No capitalismo contemporâneo, o Estado e o mercado são instâncias complementares, cada um desempenhando um papel crucial no movimento da economia real. Por um lado, o Estado responsável pelo Fundo Público, promove a intervenção regulatória, atua nas políticas sociais, garante o desenvolvimento das forças produtivas e o lucro, e busca justiça social. O Estado depende da arrecadação e da confiança dos grandes grupos econômicos e com seus instrumentos regula setores-chave e arbitra conflitos.

Na outra ponta, o mercado, por sua vez, é o espaço onde as trocas mercantis de bens e serviços ocorrem. Nesse quadro geral, a interação entre o Estado e o mercado revela-se central para a dinâmica do capitalismo na forma de atuação conjunta e coordenada de ambos. Mesmo assim, crises periódicas de superprodução de mercadorias, crédito e capital geram ciclos de euforia e recessão constitutivos desse modo de produção.

Nesse contexto, o capitalismo brasileiro tem três estados que lideram o processo de acumulação, sendo o Estado do Rio de Janeiro (ERJ) a segunda economia do país.

Na região sudeste brasileira concentram-se as atividades produtivas mais dinâmicas do Brasil. São Paulo lidera, com 1/3 de participação no PIB nacional e apresenta uma economia bem diversificada. É importante destacar, que o interior paulista, com sua base agrícola e industrial representa 46% da formação do PIB paulista, contra apenas 33% da capital e 21% dos demais municípios da Região Metropolitana, pelos dados do IBGE.

Minas Gerais com sua riqueza mineral é a terceira economia do país, com quase 9% do PIB nacional. Naquele estado, observa-se a menor concentração produtiva na capital (17% do PIB), em comparação com SP e RJ, pelos cálculos do IBGE. A expressiva desconcentração econômica reafirma-se quando constatamos que o interior é responsável por 67% da formação do PIB mineiro e a Região Metropolitana 16%.

A segunda economia do país, segundo dados do IBGE é o estado do Rio de Janeiro – grande produtor de petróleo e gás – responsável por 11% do PIB nacional. Na economia fluminense, o peso da capital sobressai (48,5%), contra 23,6% dos demais municípios da Região Metropolitana e 27,8% do interior.

Diversos estudos chamam atenção para esse fato presente na economia fluminense – a concentração produtiva. Além de ampliar as desigualdades regionais, também limita as oportunidades de desenvolvimento equilibrado e inclusivo, afirmam pesquisas recentes.

Como essa configuração produtiva dos três estados mais importantes da federação tem causado impacto no ritmo de empregabilidade da força de trabalho?

Os dados mais recentes da PNAD Contínua do IBGE, relativos ao ano de 2025, nos ajudam a entender esse processo. A taxa de desocupação nos três estados é a menor, desde 2021 – uma boa notícia. Entretanto, para uma taxa média nacional de 5,6%, Minas tem a melhor performance ao apresentar uma desocupação de apenas 4,6%. Em seguida, São Paulo apresenta 5% e o estado do Rio situa-se, acima da média nacional, com uma taxa de 7,6% de desocupação.

Aprofundando a análise, podemos observar que a informalidade no mercado de trabalho é a mais alta na economia fluminense (38,5%), contra 36,8% em Minas e 29% em São Paulo. Por outro lado, o rendimento real praticado em São Paulo de R$ 4.190 reais mensais é pouco superior ao praticado no Rio – R$ 4.177. Contudo, ambos são muito superiores aos rendimentos médios que vigoram em Minas – R$ 3.350. Por seu turno, a cifra mineira revela um valor inferior à média nacional de R$ 3.560 mensais.

Na atualidade, a economia fluminense – onde a atividade petrolífera responde por 1/3 do PIB – é fortemente influenciada pelo ciclo internacional das commodities, o que exige gestão eficiente dos recursos do estado devido às flutuações nos investimentos.

Nesse contexto, há uma ausência de ação concreta da gestão pública em desenvolver uma estrutura permanente de planejamento regional que articule e promova políticas territoriais comprometidas, tanto com a desconcentração produtiva quanto com a recuperação econômica sustentada da atividade produtiva fluminense.

Olhando pela ótica dos recursos fiscais, segundo dados da Secretaria da Fazenda do governo fluminense, o Poder Executivo fluminense gastou orçamentariamente, em 2025, a cifra de R$ 99,8 bilhões de reais, dos quais 93% com o custeio da máquina pública e apenas 7% com as despesas com expansão da infraestrutura pública – despesas de capital. Para 2026, o Legislativo fluminense aprovou um orçamento para o Executivo, da ordem de R$ 107 bilhões, dos quais R$19,4 bilhões em despesas com a segurança pública – a maior dotação entre todas funções do poder público estadual.

Aliás, segundo os dados do DATASUS relativos a 2024, o ERJ ocupa a segunda colocação no índice de morte violentas por causas indeterminadas – 15,7/100 mil habitantes. A média nacional é de apenas 8,1/100 mil habitantes. Minas Gerais ocupa a terceira posição com 14,5/100 mil habitantes e São Paulo a quarta com 12,7/100 mil habitantes. Segurança Pública lidera a preocupação popular nas pesquisas de opinião.

A exemplo do núcleo produtivo que sustenta diversas economias dinâmicas, ERJ precisa priorizar investimentos em setores de alta complexidade produtiva, ou seja, aqueles que gerem efeitos de encadeamento para frente – qualquer atividade que por sua natureza não atenda exclusivamente às demandas finais, induzindo os esforços para que se utilizem seus produtos como insumos de alguma outra atividade – e para trás (qualquer atividade econômica não-primária que acarrete esforços para suprir insumos de atividades dinâmicas). Neste aspecto, considerando o que vimos no majestoso carnaval e o grande fluxo de turistas, o estado do Rio de Janeiro tem toda condição de superar suas fragilidades e promover uma melhoria no padrão de vida de sua população.

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Ilustração: Mihai Cauli
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