O político da ultradireita espanhola Santiago Abascal e a centrista Inés Arrimadas. EFE

A história toda começou com as ofensas proferidas pelos militantes e simpatizantes do ultradireitista Vox aqui da Espanha contra a deputada Fatima Hamed Hossain do Movimento pela Dignidade e Cidadania de Ceuta. Perra sarnenta (vadia sarnenta, numa tradução aproximada), foi uma das expressões utilizadas nos comentários xenófobos que apareceram em contas oficiais de Vox Fuenlabrada e na de Vox Distrito de Salamanca (ambas de Madri) – as mensagens depois foram tiradas do ar. Mas é esse o nível. Não era a primeira vez que o partido de Santiago Abascal ofendia a deputada. Em junho, o porta-voz da ultradireita em Ceuta se dirigiu a ela com a pergunta/ameaça “E que tal se te deportamos para o Marrocos?”

(Pausa. Mas, afinal, o que estão fazendo na África partidos e parlamentares espanhóis?! Para quem não tem o mapa-múndi na memória, Ceuta, como diz a Wikipédia, “é uma cidade autônoma da Espanha situada na margem africana da desembocadura oriental do estreito de Gibraltar, na pequena península de Almina, em frente a Algeciras e ao território britânico de Gibraltar, situadas no lado oposto do estreito… (é) um enclave espanhol no território do Marrocos…”. Um fragmento do colonialismo encravado no terceiro milênio. Não o único, evidentemente. Os que se lembram das lições de história se recordarão que a conquista de Ceuta marcou o início da expansão portuguesa no século XV – porque, sim, antes de passar às mãos do Reino de Espanha, em 1645, Ceuta foi tomada dos muçulmanos por dom João I, de alcunha João o Bastardo, em agosto de 1415. “O assalto a Ceuta pretendia consumir as energias e a impaciência dos nobres numa campanha que combinava o espírito da cavalaria medieval com as paixões de uma cruzada. Os portugueses foram lá para lavar as mãos com o sangue dos infiéis. E eles mantiveram sua promessa ao pé da letra. Três dias de saques e massacres devastaram um lugar que outrora fora descrito como ‘a flor de todas as cidades da África … (Sua) porta e chave’”, escreve o historiador Roger Crowley.)

As constantes ofensas racistas e/ou xenófobas dos políticos de Vox, combinadas com uma provocativa visita de Abascal a Ceuta, acabaram por produzir um rechaço da Assembleia da Cidade Autônoma (este é o estatuto político institucional de Ceuta na estrutura do Estado espanhol – a outra é Melilla, poucos quilômetros ao sul) que aprovou um decreto tornando o presidente nacional do partido persona non grata na cidade. A proposta apresentada pelo agrupamento ao qual pertence Fátima Hossain foi aprovada graças ao apoio do PSOE (que atualmente governa a Espanha) e a abstenção do partido da direita tradicional, o PP.

Esses são os fatos e, até aqui, tudo dentro do mais esperado dos scripts.

A partir daí, entra em cena a presidenta do autoproclamado centro político espanhol (o Ciudadanos) e abre-se o espaço para o inusitado flerte. Mas será mesmo tão inusitado assim? A trama toda tem um rocambolesco tom de farsa e lembraria o delicioso Rabelais não fosse pela má qualidade das falas e a inescapável miséria mental dos tuites.

Logo após a votação em Ceuta, a presidenta dos centristas Inés Arrimadas tomou a iniciativa de sair em defesa do seu agora amiguinho da ultradireita e publicou no seu perfil oficial do Twitter uma firme defesa de Abascal, qualificando de “inadmissível a decisão da cidade autônoma”. Não se compreende muito bem o que pretende Arrimadas com seu surpreendente apoio ao ultradireitista. Seu partido está literalmente se esfarelando, perdendo eleitores, quadros e representantes em cada uma das assembleias do país, dia a dia, desde que há menos de dois anos jactou-se de estar prestes a ocupar o poder central.

O último baque foi na principal Comunidade Autônoma (estado) da Espanha, Madri, onde simplesmente perdeu o direito a ter representantes. Sua derradeira convenção, realizada uma semana antes do chamativo tuite, jurava com unhas e dentes sua vocação centrista, quer dizer, segundo eles próprios, nem de direita nem de esquerda, etc. – essas coisas de que no final das contas nem eles próprios parecem estar convencidos, tanto que a todo momento precisam reafirmar entre si nos seus convescotes. O que também está difícil de adivinhar é a quem afinal querem entregar a chave da casa, se à direita tradicional ou àqueles que preferem soltar de vez os freios da inibição. Pode ser apenas um ato falho, tipo, você é de verdade o que eu gostaria de ser… se não me ruborizasse. Ou coisas que tais.

Ninguém perde uma oportunidade como essa e a resposta de Santiago Abascal foi imediata. O destaque está no tom de ternura do homem de voz e posturas duras, militares, espartanas. Saltando para longe do registro habitual das suas falas, foi assim que o comandante das tropas da ultradireita se dirigiu à encantadora colega do centro: “Obrigado, Inés. Você e eu sabemos que esse tipo de demonização é o prelúdio da violência. Um abraço.” A graça não está apenas nesse terno, enternecedor “Gracias, Inés”, ainda que seja impagável. Mas o que segue tampouco se pode deixar de lado: porque dói no ouvido e soa um pouco ofensivo quando um político como Abascal, o protofascista por excelência, diz que a demonização é o prelúdio da violência. Porque é verdade. A demonização do outro (do estrangeiro, do migrante, do negro, do judeu ou do muçulmano, do africano, da mulher, do homossexual, dos comunistas, sim aqui na Espanha o termo ainda é de uso constante na verborragia dos militantes do Vox…) é o prelúdio da violência. Na realidade, a demonização do outro, seja esse quem for, já é em si uma agressão. E é também um dos principais elementos que caracterizam, ao longo da história, agora, e também no passado, na Espanha, na vizinha França, na Alemanha ou no Brasil, os agrupamentos como o que ele lidera.

Perspectiva

Uma das consequências naturais e necessárias da derrota do nazifascismo na II Guerra foi o enfraquecimento da direita. Ainda que tenham permanecido no poder tanto Franco quanto Salazar, na isolada península Ibérica, no resto da Europa os partidos da direita foram praticamente colocados para fora do jogo nas décadas que se seguiram ao pós-guerra (ver Tony Judt). Tardou um tempo para voltarem a ocupar o cenário.

A dupla Reagan-Thatcher e o desmoronamento definitivo do estatismo burocrático neostalinista no leste europeu deu um forte impulso às políticas ultraliberais. O despertar do ânimo ultradireitista veio no vácuo e desde então não parou mais de crescer. Um dos mais destacados pioneiros foi Jean-Marie Le Pen na França, ainda na década de 1980. A possibilidade real da conquista do poder faz com que o discurso ultrarradical de Le Pen pai fosse substituído pela figura mais palatável e flexível da filha. A base eleitoral precisava ser ampliada. Enquanto isso, a escolha por uma certa moderação deixou órfãos antigos camaradas. E das costelas do Reagrupamento Nacional de Marine Le Pen (nascido da Frente Nacional), brotou agora o ainda mais ultradireitista Patriotas, comandado pelo ex-número dois de Marine, Florian Philippot.

Em perspectiva, o quadro é de uma nitidez aterradora. E o que parece nos dizer é que esse crescimento continuado da extrema direita no século XXI é a consequência natural e necessária da violenta hegemonia do mundo encantado da mercadoria sobre a humanidade. O melhor, portanto, é nos prepararmos para um mundo onde a direita será cada vez mais de direita e extremada – e em consequência, a cada dia mais atrevida.

Quanto ao suposto centro, na França, tem sido capaz de se manter, pelo menos por ora, amparado numa arrumação montada em torno da bela e competentíssima figura de Emmanoel Macron. Foi eleito contra Marine Le Pen no segundo turno com o apoio da esquerda, depois de passar apertado pelo primeiro turno – 24,01% contra 21,30%. Na Espanha… já sabemos. No geral, o melhor talvez seja mesmo olhar mais para trás e, aí sim, o que se pode enxergar é a sombra agigantada do próprio demo emergindo por detrás do redemoinho.

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