Desde o fim do século passado, ou seja, mais ou menos nos últimos 50 anos, a integração latino-americana se apresentou como uma estratégia possível de desenvolvimento conjunto dos países da região frente a um mundo em transformação – e foram várias as transformações. Essa possibilidade animou militantes e formuladores de políticas na região, e apareceu como mais possível exatamente na primeira década desse novo século, quando era grande a quantidade de governos na América Latina que buscavam construir uma alternativa de desenvolvimento à subordinação convencional.

Nessa esteira, se aprofundou o Mercosul, se resistiu à proposta estadunidense da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas, cuja rejeição completou formalmente vinte anos no ano passado), se construíram a UNASUL (União das Nações Sul-Americanas) e a CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos). O Mercosul, como união aduaneira, se ampliava com a perspectiva de agregação de outros países da América do Sul, e se esteve à beira de criar o chamado Banco do Sul, um banco de desenvolvimento controlado pelos países sul-americanos. As perspectivas não eram fáceis, mas as oportunidades eram múltiplas, e a vontade política abria possibilidades de avanço.

Hoje, entretanto, essa possibilidade de futuro parece difícil, aparentemente abalroada pelas ações de ao menos três importantes atores políticos disputando a hegemonia na região.

O primeiro deles, evidentemente, são os Estados Unidos. Desde a derrota da proposta da ALCA, os EUA haviam, informalmente, ameaçado e advertido os países da região a respeito de sua tática para confrontar o fracasso de um projeto mais amplo. Esta passava por dividir os países da região, pressioná-los individualmente, fazer ofertas parciais, buscando impossibilitar que o projeto de integração seguisse adiante. Foram usados no primeiro momento instrumentos comerciais (oferta de acordos de comércio a grupos de países) e financeiros (advindos do poder financeiro dos EUA, em especial nas agências de desenvolvimento da região, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento). Esse instrumento funcionou especialmente na sequência da crise de 2007-2008 e da queda dos preços das commodities, que deixou muitos países em situação complicada do ponto de vista econômico.

A partir do primeiro governo Trump, se somaram a esses instrumentos pressões maiores de natureza política, que nesse segundo governo se evidenciaram na explicitação da velha Doutrina Monroe (a América para os americanos – leia-se, estadunidenses). A partir de agora, formalmente, os EUA anunciavam que não tolerariam flertes de países da região com rivais geopolíticos (como a China). E às ameaças mais explícitas (como fez no caso do Panamá e a questão da manutenção do controle estadunidense sobre a rota do Canal do Panamá), somava ações como o sequestro do máximo dirigente venezuelano em plena Caracas (e sua afirmação de que passaria a controlar o petróleo da Venezuela).

O segundo é a própria China. A China já vinha reduzindo a importância da integração regional latino-americana a partir da gigantesca ampliação de seu comércio e investimento na região. Essa ampliação e a valorização das commodities exportadas pela região haviam reduzido para os países da região a prioridade da integração regional como rota alternativa de desenvolvimento, fazendo com que operassem de novo com a velha e costumeira exportação de commodities agrícolas e minerais, que é o que as classes dominantes locais sabem fazer desde sempre.

Em um segundo momento, a China lança, a partir de 2012, quando a queda dos preços de commodities tinha se consolidado, a chamada Iniciativa Cinturão e Rota, mais conhecida pelo “nome fantasia” de Nova Rota da Seda, um projeto de perspectiva chinesa para sua conexão com o mundo. Esse projeto, evidentemente, envolvia também a América Latina e o Caribe, e dava algumas possibilidades de desenvolvimento a partir da perspectiva chinesa aos países da região. Essa via ficou mais complicada a partir da explicitação da política dos EUA de não quererem ver rivais crescendo na região, mas estava e está colocada ainda.

O terceiro é a União Europeia. A partir de suas relações históricas com a região – vários dos países europeus (como Espanha, Portugal, França, Inglaterra e Holanda) foram potências coloniais –, os europeus buscaram avançar com a oferta dos chamados tratados de livre-comércio (com o México, com a América Central, com o Chile, Colômbia, Mercosul e outros). Os tratados de livre-comércio, ao serem muito mais que tratados de comércio, já que possuem cláusulas de compras públicas, investimentos, propriedade intelectual e outras, funcionam como uma restrição de última instância à estruturação de políticas nacionais de desenvolvimento, que utilizam exatamente esses instrumentos que ficam limitados. Assim, os países da região têm que se especializar na exportação de commodities agrícolas, minerais e energéticas e, com isso, passam a ser mais competidores do que solidários uns com os outros. Um exemplo é o caso do Mercosul: são ofertadas possibilidades nos mercados europeus de soja e carnes, entre outros produtos, aos países do Mercosul. Ocorre que, no que se refere a carne e soja, os quatro países (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) são exportadores desses produtos, ou seja, são competidores por esses mercados. Avança a disputa, e não a integração, entre os países.

Assim, a disputa geopolítica desses gigantes pela América Latina inviabiliza a melhor alternativa que esse grupo de países tinha para uma inserção diferente no cenário internacional: uma alternativa que permitisse maior autonomia para a construção de uma efetiva opção de desenvolvimento que pudesse contemplar as perspectivas sociais, com desconcentração de renda, desenvolvimento tecnológico e industrialização, e ambientais da região.

Não é um dado, essa busca de alternativas é sempre uma construção política, mas no momento e nessa quadra difícil da conjuntura internacional, este caminho está extremamente dificultado.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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