Enfrentar esse “eterno retorno” das soluções autoritárias exige articulação política capaz de fortalecer alternativas democráticas. Só assim será possível transformar o mal-estar do bem-estar em esperança concreta de uma sociedade mais justa e digna.
O noticiário e as pesquisas de opinião revelam um cenário paradoxal: enquanto os principais indicadores econômicos sugerem melhora, a realidade financeira das famílias brasileiras continua marcada por dificuldades. No mundo dos números agregados, a crise da COVID parece superada. Na vida cotidiana, porém, milhões ainda aguardam a recuperação.
Essa divergência expõe uma questão central do contrato social. Após meio década de choques sucessivos — pandemia, guerra na Europa e aumento do custo de vida — instalou-se uma incerteza radical e um estresse crônico. Não se trata mais de uma reação passageira, mas de uma erosão gradual da resiliência financeira e da confiança institucional. É preciso deslocar o olhar dos indicadores macroeconômicos para a experiência concreta das famílias.
A clivagem mais preocupante é entre os que resistiram à volatilidade recente e os que enfrentam dificuldades crescentes. Pesquisas mostram que a maioria das famílias de baixa renda luta para pagar contas, enquanto as de alta renda permanecem relativamente estáveis. O resultado é claro: os benefícios da estabilidade macroeconômica não chegam à metade inferior da distribuição de renda.
Esse descompasso entre dados positivos e percepção negativa afeta diretamente a popularidade do governo e pode influenciar a eleição de 2026. Apesar de indicadores como baixo desemprego, aumento da renda e desacelera ração da inflação, a percepção popular é de piora. Pela macroeconomia, o momento seria favorável ao trabalhador. Na prática, não é — ou pelo menos não para todos.
A pesquisa Quaest mostra que 50% acreditam ser mais difícil encontrar emprego e 58% percebem alta nos preços dos alimentos. O endividamento das famílias de baixa e média renda cresceu pelo segundo ano consecutivo, aproximando-se de recordes. Embora a inflação tenha desacelerado, a percepção popular não acompanha os números: 58% afirmam que os preços dos alimentos subiram em março, contra apenas 16% que notaram queda.
O PIB brasileiro cresceu acima de 3% por três anos seguidos até 2024. Em 2025, a expansão foi menor, mas ainda significativa, com ganhos reais na renda do trabalho. Mesmo assim, 64% dos entrevistados dizem comprar menos do que há um ano. Em resumo: com PIB e renda em alta, inflação e desemprego em baixa, quase metade da população sente que a economia piorou.
Um olhar mais atento ao mercado de trabalho ajuda a explicar. O IBGE considera ocupados os 38,5 milhões de trabalhadores informais, cuja renda é instável e insuficiente. Já os 39 milhões com carteira assinada enfrentam dificuldades para ascender a posições melhor remuneradas, em razão da baixa qualificação técnica e educacional.
A inflação da educação, por exemplo, foi de 5,21% em fevereiro, acima da média geral. Para famílias com filhos em escolas privadas, a percepção é de piora, mesmo quando os índices mostram desaceleração. Afinal, inflação menor significa apenas que os preços sobem mais devagar, não que caem.
Essas tendências revelam que números agregados não bastam para medir o bem-estar social. Para restaurar o otimismo, é preciso ir além da macroeconomia.
Imagine um jovem de 18 anos, de família de baixa renda, com poucas perspectivas de ascensão. Quais suas chances reais de melhorar de vida? Qual expectativa positiva pode ter sobre o futuro? Sem oportunidades no mercado formal, o ressentimento recai sobre o governo e sobre “tudo isso que está aí”.
Os Trinta Anos Gloriosos do pós-guerra, que garantiram estabilidade e ascensão social nos países desenvolvidos, deram lugar ao neoliberalismo e à financeirização. A segurança representada pela casa própria desapareceu. Políticas públicas de redução da desigualdade continuam necessárias, mas já não bastam para conter o ressentimento e a raiva gerados pela falta de reconhecimento da cidadania.
Nas maiores economias desenvolvidas, a relação entre riqueza agregada e renda saltou de 200–300% em 1970 para 400–600% hoje. No Brasil, a despesa com juros deve atingir 8% do PIB em 2026, mesmo com queda da Selic. O custo da dívida pública seguirá elevado, retraindo investimentos e consumo.
A narrativa dominante desqualifica políticas públicas voltadas ao fortalecimento da cidadania como “populistas”. Isso exime as elites incrustadas no Estado da responsabilidade por décadas de políticas que corroeram a dignidade do trabalho e alimentaram o ressentimento social.
A perda de reconhecimento e dignidade leva trabalhadores a buscar líderes autoritários, como ocorreu na Alemanha e na Itália do século XX. Hoje, esse movimento se traduz em trumpismo e bolsonarismo.
Sem trabalho digno, não há dignidade. Como avaliar produtividade sem considerar o processo coletivo de trabalho? Como restaurar o valor do trabalho numa economia que investe trilhões em inteligência artificial e data centers, enquanto degrada o meio ambiente? O ressentimento explodirá quando as massas perceberem que o mito do líder predestinado não entrega o paraíso prometido.
Essa insegurança econômica corrói a confiança nas instituições democráticas. Trabalhadores desempregados ou mal remunerados, expostos à violência cotidiana, desenvolvem subjetividades marcadas pela desconfiança no governo e no sistema jurídico.
Abre-se, assim, um fosso entre a retórica de um Brasil resiliente e a realidade da vida diária. Sem melhorias tangíveis, o otimismo em declínio sinaliza tensões sociais crescentes e risco de desengajamento democrático.
Essa crise não é exclusiva do Brasil. Europa e EUA enfrentam dilemas semelhantes, ainda que em contextos distintos. O fantasma da barbárie fascista, porém, é comum.
Enfrentar esse “eterno retorno” das soluções autoritárias exige articulação política capaz de fortalecer alternativas democráticas. Só assim será possível transformar o mal-estar do bem-estar em esperança concreta de uma sociedade mais justa e digna.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli
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