Flávio Bolsonaro quer importar para o Brasil o desastre da política de Milei na Argentina. Estamos diante de um alerta ou de um futuro anunciado?

Um em cada três argentinos é pobre, quase metade das crianças vive na indigência e 95% das pessoas têm dívidas. Empresas fecham, trabalhadores perdem empregos e o modelo de Javier Milei, apresentado por Flávio Bolsonaro como inspiração, agoniza em praça pública.
Toda quarta-feira, aposentados argentinos voltam às ruas para protestar contra o arrocho promovido por Javier Milei. A resposta são cassetetes, balas de borracha e gás lacrimogêneo. Idosos que trabalharam a vida inteira precisam enfrentar a repressão policial para defender suas aposentadorias. Milei segue vendendo a motosserra como símbolo de modernização e o sofrimento da população como se fosse um detalhe inevitável de sua revolução econômica.
A Argentina já viveu esse filme. Em 2001, o país mergulhou em uma crise econômica, política e social tão devastadora que teve cinco presidentes em uma semana. O corralito impediu os argentinos de sacar livremente o próprio dinheiro dos bancos. Houve desespero, confrontos, mortes e cenas de guerra nas ruas. Famílias ficaram sem acesso às próprias economias e a sociedade entrou em colapso.
Agora, a Argentina está se aproximando novamente de um cenário que evoca aquela tragédia. Empresas fecham, trabalhadores perdem seus empregos, aposentados são reprimidos e a desesperança avança. O homem que prometeu salvar o país com a motosserra está empurrando os argentinos para uma crise que ameaça ultrapassar os limites econômicos e se transformar em um novo colapso social.
Milei chegou ao poder depois de anos de inflação, perda do poder de compra e desgaste dos governos kirchneristas. Para setores da imprensa internacional e do mercado financeiro, surgiu como uma alternativa capaz de romper com o sistema tradicional, reduzir o Estado e liberalizar a economia. A motosserra virou símbolo dessa promessa. Mas a insatisfação legítima com os governos anteriores não transforma automaticamente qualquer alternativa em solução. É preciso olhar para os resultados.
Javier Milei não foi um convidado qualquer no lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro. Foi a vedete, a grande estrela, o convidado de honra. A própria assessora econômica de Flávio, Daniella Marques, apontou o presidente argentino como exemplo a seguir. Não é uma associação inventada pelos adversários políticos. O próprio grupo que pretende governar o Brasil escolheu Milei como referência.
A motosserra de Milei e a tesoura de Flávio Bolsonaro, apresentada no lançamento da campanha por meio da figura da “doutora tesourada”, simbolizam o mesmo projeto: o Estado mínimo. Mas há uma ironia nessa história. Na Argentina, o que está ficando mínimo são as condições de vida de uma parcela enorme da população.
Um em cada três argentinos é pobre. Quase metade das crianças vive na indigência. E 95% das pessoas têm dívidas. É esse o retrato da vida real por trás da propaganda do Estado mínimo: famílias endividadas, crianças na pobreza, empresas fechando e trabalhadores perdendo seus empregos.
Flávio fala em um ajuste fiscal de R$ 200 bilhões e promete que os mais pobres não serão prejudicados. Mas onde serão feitos os cortes? Quais políticas públicas serão sacrificadas? Como retirar R$ 200 bilhões sem atingir serviços, programas sociais e direitos dos quais milhões de brasileiros dependem? Prometer que os pobres não pagarão a conta é fácil. Difícil é explicar quem vai pagar.
Milei vendeu uma grande aventura anarcocapitalista. Transformou a motosserra em símbolo político, vestiu a fantasia do leão libertário e prometeu demolir o Estado para libertar a economia. A realidade, porém, não cabe no palco. Está nas famílias sem dinheiro para comer, nas fábricas fechadas, nos aposentados reprimidos e nos jovens sem perspectiva.
O povo não come PIB. Não adianta comemorar indicadores macroeconômicos enquanto falta dinheiro para comprar alimentos, pagar o aluguel ou chegar ao fim do mês. A economia precisa ser avaliada também pelas condições concretas de vida da população e por quem paga o preço das decisões do governo.
A pobreza argentina, que chegou a 52,9% no primeiro semestre de 2024, caiu e voltou a subir, alcançando 32,3% no primeiro semestre de 2026. Quase um em cada três argentinos voltou a ficar abaixo da linha da pobreza. O endividamento das famílias completa esse quadro de pressão sobre o orçamento doméstico.
A crise também atinge a atividade produtiva. Um levantamento da Fundar apontou que 31.342 empresas haviam desaparecido até junho de 2026, com a perda de 411.613 empregos formais. A fabricante de pneus Fate fechou sua fábrica e demitiu 920 trabalhadores. A Nissan abandonou a fabricação de veículos no país, e a indústria automotiva enfrenta novas ameaças de fechamento de unidades. Não são apenas números: são trabalhadores sem salário, famílias sem renda e comunidades que perdem atividade econômica.
E os gringos entraram com tudo.
Donald Trump anunciou uma assistência financeira de até US$ 20 bilhões à Argentina em 2025, quando o país estava fragilizado pelo ajuste de Milei. Não foi caridade. Washington tem interesses estratégicos, econômicos e geopolíticos na região. Uma Argentina enfraquecida e dependente de apoio externo fica mais vulnerável à influência de quem tem dinheiro e poder para negociar em condições vantajosas. Com ativos potencialmente desvalorizados, abrem-se oportunidades para quem pode entrar e comprar barato. Um swap cambial de US$ 20 bilhões, dado de presente com laço de fita, nada disso salva a Argentina.
A ligação entre Milei e Trump faz parte desse projeto. Flávio, por sua vez, escolhe Milei como referência para o Brasil. Não se trata apenas de importar uma receita econômica, mas também de saber a quem esse alinhamento pode favorecer e quais interesses estratégicos estarão em jogo.
Enquanto isso, investidores internacionais encontram oportunidades em uma economia fragilizada. A disputa sobre a compra de terras por estrangeiros e o controle de recursos estratégicos, como água, energia e minerais, mostra que a discussão vai além do tamanho do Estado. Envolve também soberania econômica e quem se beneficia da abertura de um país pressionado pela necessidade de atrair dólares.
É esse o modelo que Flávio Bolsonaro apresenta como futuro para o Brasil: um país em que a pobreza voltou a crescer, as famílias estão endividadas, empresas desapareceram e empregos foram perdidos. A motosserra que Milei vendeu como símbolo de liberdade econômica já tem um rastro de sofrimento social. Flávio quer importar essa promessa como se fosse novidade.
O modelo econômico que Flávio Bolsonaro oferece ao Brasil já está agonizando em praça pública na Argentina. O país que deveria servir de vitrine para essa revolução mostra aposentados reprimidos, fábricas fechadas, famílias empobrecidas e jovens sem perspectiva.
O Brasil vai importar o modelo que está agonizando em praça pública?
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Revisão: Celia Bartone
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