O PSOL e o PT desempenham papéis distintos no cenário político.

Mais importante que analisar a conjuntura, é compreender o período politico que vivemos. Desde 2016 – e aqui uso como marco o golpe que derrubou Dilma Rousseff como ponto de corte, embora o fenômeno venha de antes –, que o campo progressista perdeu a hegemonia na sociedade brasileira. A reestruturação produtiva, com o avanço da robotização da indústria e mais recentemente com a IA, eliminou as concentrações operárias e reduziu muito as concentrações de trabalho no setor de serviços mais organizados. A atomização do trabalho, o trabalho à distância e a terceirização mudaram muito o perfil das classes trabalhadoras. A aliança ancorada na classe trabalhadora assalariada urbana que desde a década de 80 era hegemônica, deixou de o ser. Parcelas significativas dos trabalhadores, em particular os plataformizados e os “por conta própria” estão hoje sob a hegemonia do discurso liberal anti Estado e, nas suas frustrações, polarizados pela retórica anti sistema da extrema direita. Esse é um fenômeno global.
O PSOL se constituiu disputando com o PT uma parcela dessa coalizão social majoritária e lentamente foi ganhando espaço nos grandes centros, particularmente onde o PT, em função de suas alianças nacionais, se aliava ao Centrão ou às oligarquias regionais. A partir de 2018, nas eleições presidenciais, com a ameaça da extrema direita, se evidenciou que o espaço para disputar com o PT desapareceu. A dinâmica de voto útil nas eleições majoritárias se impôs decisivamente.
Corretamente, o PSOL apoiou Lula em 2022 e apoiará de novo este ano, mantendo-se na sua base de apoio, tensionando a agenda pela esquerda. Se for absolutamente necessário agir em frente única no enfrentamento à extrema direita, isso não significa que o PSOL e o PT cumpram o mesmo papel. O PSOL pode fazer o que o PT, pelo modelo de governabilidade em curso não pode, que é se confrontar sem tréguas com o Centrão. Esse enfrentamento é necessário porque, como evidenciado em 2016, o Centrão é aliado na bonança e adversário na tempestade.
Por essa razão, a proposta do setor ligado a Guilherme Boulos (que no PSOL defendeu a extensão da “Unidade” à parcela do Centrão que estará com Lula em 2026) de Federação com o PT perdeu por larga maioria no Diretório Nacional. A proposta implicaria em atrelar o PSOL também a Eduardo Paes, Rodrigo Amorim, à família Barbalho no Pará e a algumas outras candidaturas do Centrão pelo país afora.
Vivemos um período político de forte instabilidade, visto que não há uma hegemonia clara entre os dois blocos em disputa. As eleições de 2026 poderão ser definidas por alterações pequenas para um lado ou outro na conjuntura de setembro. O velho modelo de tender ao centro para vencer eleições majoritárias não funciona mais. O centro hoje é polarizado por quem acumula mais força à direita ou à esquerda.
O Centrão hoje é muito mais influenciado pela extrema direita porque esta faz a luta política sem tréguas o tempo todo desde 2015. Ter uma esquerda que cumpra o papel de também fazer essa disputa sem tréguas é essencial para deslocar parcelas da sociedade para os valores e para o campo cultural da esquerda. O PT tem dificuldades de fazer esse papel de forma completa, em função das suas (necessárias, reconheço) alianças com setores da direita liberal (“Centro”, no manual de redação da Globo).
Esse é o papel complementar que o PSOL cumpre. É mais útil para Lula e para a sua governabilidade em se reelegendo ter o PSOL cumprindo esse papel.
A batalha conta a extrema direita se dá em todos os campos e em todas as agendas. Nenhuma pauta pode ficar para trás. A defesa da Amazônia, a luta dos Povos Originários, que se chocam com as oligarquias da região Norte, parte delas aliadas de Lula, só pode ser vocalizada pelo PSOL. Omar Aziz, o senador amazonense que esculachou Marina Silva na audiência do Senado, será o candidato do PT ao governo do Amazonas. Eu entendo isso e compreendo que Lula e o PT o façam. Mas o PSOL cumprirá outro papel. O mesmo vale para o Pará e a família Barbalho.
A realidade tem contradições e a melhor forma de lidar com elas é usar a pluralidade da esquerda para cumprir objetivos diferentes. Em nome da Unidade da Esquerda, que não está em causa, não se pode anular essa pluralidade porque isso fragiliza, ao contrário de fortalecer a esquerda nesta disputa.
Deslocar parcelas do Centrão para o apoio a Lula em 2026, dada a apertadíssima correlação de forças é correto e isso o PT faz com seus acordos eleitorais nos estados. Mas atrair o PSOL para essa política é desnecessário para esse objetivo, pois retiraria o PSOL da batalha de travar a disputa ideológica com radicalidade contra a agenda conservadora.
Por isso o PSOL não fará a federação com o PT, mas estará – por decisão de 100% do seu diretório – na aliança nacional em apoio à reeleição de Lula.
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Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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