O capitalismo é frequentemente descrito como fruto da liberdade dos mercados, uma narrativa que se tornou dominante ao longo dos séculos. No entanto, a trajetória histórica do capitalismo mostra, desde o início, o Estado como o poder que garantiu a sua afirmação enquanto formação econômico-social e abriu os caminhos que ligam o poder estatal, como expressão máxima da luta de classes, à formação desse sistema que domina o mundo.

O capitalismo não emergiu espontaneamente da competição entre indivíduos ou empresas, mas sim da intervenção decisiva dos Estados. Desde o início, foi o Estado, em todo o mundo, que criou o mercado. Essa perspectiva desafia diretamente a tradição liberal que enxerga o mercado como uma entidade autônoma e autorregulada. O Estado, como “instituição das instituições”, foi responsável por moldar as condições para que o capital pudesse se acumular e se expandir. Sem monopólios sustentados por políticas estatais, sem a imposição de regras e sem a violência institucionalizada, o capitalismo jamais teria se consolidado.

O fracasso das revoluções comunistas na Europa entre 1917 e 1926, a ascensão do fascismo e a vitória dos EUA na guerra fria, com o neoliberalismo e o neofascismo reaparecendo como soluções políticas para a crise atual do capitalismo são expressões históricas da sua resiliência.

O centro da luta para a transformação do capitalismo de Estado em uma sociedade democrática, processo de luta concreta para fornecer a percepção de mudança futura, é disputa pela hegemonia cultural[1]. Em um contexto contemporâneo de capitalismo tardio, marcado pela acumulação flexível, precarização do trabalho e plataformas digitais, tais conceitos permanecem fundamentais para compreender os mecanismos de reprodução da dominação.

Nas sociedades liberais modernas, a classe dominante mantém o poder sobretudo por meio da hegemonia, naturalizando sua visão de mundo. A sociedade civil, composta por instituições como escolas, igrejas, mídia e associações profissionais, funciona como trincheiras que tornam inviável uma “guerra de movimento” contra o Estado. A estratégia de transformação, portanto, deve ser uma “guerra de posição”, caracterizada por uma disputa prolongada e paciente no campo cultural.

O livre mercado como motor da prosperidade é um mito. O capitalismo é uma construção política, dependente de decisões e estruturas de poder. O mercado, longe de ser natural, foi criado e mantido por forças estatais que garantiram sua sobrevivência.

O capitalismo sempre se mostrou um fenômeno global. Barbados, Potosí, a China imperial e os Estados Unidos são exemplos de como diferentes regiões se tornaram peças fundamentais na engrenagem capitalista. Não há capitalismo nacional isolado. Há uma rede interconectada de mercados e poderes estatais que moldaram o regime econômico. O capitalismo deve ser entendido como um sistema global desde sua origem, e não como uma invenção exclusivamente europeia.

A ilha de Barbados, por exemplo, tornou-se a primeira sociedade propriamente capitalista do mundo, baseada em plantations de açúcar e sustentada pelo trabalho escravizado. Potosí, na Bolívia, foi o centro da produção de prata mundial no século XVII, transformando o peso espanhol em moeda universal. A China, por sua vez, já havia desenvolvido inovações como o papel-moeda e uma burocracia estável, mostrando que o capitalismo não pode ser reduzido a uma narrativa eurocêntrica.

O papel brutal da escravidão e da violência na formação do capitalismo foram processos decisivos que mostram a força da intervenção estatal. A escravidão africana foi central para a expansão do capitalismo. Milhões de pessoas foram arrancadas de suas terras e submetidas a condições desumanas para alimentar a máquina de acumulação de capital. O comércio transatlântico de escravizados não foi apenas uma tragédia humana, mas também um mecanismo econômico que permitiu a formação de blocos de capital e a expansão do comércio global.

Os cercamentos na Inglaterra expulsaram camponeses de suas terras e os transformaram em trabalhadores assalariados. Esse processo foi conduzido pelo Estado e serviu para alimentar a expansão industrial. O Estado, ao impor regras e legislações, moldou as condições sociais necessárias para que o capitalismo prosperasse.

O Estado não apenas criou mercados, mas também sustentou monopólios e moldou hierarquias sociais. A Revolução Industrial, frequentemente celebrada como triunfo da inovação, foi também resultado de políticas estatais que garantiram condições para a acumulação de capital. O capitalismo, portanto, é inseparável da política.

A economia neoclássica reduziu a diversidade da vida econômica a uma homogeneidade ahistórica. Ao naturalizar o capitalismo como eterno, a teoria econômica dominante obscurece sua natureza histórica e contingente. A economia neoclássica, ao se apoiar em modelos matemáticos sofisticados, ignora os fatos da realidade e perpetua o mito da inevitabilidade do capitalismo. O capitalismo não é uma lei natural, mas uma construção histórica que pode, em algum momento, pela ação política, encontrar seus limites. Reconhecer isso é fundamental para imaginar alternativas.

Hoje, o capitalismo mercantiliza até o ar que respiramos e precifica nosso tempo. A crise climática é resultado direto da lógica de acumulação sem limites. A inteligência artificial, por sua vez, abre novas fronteiras de mercantilização da mente humana. O capitalismo mostra sua capacidade de adaptação, mas também seus riscos existenciais.

A mercantilização da vida atinge níveis inéditos. Produtos antes inimagináveis se tornam mercadorias: desde a água até os dados pessoais. O capitalismo transforma tudo em objeto de troca, ampliando sua lógica para todas as esferas da vida. Essa expansão, no entanto, gera crises ambientais e sociais que ameaçam a sobrevivência da humanidade.

No Brasil, a escravidão foi a base da sociedade e condenou o país a ciclos econômicos menores. Sempre ocupamos os vagões finais da marcha capitalista global, marginalizados por estruturas que nos impediram de formar blocos de capital modernos. Essa herança ainda marca nossa trajetória.

A marginalização do Brasil no capitalismo global explica nossas dificuldades em alcançar um desenvolvimento sustentável. A dependência de exportações primárias e a falta de industrialização robusta nos mantêm em posição periférica. O capitalismo brasileiro, marcado pela desigualdade extrema, é reflexo de nossa inserção subordinada na lógica global.

O capitalismo não é uma ordem natural, mas uma construção histórica, forjada pelo Estado e sustentada por violência, exploração e desigualdade. Reconhecer essa origem é fundamental para pensar seus limites e imaginar futuros alternativos. O capitalismo pode ser finito, e compreender sua história é o primeiro passo para vislumbrar o que pode vir depois.

O capitalismo é inseparável do Estado, da escravidão e da violência. Sua trajetória global revela uma lógica de acumulação que transformou o mundo, mas também gerou crises e desigualdades. Pensar o futuro exige reconhecer que o capitalismo não é eterno e que alternativas podem ser construídas.

O conceito de bloco histórico articula estrutura econômica, sociedade civil e sociedade política. Crises econômicas, por si só, não geram revoltas espontâneas; é necessário construir alianças amplas que articulem interesses de trabalhadores, camponeses, intelectuais e outros grupos subalternos. Essa perspectiva foi decisiva para movimentos anticoloniais e de libertação nacional, na Ásia e na África que buscaram articular uma visão nacional-popular capaz de desafiar o bloco hegemônico existente.

Entender o capitalismo apenas como modo de produção é um erro teórico que ainda vigora em amplos círculos progressistas.  A racionalização da produção e um modo de vida disciplinado exigiam e exigem a racionalização da vida privada dos trabalhadores, impondo moralidade puritana e hábitos econômicos eficientes. Paradoxalmente, a mecanização do gesto físico liberava o cérebro para pensar, criando condições para novas formas de consciência e resistência. Essa racionalização da produção mostra como o capitalismo molda não apenas a economia, mas toda uma civilização.

Politicamente, o Estado capitalista, por ser formado por diversas frações da burguesia, tem interesses específicos divergentes, mas sempre convergentes quanto à reprodução objetiva e subjetiva do capitalismo de Estado. Nesse sentido é que se torna crucial a formação de um novo bloco histórico no Brasil. Aquele que foi formado para dar respaldo político à transição da ditadura para o regime liberal da “Nova República” se esgotou.

A crise política que se aproxima do seu ápice com as eleições de 2026 pode significar a abertura de um novo espaço para o avanço do processo em direção da democracia ou uma regressão às formas mais conservadoras na sociedade com amplas possibilidades de implantação de um regime autoritário.

A reprodução da hegemonia burguesa liberal conservadora com apoio dos aparelhos ideológicos do Estado (AIEs) é composta por mecanismos sutis de reprodução da hegemonia como estamos vivendo atualmente com a atuação da grande mídia e de intelectuais que eram considerados aliados se transformando em adversários. Essa cooptação de líderes populares e a incorporação seletiva de demandas sociais são instrumentos poderosos para desarmar as pressões políticas para a transformação democrática.

Essas estratégias demonstram como o capitalismo se adapta e se moderniza sem perder sua estrutura fundamental de dominação.

Em uma era de capitalismo digital, a hegemonia se reproduz mais ainda por meio da cultura e da produção de subjetividade. A luta democrática exige a construção de blocos contra-hegemônicos capazes de enfrentar a disputa na sociedade civil pela hegemonia. A articulação entre estrutura econômica, sociedade civil e sociedade política, uma combinação dinâmica de forças sociais, ideológicas e culturais é o que fornece os contornos básicos da política e da atuação do Estado. Por isso, a luta política não é apenas contra o Estado, mas contra o senso comum e as instituições que moldam a vida cotidiana (escolas, mídia, igrejas, etc.).

Por último, a situação de crise internacional com a destruição da ordem mundial liberal que vigorou por oitenta anos acrescenta uma enorme dose de incerteza radical para a formação de um novo bloco histórico que possa articular e implementar uma política pública de soberania.

A geopolítica apocalíptica de Trump deslegitima o direito internacional, legitima a violência contra outros grupos minoritários de cor da pele e culturas distintas e santifica a riqueza da elite tecnológica como último bastião contra um apocalipse iminente. Ao reconfigurar as estruturas de poder material em uma luta metafísica, o imperialismo estadunidense é mistificado, e o privilégio de classe e seus próprios interesses corporativos são apresentados como vocação divina.

Esse “Armagedom” não é tanto uma profecia do fim do mundo, mas sim uma retórica para legitimar a soberania das elites tecnocapitalistas contra as reivindicações morais da maioria global e dos bens comuns do planeta. Tampouco o governo mundial único, do qual não se sabe o que é ou se existe algum projeto político coerente para tal objetivo, é de uma condensação de ansiedades reacionárias sobre a suposta perda de soberania, o relativismo moral e a democratização tecnológica.

Ao fundir o mito do progresso do Vale do Silício com visões apocalípticas de salvação, transforma-se o poder imperial dos EUA e a expansão tecnológica desenfreada – agora concentrada nas mãos de alguns CEOs bilionários – na última barreira contra o que ele imagina ser uma homogeneização global catastrófica e o “Estado Universal”.

Quem tem capital, em qualquer magnitude, quer mais capital. Não devido a alguma mania pessoal, mas porque esse é o único dogma incontornável do capitalismo: acumular capital não é uma escolha, mas uma necessidade imanente daqueles designados como capitalistas. E o capitalismo de Estado, mesmo que seja privado, com alguns CEOs no comando, é a forma ontológica por excelência da concretude do capital.

[1] Destaca-se aqui a formação dos intelectuais orgânicos, da contra elite intelectual e do intelectual orgânico coletivo, do partido político articulador, integrador e elaborador das estratégias e táticas da luta política.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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