Mal apagou o cigarro, acendeu outro. Era o quinto da noite. Segundo maço do dia. Parecia nervoso, mas era seu estado normal de espírito. Inquieto, gesticulador, falava rápido e, frequentemente, alto demais. Falava mais para si do que para os outros, mas essa indiferença o tornava estranhamente charmoso ao ponto de ouvirem suas divagações por horas, tomados de um misto de encantamento e espanto.

O que ele dizia fazia sentido até certo ponto, depois desandava em ilações que ignoravam a lógica, a coerência e até o bom senso. A maioria não percebia isso; afinal, lógica, coerência e bom senso é que parecem não fazer sentido no mundo confuso em que vivemos. Parecem coisa antiga, démodé, brega até. O novo é disruptivo, afrontoso, estranho mesmo, contrário a tudo. O pessoal gosta disso porque não gosta da vida que tem. Alguns chegam a não gostar de vida nenhuma.

Mas havia a minoria que ponderava as palavras ouvidas. Aqueles que pesavam cada uma com as ideias e saberes que tinham. E ele era tão convincente com seu jeito rápido e seguro de si de falar que mesmo estes, várias vezes, chegavam a desconfiar do que pensavam ou sabiam. Como se não pudessem ter razão, como se ela fosse monopólio daquele sábio inquieto.

Raramente alguém perguntava alguma coisa. Em parte porque entre uma palavra e outra, mal havia o tempo do suspiro e não se percebia naquele ritmo qualquer oportunidade de atravessar uma pergunta. Em parte porque o raciocínio parecia sempre incompleto, como se convidasse o ouvinte a esperar pela conclusão que nunca chegava. Era lacônico como se a conclusão fosse óbvia e este era outro motivo para a ausência de dúvidas, quase todo mundo tinha vergonha de parecer estúpido ao ponto de não entender uma obviedade.

A verdade é que ninguém entendia, mas também não confessava o desentendimento. Para todos, a vaidade estava acima do conhecimento em suas escalas de valores morais. Afinal, conhecer alguma coisa servia apenas para ser admirado ou, o que era mais comum, invejado pelos outros.

Foi por vaidade que, naquele dia, aproveitando-se do silêncio da boca ocupada em acender um cigarro, um dos seus mais assíduos ouvintes disparou: “Mestre, o que é a vida?”.

Espantou-se. Tragou fundo. Pensava mais demoradamente do que o normal. O silêncio era estranhado por todos. Algumas tragadas depois disparou a falar de nascimento, crescimento e morte, de energias, de dores, amores, desilusões, enganos, dos que querem enganar, dos que são trouxas, babacas, otários, desonestos, maus e bons e o que faria cada um ser assim. Falou de bebidas, comidas e da perversidade da indústria. De conspirações, tramas, guerras, ardilosidades e segredos que se revelados nada seria mais como antes.

Falou, falou e fumou. Soltou afirmações com a fluidez de quem solta fumaça. Ao final, sentiam vontade de aplaudi-lo, mas entre eles não havia por hábito o aplauso ao mestre. Todos encantados com o falar esfumaçado do mestre, exceto aquele que havia perguntado. Este ainda ruminava as ideias. Havia um incômodo nele provocado pelo choque entre o que ouvia e o que sentia. Não mais por vaidade, mas por angústia, repetiu: “Mestre, o que é a vida?”.

O olhar do mestre mudou. Jamais o haviam visto com aquele olhar tão estranho quanto suas ideias. Acendeu outro cigarro, e outro. Chegou ao fim do maço em silêncio, como se a pergunta o tivesse levado ao fim das palavras. O público esperava. Uns, pretensiosos. Outros, chateados com o perguntante que calou o mestre.

O mestre jogou fora o maço vazio e saiu quieto para nunca mais ser visto. Duas semanas depois, aquele ouvinte perguntador foi encontrado morto, linchado por uma multidão de pessoas aflitas por respostas vazias para suas vidas sem perguntas.

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Ilustração: Mihai Cauli
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