Entrou na sala com cara feliz. Cumprimentou com o balbuciar estranho, meio educado, meio desdenhoso e, sobretudo, arrogante que de tão habitual ninguém mais via como estranho, desdenhoso ou arrogante. Nem como educado. A sala estava agitada, como seria de se esperar, dada a tensão da situação. Havia vidas em jogo e, principalmente, o que para todos aqueles homens valia muito mais do que vidas: dinheiro. A chegada do presidente, se não os acalmou, ao menos iniciou o gradual silenciamento e ocupação de seus lugares previamente marcados ao redor da imensa mesa de madeira nobre vinda de terras distantes.

– Quero café… O que ele está bebendo? – perguntou o presidente apontando para um General em cujo peito da gandola mal cabiam as inúmeras medalhas coloridas.

– Cappuccino – antecipou-se um assessor com ares, cheiro e pinta de bajulador. – Vou preparar um para o Senhor! – emendou já apontando para um garçom que entendeu que a incumbência seria sua.

– Quero! Quero um cappuccino!… Não! Quero o cappuccino dele. Na caneca dele. Gostei da caneca. Dê para mim.

O General hesitou por um instante. O perspicaz almirante ao seu lado, viciado em poker, percebeu a leve tremida na sobrancelha esquerda que denunciava o ultraje. Com um movimento lento, entregou a caneca ao assessor que já estava de mãos estendidas ao seu lado.

– Qual a situação? – iniciou o chefe depois do primeiro gole de cappuccino.

Um dos generais pôs-se maquinalmente de pé ao lado de um quadro no qual se projetava um grande mapa do Oriente.

– Nossa primeira onda de ataques foi bem-sucedida. Garantimos a superioridade aérea e…

– Este capuccino está frio. Quero outro! – interrompeu-o o Presidente.

– Sim senhor! Vou corrigir isso! – disse o assessor já olhando com ar de reprovação para o garçom que havia entregue o capuccino que acabara de preparar para o General medalhudo que naquele momento, instintivamente, puxava a caneca mais para perto de si enquanto inflava o peito.

– Como dizia… – continuou o militar de forma ainda mais maquinal – concentramos nossos ataques nesta região. Os pontos em vermelho são alvos militares atingidos com sucesso.

– E os pontos amarelos? – perguntou, meio hesitante, o único homem daquela sala que não era militar, não usava terno azul marinho com camisa branca e gravata vermelha e não era branco caucasiano.

– São danos colaterais – explicou o militar, já demonstrando contrariedade com as interrupções.

– Como a escola cheia de crianças atingida por mísseis? – insistiu o não caucasiano.

-Sim. – O general respondeu secamente, sem esconder a impaciência.

– Quem é você? E este cappuccino está muito ruim. Quero outro – disse o Presidente.

O assessor olhou fuzilante para o garçom que, com o olhar estupefato, parecia perguntar “não sei mais o que fazer?”.

– Sou o professor Arash Kamran, sou especialista em…

– E você é americano? – interrompeu o Presidente.

– Sim, Senhor Presidente, de Chicago.

– Você sabe fazer capuccino?

– Não, Senhor Presidente, como dizia, sou Doutor em…

– Então saia. Não precisamos de seus serviços.

O assessor, ágil como um felino, colocou-se atrás do professor lhe segurando pelo braço, como se ele resistisse em sair da sala.

Mal foi colocado um novo cappuccino fumegante em sua frente, um assessor de terno padrão azul marinho anunciou ao Presidente: – Senhor, Benjamim está ao telefone. Pergunta se pode lhe falar agora.

– Ah! O Ben! Sim, claro! – disse o presidente, com ar de contentamento e já fazendo sinal para que todos saíssem da sala. – Gosto muito de falar com Ben. Ele sempre tem ótimas ideias. E tirem essa coisa da minha frente. O que é isso?

– Cappuccino, Senhor. – Disse o garçom.

– Eu não quero isso. Quero um café.

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Ilustração: Mihai Cauli
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