Quando acorda, Renê duvida. Duvida de tudo. Até de que pense e exista. Mas sua dúvida não é um pensamento. É sensação que paralisa até o pensamento. Só começa a melhorar quando põe o pé no chão. A certeza, ainda frágil, de que não cairá num abismo ao deixar a cama é sua primeira prova da existência do mundo e de um Renê para pisar nele.

O primeiro copo de café, daqueles grandes, tira o resto do corpo da letargia. No pão com manteiga derretida e geleia, Renê já está consciente de si mesmo, da realidade, das deliciosas sensações em sua boca e de que precisa fazer uma dieta.

Com a mão ainda engordurada de manteiga dedilha o celular. Só para relaxar a cabeça. Olha por olhar. Às vezes se flagra lendo uma mensagem motivacional ao lado da foto de uma bunda ao pôr do sol e se dispersa, mas a bunda rebolante do vídeo seguinte o devolve rapidamente ao vazio.

Renê se pergunta se a realidade das redes é real. Se tantos vivem nas redes e delas, então essa seria sua realidade? Se o real for o que está por detrás das telas, então o real não se vê. Nem se sente. O real sumiu! As pessoas exibem corpos e pensamentos que não são seus, emoldurados com cores, sombras e vocabulários que não são seus. E o que é delas? E elas? Onde estão?

Concentrou-se no que sabia. Pegou um Uber até o trabalho. No caminho, revezava entre a paisagem e o celular. Esqueceu a paisagem quando viu uma modelo daquelas magras e elegantes. Que já foi contracapa de alguma revista e já posou para alguém famoso. Estava indignada porque os jornais chamavam de modelo a moça que cobrou mil reais para transar com o funkeiro que se jogou do alto do prédio.

Ela ganha dinheiro com sua beleza, mas não daquele jeito. Não topa. E tem medo que pensem que seu corpo esteja à venda. Nos comentários, alguns lhe davam razão. Outros não. Não a entendem, pensou Renê. A modelo sabe que ela não é quem ela é, mas quem acham que ela é. Não é mimimi, é luta existencial.

Almoçou vendo e ouvindo depoimentos em uma CPI. Senadores performáticos e ministros gaguejantes se engalfinhavam.

Renê entendeu que nela os fatos não importavam. Fatos são – ou eram – coisa do mundo real. Daquele concreto, que sabemos que existe quando colocamos o pé no chão e não caímos em um abismo. E que como o chão, continua sendo o que é, indiferente ao que falamos ou fazemos em cima dele. O real das redes é diferente. Gelatinoso, como ele é só imagem e som, muda sempre que alguém diz ou faz alguma coisa.

Os fatos estão às vistas. Concretos como 400 mil mortos. Sufocantes como a falta de oxigênio. Confessos em vídeo com a clareza de quem diz que não vai comprar vacina e pronto! Negado por ex-ministro adoentado de medo. E tudo isso parece nada. Ninguém faz nada. Como se a realidade concreta tivesse se dissolvido numa enxurrada de coisas ditas.

Renê teve que deixar a sobremesa de lado. Perdeu tempo demais e o apetite prestando atenção à TV. Voltou para o trabalho olhando para o chão, só para ter a doce certeza de que ele ainda estava lá.

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