A pergunta é se será possível romper as bases de formação da civilização ocidental para a construção de um novo modo de ser humano.

A peça de Shakespeare, O Mercador de Veneza, foi recentemente adaptada no Brasil com o ator Dan Stulbach no papel do judeu Shylock. Essa montagem fez, novamente, chamar atenção para a polêmica que ela desperta, sobretudo em relação ao antissemitismo. Trata-se de uma obra antissemita?
Hoje, o antissemitismo é visivelmente crescente em meio a uma crise global de grandes proporções, que atinge os mais diferentes aspectos da vida. Além dos valores da civilização ocidental estarem em xeque, vivemos uma crise ambiental inimaginável há um século. A ameaça da “queda do céu”, segundo a cosmologia Yanomami, se aproxima de previsões científicas a respeito do aquecimento global e das mudanças climáticas. A natureza é um elemento que agrega novas incertezas à vida humana no planeta. Estamos vivendo um momento histórico dos mais desafiadores.
Um dos epicentros dos conflitos atuais está no Oriente Médio; e uma das figuras mais controversas é Benjamin Netanyahu, líder do governo de extrema direita em Israel. O massacre terrorista do Hamas em 7 de outubro de 2023 e a resposta desproporcional, por muitos considerada genocida, das forças de defesa de Israel em Gaza acentuaram o sentimento anti-Israel e, por extensão, antijudaico. Porém, isso não justifica o antissemitismo que cresce no mundo hoje. Se, por um lado, existem fundamentos nas denúncias de instrumentalização do antissemitismo para sufocar críticas ao governo de Israel, por outro, há evidências inegáveis da acentuação desse racismo, muito mais antigo. O antissemitismo, como qualquer outro racismo, tem uma consequência nefasta não restrita ao grupo atingido. Fazer a projeção do mal sobre um grupo específico é obscurecer o que está implicado mais profundamente na crise civilizatória que interpela a todos.
A peça O Mercador de Veneza, escrita entre 1596 e 1598, nos transporta para a sociedade europeia em transição da Idade Média para a Era Moderna. Ela mostra a força desse preconceito, ódio que continua vivo e atravessa diferentes grupos sociais e ideologias. Harold Bloom, em Shakespeare: A invenção do humano, considera a peça uma obra-prima e, ao mesmo tempo, profundamente antissemita por perpetuar estigmas e estereótipos sobre judeus. No final da trama, o personagem judeu é derrotado. Imposições são determinadas contra ele, incluindo a obrigatoriedade da conversão, o que representava o auge da submissão e anulação de sua identidade. Porém, o texto é mais complexo do que um libelo antissemita. Shylock, assim como todos os personagens, mostra-se em suas ambiguidades e contradições. O texto escapa a maniqueísmos e simplificações característicos de obras de cunho racista. Ao contrário, o que se ressalta na peça é a riqueza de expressar a vida em nuances e multiplicidades que escapam à previsibilidade, aos enquadramentos, às classificações, às linearidades e aos julgamentos fáceis.
No cenário atual, revisitar O Mercador de Veneza pode ser um recurso para articular elementos estruturais das relações sociais e coloniais vigentes desde o início da Era Moderna, consolidados na modernidade ocidental e acirrados na contemporaneidade: antissemitismo, racismo, patriarcalismo e misoginia.
A aversão ao negro e a cruel realidade da escravidão são referidas na peça. O machismo também é retratado com ironia. As personagens femininas têm a característica de dissimular sua inteligência e percepção. Elas se dão conta dos interesses e toda sorte de fragilidades de caráter de seus companheiros. Mantêm suas relações fingindo-se mais tolas do que são. Na época em que a peça foi escrita, mulheres não podiam atuar. Na trama, é travestida que a principal personagem feminina, Pórcia, exerce seu brilhantismo como advogada no julgamento que define a solução da história. Ela não se insurge contra o poder masculino. É em um jogo de submissões e hipocrisia social que tudo termina bem — menos para o judeu Shylock. Este não transige diante das tentativas de demovê-lo de seu desejo de vingança pelas humilhações a que era submetido. O papel do ressentimento é um aspecto importante a ser mais bem compreendido nas relações entre opressores e oprimidos.
As relações sociais narradas por Shakespeare na Veneza do fim do século XVI são atravessadas por inúmeras contradições, desnudando relações de poder que se aprofundaram com o desenvolvimento do capitalismo. É nessa complexa engrenagem que se produz o lugar de bode expiatório que o judeu vai ocupar.
Impelidos por proibições e em meio a condenações morais suscitadas por motivos religiosos, alguns judeus ocuparam o lugar de agentes financeiros nos primórdios do sistema capitalista. Com o desenvolvimento do capitalismo, essa característica permaneceu no núcleo do antissemitismo europeu, que se tornou cada vez mais sombrio.
Há uma grande diferença entre o ódio religioso aos judeus na Idade Média, inspirado no antagonismo entre crenças, e a ideologia antissemita laica que surge no século XIX como uma força subterrânea que conduziria a um comportamento hostil cujo ápice estaria no centro dos acontecimentos mundiais do século XX: o Holocausto (Arendt,2012). O antissemitismo impeliu a Europa a cometer crimes de extermínio em escala industrial.
O racismo foi a principal arma ideológica da política imperialista (Arendt,2012). O extermínio dos povos originários na América e o tráfico de negros escravizados apresentam horrores de incomensurável magnitude. Todos os racismos justificaram atrocidades que serviram para viabilizar poderes, expropriações e interesses supremacistas.
No Ocidente, o padrão hegemônico da branquitude foi uma construção que se deu em todos os níveis, criando estéticas, subjetividades e “verdades” que se tornaram modelos de valoração, internalizados nos grupos dominados.
Em Pele Negra, Máscaras Brancas, Franz Fanon conecta antissemitismo e negrofobia. Ele analisa a construção da subjetividade de quem é submetido ao racismo, tendo como foco a formação da identidade negra em relação à branquitude. Inspira-se em Reflexões sobre a questão judaica, de Sartre. Refere à tendência de o judeu se deixar envenenar pelas representações que fazem dele, temendo que seus atos possam confirmá-las. No caso do negro, a visibilidade da cor da pele produz imediatamente a representação negativa, de fora para dentro. Citando Aimé Césaire, Fanon assevera: “um antissemita é necessariamente um negrófobo” (Fanon 2020 p.136).
Segundo Fanon, o homem negro se constitui na relação com o branco em decorrência de uma série de distorções afetivas, instalado em um universo do qual será preciso removê-lo. “A civilização branca e a cultura europeia impuseram ao negro um desvio existencial” (Fanon, 2020 p.27). O judeu não está fora dessa configuração. Como o negro, ele se constitui nessa mesma cultura. Porém, há diferenças importantes no que diz respeito aos estereótipos específicos.
“O medo que se tem do judeu é por seu potencial de apropriação. Eles estão por toda parte. Os bancos, as bolsas, os governos estão infestados deles… Eles governam tudo. Logo, o país pertencerá a eles… Você pode dizer o que quiser, eles se apoiam mutuamente” (Fanon, 2020 p. 171).
“Os negros, por sua vez, têm a potência sexual. Imaginem só, com toda a liberdade que desfrutam no meio do mato! Ao que parece, fazem sexo em qualquer lugar e a qualquer hora.
São genitais. Têm tantos filhos que até perdem a conta” (Fanon, 2020 p. 172). No caso do judeu, pensa-se em dinheiro e em seus derivados; no caso do negro, em sexo (Fanon, 2020 p. 174).
A equivalência dos preconceitos contra o negro e o judeu funciona, sobretudo, no papel que exercem em depurar o racista de seus próprios maus instintos. O judeu ocupa o lugar da projeção como usurpador da riqueza; o negro, o lugar do pecado e da animalidade (Fanon, 2020). O judeu é generalizado como sujeito endinheirado; o negro, ao contrário, como despossuído. Toda generalização é mentirosa, mas existe uma base factual nessa representação.
Como o personagem Shylock, judeus estiveram, desde a Idade Média, ligados ao comércio e às finanças. O fato de estarem dispersos pelo mundo e estabelecerem vínculos comuns deu sustentação a teorias conspiratórias que se estenderam a outras atividades, como a mídia.
Apesar de não haver consistência na generalização, ela se disseminou como uma “verdade” em documentos antissemitas, como os Protocolos dos Sábios de Sião (Arendt, 2012).
O racismo antissemita opera por meio da projeção de aspectos negativos presentes nas classes favorecidas, buscando reduzir suas culpas e responsabilidades individuais e coletivas. O mal, o feio, a cobiça, a mesquinharia e a expropriação de riquezas são concentrados simbolicamente no judeu. Sem dúvida, judeus absorveram os valores da branquitude e estes foram incorporados na sociedade israelense. Em Israel, desde a sua formação, desigualdades sociais foram reproduzidas. O racismo, sobretudo islamofobia, a desumanização e crimes contra palestinos, particularmente em Gaza e na Cisjordânia, foram exercidos e denegados. A situação de ocupação, o assassinato de civis e a limpeza étnica foram intensamente agravados com a política de guerra da extrema direita no governo de Israel, fornecendo substrato objetivo para reforçar as representações mais negativas em relação aos judeus.
Não se pode esquecer, contudo, que as bases do colonialismo estão enraizadas na civilização ocidental desde vários séculos. Desse ponto de vista, é possível dizer que Israel hoje é o bode expiatório dos projetos coloniais. Hoje, a indignação contra os seus males estão, de forma catártica, concentrados no conflito entre Israel e Palestina. “Sionistas” são projetados como símbolo de racismo e expropriação de terras, quando essa é uma realidade que abrange a história da maioria das nações. É legítimo se opor aos nacionalismos. É necessário se insurgir contra o projeto de uma “Grande Israel”. O problema é a generalização dos judeus, dos sionismos, e a projeção emocional de ódio concentrado, que de algum modo, ‘alivia’ a carga de culpas e responsabilidades em outros contextos de violência extrema. Há um esquecimento e menor atenção é dedicada a outros conflitos equivalentes em gravidade. O antissionismo que, entre todos os países existentes, prega exclusivamente a destruição do Estado de Israel pode, sim, assumir caráter antissemita.
No contexto de ataques ao seu direito de existência, a necessidade de defesa se reforça. Sob a vigência do sentimento de ameaça externa, torna-se mais difícil abrir espaço para a sociedade israelense lidar com suas próprias contradições internas. Essa circunstância, associada aos traumas de um passado de perseguições, tende a impulsionar a maioria em direção a um imaginário ressentido, reativo, vulnerável ao fascismo. Essa sensibilidade coletiva certamente é manipulada pelo governo, conduzindo o país a guerras, sempre em nome da defesa. As vítimas do Holocausto passam, então, a ser acusadas de se tornarem os novos algozes. Vale, nesse ponto, abrir uma reflexão sobre a relação entre algoz e vítima.
Uma das elaborações mais precisas a esse respeito foi escrita por Primo Levi. Ele alerta que a tentativa de compreender e relatar os acontecimentos tende a produzir simplificações. A linguagem conceitual não é suficiente para transmitir a complexidade e, também por isso, há múltiplas versões possíveis — muitas vezes incompatíveis — para um mesmo acontecimento:
“É tão forte em nós — talvez por razões que remontam a nossas origens de animais sociais — a exigência de dividir o campo entre ‘nós’ e ‘eles’, que esse esquema, a bipartição amigo-inimigo, prevalece sobre todos os outros. A história popular, e também a história tal como é tradicionalmente ensinada nas escolas, ressentem-se dessa tendência maniqueísta que evita os meios-tons e a complexidade” (Levi, 2022 p.27).
Ao elaborar sua experiência em Auschwitz, Levi ressalta como é equivocado simplificar a rede de relações humanas dentro do campo, reduzindo-a a dois blocos: o das vítimas e o dos opressores. A realidade não era decifrável nesses termos: “o inimigo estava ao redor, mas também dentro” (Levi, 2022 p.28). No seu testemunho, Primo Levi torna-se um grande pensador sobre a condição humana. Ele alcança abordar a zona nebulosa — ou cinzenta — que mescla opressores e oprimidos, algozes e vítimas.
Havia privilégios e formas de colaboração entre prisioneiros. Ele considera como o nacional-socialismo “degrada suas vítimas, assimila-as a si, e isso tanto mais quanto elas sejam disponíveis, ingênuas, carentes de uma estrutura política ou moral”. O espaço que separa opressores e vítimas não é vazio: “está coalhado de figuras torpes e/ou patéticas, que é indispensável conhecer se quisermos compreender a espécie humana e saber defender nossas almas quando uma prova análoga se apresentar novamente” (Levi, 2022 p.30).
Não seria exagero dizer que estamos vivendo uma prova análoga. É devastador reconhecer como as democracias e os melhores valores humanos estão em risco. O ressurgimento do antissemitismo é um sinalizador, não isolado de outros racismos e xenofobias. Crescem também a misoginia, o feminícidio e a pedofilia no contexto do patriarcalismo em crise. O ódio está em ascensão e é assombroso quando isso é naturalizado. Estamos vivendo um retrocesso civilizatório ou os estertores da civilização da forma como a conhecemos. Não será repetindo a projeção de culpas e responsabilidades ou disseminando discursos de ódio que serão encontradas saídas para a grande crise do capitalismo na contemporaneidade.
O Mercador de Veneza mostra as bases de formação da civilização ocidental na Era Moderna.
A pergunta hoje não é se ela é uma peça antissemita. A pergunta é se será possível romper essas bases, de forma articulada, na construção de um novo modo de ser humano.
Referências:
- Arendt, Hannah Origens do totalitarismo: antissemitismo, imperialismo, totalitarismo. São Paulo, Companhia das Letras, tradução Roberto Raposo, 2012
- Fanon, Franz Pele Negra, Máscaras Brancas. São Paulo, Ubu Editora. Tradução Sebastião Nascimento, 2020.
- Levi, Primo Os Afogados e os Sobreviventes: os delitos, os castigos, as penas, as impunidades. Rio de Janeiro Paz&Terra, tradução de Luiz Sergio Henriques, 2022.
- Shakespeare, William O Mercador de Veneza Porto Alegre, L&PM tradução de Beatriz Viégas-Faria, 2025.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Revisão: Celia Bartone.
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