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Os sonhos são o gênero. O pesadelo é a espécie. Foi com essas duas frases que o escritor Jorge Luis Borges começou sua conferência sobre o pesadelo no inverno de 1977 em Buenos Aires. O pesadelo é uma espécie de sonho assustador, que desde a Antiguidade gera a sensação de algo monstruoso. O pesadelo expressa emoções negativas intensas, que terminam com um sentimento de angústia, que provoca o despertar, e aí é recordado, depois do acordar, devido à excitação intensa.

Uma das emoções frequentes nos pesadelos é o sentimento de impotência, sentimento de não ter saída, risco de morte própria ou a morte de pessoas queridas. A sensação de horror é a que predomina nos pesadelos, é um castigo, uma humilhação, um gozo do poderoso masoquismo que faz parte de todas as pessoas. Incrível como somos sofredores, é um espanto esse amor aos sofrimentos, que decorre em parte da pulsão de morte e em parte de um supereu ao qual a gente se submete para se sentir amparado. Durante os dias que antecederam o lançamento do livro “Imaginar o amanhã” tive pesadelos, diante da felicidade encontrei uma forma de sofrer um pouco, mas ainda bem que me aliviei ao acordar.

Por que ocorre o pesadelo que gera tanto horror? Há um fracasso da censura, pois entre o inconsciente e o pré-consciente há uma censura que é uma barreira de proteção do sono. No pesadelo a censura fracassa, pois um poderoso desejo rompe a barreira e a gente desperta assustada. O pesadelo satisfaz o desejo de sofrer, e essa tendência é o que uns definem como culpa e outros como necessidade de castigo. Imaginar um castigo é uma forma de se sentir amparado, pois a ameaça maior é o desamparo, pois no castigo não se está só.

O pesadelo noturno tem a vantagem de interromper o sono, mas, em geral, a gente volta a dormir. A interrupção decorre do extravasamento afetivo, quando não há capacidade para simbolizar e integrar os afetos, pois se tornam muito intensos. No pesadelo a pessoa está perdida, sentindo-se sem saída, ou sendo perseguida sem saber por onde sair, sensação às vezes de asfixia, encerrado num espaço. Ainda assim é melhor se castigar na realidade psíquica do que na real.

Já está na hora de voltar à poesia da conferência de Borges de 1977, que relata serem seus pesadelos principiais o espelho e o labirinto. E dois espelhos um diante do outro multiplicam as imagens de quem se põe no meio dos espelhos, e parece um labirinto. O labirinto é uma das principais alegorias da condição humana, transmitida pelos nômades para os sedentários, em que o azar e a surpresa são constantes. Borges, através do gênero do sonho e sua espécie o pesadelo, fez um passeio pelos poetas e filósofos e aqui acrescentei algo de Freud. O pesadelo expressa um mal-estar físico, perseguição, horror, como se fosse o coração do inferno.

O pesadelo noturno, como um inferno, se associa ao pesadelo existencial, social, no qual a vida é uma pesada nuvem negra, um peso insuportável. O autoritarismo é um pesadelo, com os genocídios, a devastação da natureza, a fome, os horrores de um país ocupado pelos armados. Quando a vida se parece a um inferno, aumenta a busca uns dos outros à procura de um alívio, e um ânimo na luta. (Publicado no facebook do autor em 12.11.2021)

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Ilustração: Mihai Cauli  

NR: O autor lançou recentemente seu “Imaginar o Amanhã”, em parceria com Edson Sousa. Clique aqui para adquirir o livro. Outros artigos do autor.