Qual significado pode ter o sequestro do venezuelano Nicolás Maduro (ditador, presidente, chefe do executivo…, a escolha é mais ou menos arbitrária e para o que segue pouco importa), colocado lado a lado com os mais de dois milhões de mortos resultado da invasão do Vietnã? Ou com o golpe contra Salvador Allende (presidente eleito do Chile – e aqui não há escolha, Allende era legitimíssimo presidente do seu país, fato jamais contestado pelos militares golpistas que o depuseram, nem tampouco pelos que organizaram o golpe desde Washington)? Ou com o sequestro e assassinato do primeiro-ministro da República Democrática do Congo Patrice Lumumba (ordenado por Dwight D. Eisenhower), em 1961?

(Para além da estrita conformação do campo ideológico do Império, será simples coincidência que a Venezuela seja a maior reserva de petróleo comprovada do mundo, e que o Congo fosse um dos grandes produtores mundiais de urânio, de uma qualidade absolutamente excepcional e muito superior à dos demais produtores?)

As desculpas apresentadas, quando apresentadas, eram e são as mais esfarrapadas possíveis. Seu elevado nível de inverossimilhança é indicativo de que logo, logo já não serão mais necessárias. A justificativa usada por um dos ideólogos do regime de Donald Trump para a ameaça de ocupação da Groenlândia é que “os Estados Unidos são um império” – a frase é do Vice-Chefe de Gabinete da Casa Branca para Políticas Públicas e Conselheiro Especial em Segurança Interna do imperador, Stephen Miller, e foi dita numa entrevista para a CNN.

Muda o contexto, é verdade, mas para além dos contextos, afinal sempre mutantes, está a invariável constatação de que o caráter ou a natureza do indivíduo (ou do país) é sempre o mesmo e quem no final das contas parece estar com a razão é o citado sr. Miller. Como são um império (com o que estamos todos e todas de acordo), podem mandar e mandam seus exércitos e corpos de assassinos profissionais (as unidades de elite da Marinha dos Estados Unidos, o chamado SEAL Team ou os Delta Force do Exército) para matar adversários onde quiserem e quando quiserem. Depõem presidentes eleitos e impõem ditadores como e onde bem entendem. Tendo a possibilidade operacional e política para fazê-lo, sequestram e ordenam assassinar quem quer que considerem inimigo em qualquer rincão do planeta.

Porque “os EUA são um império” – lembra o consigliere Miller.

A novidade é que o novo imperador está alargando os limites do possível e testando, dia a dia, mês a mês, desde que tomou posse menos de um ano atrás, até onde pode chegar suas pretensões imperiais. A escalada está em andamento e cada novo sucesso mais combustível lança na fogueira das vaidades e da ambição – na linguagem habitual do protagonista, mais aumenta o preço colocado à mesa para as negociações.

Curiosamente, as supostas razões apresentadas pela administração trumpista para sequestrar Nicolás Maduro estão bem distantes do campo da política – o que talvez soe ambíguo ou incompreensível. Ao contrário da mídia em geral, que faz questão de grudar ao nome do sequestrado o rótulo de ditador (implicitamente justificando o sequestro), os sequestradores não parecem dar a mais mínima bola para caracterizar o regime, nem dar importância para a sua legitimidade ou ilegitimidade do ponto de vista da democracia – como se dessem como implícita que tal tarefa estivesse mesmo a cargo da mídia.

Numa inédita operação conjunta entre as chamadas Delta Force (forças especiais do Exército), o FBI (polícia interna) e a DEA (Drug Enforcement Admninistration), levaram a cabo o sequestro porque tinham condições técnicas, militares e políticas para fazê-lo. O pouco valor dado à retórica para justificar o feito vaza por todos os lados. Mas sua dimensão denuncia uma nova etapa ou um mais ou menos inédito padrão para as práticas imperiais daqui para diante. Esboça, ao mesmo tempo, um novo mapa político para o planeta, com os Estados Unidos controlando o mais diretamente possível e formando um enorme e coesionado bloco, sem subterfúgios ou meias palavras, o que considera seu por direito natural e divino – a América Latina antes de qualquer outro território, e arrastando no vácuo a sempre subserviente Europa.

Desgraçadamente, o castigo ao velho mundo (para o bem e para o mal, berço da civilização tal como a conhecemos até agora) parece merecido.

Depois de recepcionar com glórias e louros de estadista o autoproclamado presidente interino da Venezuela Juan Guaidó (que fim terá tomado ninguém mais sabe ou se interessa em saber), estimular ao limite da sem vergonhice toda e qualquer natureza de oposição ao chavismo, premiar a ultradireitista Maria Corina Machado com o Nobel da Paz e, como consequência, sendo obrigada a se opor, mui candidamente, ao sequestro de Maduro, ou até mesmo apoiá-lo, como fez a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, o que restará aos europeus, e particularmente aos nórdicos, dizer quando as garras sedentas de Trump decidirem tomar para si a Groenlândia?

P.S.: a Groenlândia possui uma das maiores reservas não exploradas de terras raras do mundo (neodímio, praseodímio, disprósio, etc).

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Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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