita, e Israel, será difícil para esses governos justificarem o apoio à coalisão EUA-Israel do ponto de vista das massas muçulmanas de seus países. O mesmo vale para a Turquia, maior país muçulmano no Oriente Médio, e que já no massacre de Gaza se distanciou de Israel.
Finalmente, há que lembrar que os três maiores países de população muçulmana majoritária no mundo, Indonésia, Paquistão e Bangladesh, não ficam diretamente na área do Oriente Médio (embora o Paquistão faça fronteira com o Irã), mas em caso de uma guerra com forte componente religioso, a bandeira de uma solidariedade muçulmana pode funcionar para tensionar as sociedades nacionais desses países (assim como no norte da África, e em outras partes desse continente – a Nigéria também é um país com maioria muçulmana, por exemplo). Ao atacar bases estadunidenses na Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes, Iraque, Jordânia e outros países, o Irã aumenta o custo político para esses governos de seu alinhamento aos EUA.
Tomando como referência um conflito geopolítico mais amplo, vai ser fundamental ver como a China (e também a Rússia), até aqui com perfil bem baixo no conflito, vai se movimentar, na medida em que as coisas seguirem se aprofundando. Como falado, a China tem muitos interesses estratégicos na região e contava com o Irã para eles (energia, logística), e a Rússia é vizinha do Irã (os países são separados pelo Mar Cáspio) e seguramente não gostaria de ver um governo títere dos EUA perto de suas fronteiras. A Rússia inclusive, depois do fim de semana, subiu um pouco o tom, no sentido da defesa de um cessar-fogo e retomada das negociações no âmbito diplomático – o que é agora claramente insuficiente, mas há que ver até que ponto vão. Em todo caso, esse xadrez geopolítico é bem mais complexo.
O Irã até aqui demonstrou uma capacidade de resistência importante, e não se intimidou com a dureza dos primeiros ataques. Tomando por base alguma experiência internacional (particularmente de Israel com alguns países da região), os EUA imaginaram que liquidando o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, o governo iraniano ficaria desgovernado. Mas o país e o regime político-religioso mostraram resiliência e institucionalidade, não só mantendo seu funcionamento e resistência frente aos pesados ataques a que está submetido, como articulando rapidamente não apenas o processo sucessório, mas os mecanismos de transição. É evidente que não está em uma situação simples, mas joga com o tempo a seu favor, pois quanto mais tempo resistir e impor algum custo a Israel e EUA, mais aumenta sua capacidade de resistir, e aparentemente até aqui uma mudança de regime parece implicar uma campanha terrestre que os EUA não parecem dispostos a levar adiante depois da derrota no Afeganistão e no impasse que armou no Iraque. O crescimento do conflito na região também faz com que cresçam os limites à intervenção ampliada de Israel.
Finalmente, vale um comentário breve sobre o papel subordinado cumprido até aqui pelos governos europeus, talvez com a notável exceção da Espanha. Ao invés de apostar na institucionalidade multilateral de defesa da paz, reforçam por um lado seu alinhamento militar e diplomático aos EUA, enquanto no longo prazo amplificam os tambores da guerra, falando em novo rearmamento e crescimento do poder bélico nuclear. O posicionamento desses países, França à frente, faz lembrar com saudades o discurso do ministro de Relações Exteriores da França, Dominique de Villepin, do conservador governo Chirac, defendendo no início do século a Carta da ONU, a paz, e contra a legitimação da invasão dos EUA ao Iraque no Conselho de Segurança da ONU. Outros tempos…
***
Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
Leia também “Jeff Bezos e o ataque de Trump ao Irã”, de Halley Margon.






