“Podes retirar-te, Daniel, porque aquilo que expus não é para ser compreendido antes do tempo do fim. 10 Muitos serão colocados à prova e assim purificados e aperfeiçoados. Contudo, os perversos continuarão na sua perversidade e não entenderão coisa nenhuma. Só os que desejam mesmo aprender virão a saber o significado disso.” (Daniel, 12:9-10)

No país do eterno futuro, o tempo de Messias é curto. O de todo mundo é – ao menos, é o que se diz por aí. Ninguém tem tempo para nada. Tempo é dinheiro e só uns poucos têm dinheiro sobrando. Mas o tempo que Messias não tem é diferente do tempo que os outros não têm. Ele também reclamava da falta de tempo, como os outros. Também dizia nunca ter tempo, como os outros. Mas só porque sempre foi bonito se fazer de ocupado. Desocupado, perdia tempo dizendo não ter mais tempo para perder. Como todo mundo, Messias jogou seu tempo para o futuro. O problema é que Messias perdeu seu futuro e, com ele, o tempo. Preso, como está, todo dia é igual. Seu presente não muda. Seu tempo não passa. Às vezes, pensa no passado. Em tudo que passou até aquele tempo. Não conclui nada. Não aprende nada. Pensa sem pensar. Só pensa que pensa e isso já lhe basta para seu presente que nunca muda.
Messias está tenso. Cada vez que se submeteu a uma prova, desejou que fosse a última. Algumas vezes, chegou a pensar que seria a última, mas depois daquela vez veio outra, e outra, e outras. Como o tempo não para, o futuro chega e nele há sempre uma prova para Messias. Antes, eram as provas da escola, da universidade, da Ordem, do emprego, das consagrações, de amizade, de lealdade, de paciência, de amor… O tempo passa para Messias e a cada instante vem mais do que já foi, mais do que já passou, só que diferente. Cada vez uma prova diferente da outra, com nome diferente, com jeito diferente de se submeter, mas é tudo prova. Tudo provação. Ontem foi teste, agora será sabática, mas é tudo prova do mesmo jeito. Tudo uma necessidade de Messias mostrar a que veio ao mundo, como se o simples fato de estar no mundo não bastasse. Messias sente que não é. Que tem que provar para ser. Seu ser está no futuro. Seu ser será. Será?
“O Messias virá!”, grita Ofélia defronte o prédio que abriga Messias preso. O prometido por Deus que, na sua visão, é promessa condicionada. Só cumprida se Ofélia fizer sua parte. Seu Messias é de um futuro incerto. Mas que Ofélia tem fé de que virá e quando vier, vai limpar essa terra. Não ficará pedra sobre pedra. Será o fim de um tempo e o começo de outro. Seu sonho é com um tempo em que as coisas não mais serão porque no seu tempo presente, no tempo em que Ofélia é Ofélia, ela não se sente bem. Há culpa, incerteza, medo, confusão. Ofélia não quer nada disso e é por este motivo que Ofélia culpa os outros, confunde os outros, ameaça os outros, destrói o que não é conforme o que gostaria que fosse. Ofélia é fiel aos seus Messias. Ao que foi e ao que será. Acalenta lembranças do passado e esperanças no futuro enquanto deseja ardentemente que seu presente terrível acabe logo.
E enquanto isso, o tempo passa… indiferente ao que acontece no eterno país do futuro.
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