“É quando faz escuro que vemos as estrelas”  (provérbio popular português)

Sergio Massa irá disputar o segundo turno no próximo 19 de novembro contra Javier Milei, o candidato que unificará a direita e a extrema direita. O que estará em jogo é de máxima gravidade. A Argentina vive um “impasse” histórico.

O país menos desigual e com o padrão médio de vida mais elevado do Cone Sul entrou em uma longa estagnação, ou até regressão de “latino-americanização”. A decadência histórica, nos seus vais e vens, não foi interrompida. Este impasse remete a uma relação estrutural de forças entre as classes. O grande ajuste que a burguesia argentina persegue há décadas para poder disputar investimentos estrangeiros, favorecer as exportações, aumentar os níveis das reservas de dólares e estabilizar a moeda, exige uma redução do “custo Argentina”:

  • (a) o salário médio teria que ser nivelado pelos salários médios brasileiros ou, pelo menos, paulistas;
  • (b) as políticas públicas de transferência de renda, seja por distribuição direta de dinheiro, seja pelos subsídios que barateiam as tarifas públicas teriam que ser suspensas ou diminuídas, drasticamente;
  • (c) as privatizações teriam que ser retomadas para sustentar os planos de expansão de mineração e grandes obras públicas;
  • (d) a força social de choque dos sindicatos e movimentos populares teria que ser neutralizada. É possível um ajuste desta natureza sem uma derrota histórica da classe trabalhadora? É possível esse ajuste sem uma mudança de regime político e uma ameaça às liberdades democráticas? O pesadelo do que foi a ditadura militar de Videla e Galtieri ainda atormenta a memória da geração mais adulta. Desconsiderando outras diferenças, como o papel da educação e da saúde pública, Sergio Massa representa um projeto gradualista de ajuste. Milei representa um projeto de choque. O desafio da esquerda argentina, que subestimou o perigo da extrema direita, é compreender que, até novembro, não é possível lutar contra os dois ao mesmo tempo. A denúncia de Massa pela esquerda, nas próximas quatro semanas, mesmo quando muito justa, favorece Milei.

A longevidade da influência do peronismo é um dos temas centrais, mais instigantes, mas, também, perturbadores da história contemporânea da Argentina. Por que o peronismo sobreviveu? Não é possível compreender a longevidade do peronismo sem sublinhar que ele se apoia em uma das classes trabalhadoras mais ativas do mundo, sindicalmente muito combativa, mas, politicamente órfã de uma representação independente. O peronismo assume o espaço de centro esquerda, mas não é o PT da Argentina. O peronismo é um nacionalismo burguês progressista, contemporâneo do falecido getulismo no Brasil, que foi deslocado pelo PT e pelo lulismo, unindo diversas e, aparentemente, “incompatíveis” correntes, desde reacionários, neoliberais, e social-democratas até socialistas, como o movimento político que mantém maior influência nas camadas populares e recolhe, eleitoralmente, a maioria dos votos da classe trabalhadora. Talvez porque a classe trabalhadora argentina tenha sido aquela que, historicamente, obteve mais conquistas entre os países dependentes, portanto, aquela na qual as ilusões reformistas de regulação do capitalismo são mais poderosas. O peronismo é forte porque a esquerda é fraca, mas isso é um argumento circular, não explica nada. Nem o partido comunista, nem o socialista, conseguiram ir além da marginalidade, muito em função de graves erros políticos, em distintas oportunidades. Paradoxalmente, ao lado da Bolívia e da França, a Argentina é o país onde o trotskismo teve no passado, e mantém até hoje, maior audiência.

No Brasil, comparativamente, o varguismo não sobreviveu. O suicídio de Getúlio, em 1954, provocou uma explosão de fúria popular, inverteu a relação social de forças e conseguiu adiar por dez anos o golpe de Estado para 1964. Peron foi derrubado do governo pelo golpe gorila de 1955, mas sua autoridade sobre o movimento sindical e as camadas populares se manteve intacta, até 1973, quando voltou do exílio, e foi eleito presidente. Faleceu no ano seguinte, mas o peronismo sobreviveu à sua morte e voltou ao poder em 1989 com Carlos Menem. A experiência histórica não tinha sido superada e, ainda em 2003, se reinventou como kirchnerismo e governou até 2015. Voltou a vencer as eleições em 2019 com Alberto Fernandez e Cristina, confirmando imensa resiliência. No Brasil, em 1979, quando as lutas operárias, estudantis e populares mudaram a relação social de forças, a liderança que expressava a continuidade da corrente varguista, Leonel Brizola, teve que competir com o PT pela representação dos trabalhadores e, depois de dez anos, foi derrotada, quando foi Lula que chegou ao segundo turno contra Collor, por uma diferença inferior a 1%, um “acidente eleitoral”.

A longa vida do peronismo passou por seis etapas:

  • (a) o momento nacional-desenvolvimentista, durante o primeiro mandato do general Perón e Evita, quando se apoiou nos sindicatos para contrabalançar o peso do setor agroexportador, fortalecer a industrialização e expansão do mercado interno;
  • (b) o momento da resistência, quando manteve sua influência depois do golpe de 1955 até 1973, porque as conquistas sociais da primeira década do pós-guerra permaneceram vivas na memória social da classe trabalhadora durante as ditaduras militares, e porque a oposição reconheceu Perón no exílio como o líder do movimento;
  • (c) o momento contrarrevolucionário, entre 1975/76, quando da posse de Isabelita e o “bruxo” de extrema direita Lopez Rega, que acabaram abrindo o caminho para o golpe de 1976;
  • (d) o momento heroico, quando a ditadura militar de 1976/82 realizou um genocídio, provocou um trauma histórico e conduziu o país para uma derrota militar na guerra das Malvinas, deixando o peronismo como a direção das classes populares;
  • (e) o momento neoliberal, quando se reposicionou como partido de centro-direita com Menem, depois da restauração capitalista e o fim da URSS, e a dolarização nos anos noventa;
  • (f) o momento “reformista” quando se reinventou como kirchnerismo entre 2003/15 e conseguiu conter a onda de mobilização popular com concessões, após a situação pré-revolucionária de 2002, e estabilizou o regime.

Qual será o futuro da esquerda na etapa pós-Lula? O lulismo terá uma sobrevida depois de Lula, como o peronismo sem Perón? A longa vida do PT passou, também, por seis etapas:

  • (a) o momento classista heroico da fundação do PT ao calor da onda de greves entre 1978/81 até as eleições de 1989;
  • (b) o momento institucionalização, ou plena integração como um partido do regime, entre o apoio à posse de Itamar Franco em 1992, depois do impeachment de Collor, e a vitória eleitoral de 2002, quando se consolidou como o maior partido de oposição nacional;
  • (c) o momento lulista dos dois mandatos, entre 2003 e 2010, quando a influência pessoal de Lula decolou e passou a ser, qualitativamente, maior do que o petismo;
  • (d) o momento dilmista, entre 2010 e 2016, quando Lula acaba aceitando, contrariado, a disputa da reeleição, uma fase neodesenvolvimentista que termina com o deslocamento da burguesia para a oposição e, finalmente, para o golpe;
  • (e) o momento heroico, a prisão de Lula durante um ano e meio, a resistência durante sete anos de acumulação de derrotas que culminaram com a eleição de Bolsonaro;
  • (f) o momento atual, aberto pela estreita vitória da eleição de Lula contra Bolsonaro em 2022.

O PT já demonstrou ter imensa resiliência, mas pode manter a influência de massas do lulismo dos últimos quarenta anos, sem Lula? Dependerá, pelo menos, de quatro fatores:

  • (a) a economia não pode parar de crescer, mesmo que lentamente, porque a estagnação, ou pior, uma contração ameaçará a ampla coligação com os partidos burgueses e a governabilidade;
  • (b) não bastará o crescimento, o governo Lula precisa responder, até 2026, às demandas populares mais agudas, alimentando a esperança de que é possível, através de uma estratégia reformista, melhorar a vida;
  • (c) a corrente neofascista deverá ser derrotada e sua audiência em parcelas da classe trabalhadoras do sudeste e sul do país terá que refluir;
  • (d) uma liderança do PT precisará emergir, superando as disputas pessoais pelo poder e se afirmar com capacidade de construir coesão interna. Uma transição mais lenta, segura e controlada poderia ser feita, se Lula puder concorrer em 2026 e vencer. Mas será abrupta, convulsiva e, provavelmente, com danos irreparáveis, se for feita sem Lula. A única certeza é que a esquerda vai se dividir, porque haverá luta devastadora dentro do PT, disputas internas no PSOL e no PCdoB e, provavelmente, mais momentos “vulcânicos”, como a divisão da Consulta Popular e do PCB, na esquerda radical.

Ainda é cedo para prever o desenho dos campos, mas há algumas hipóteses mais prováveis, em função dos posicionamentos atuais. O PT interrompeu a dinâmica de crise que vinha acumulando desde 2013 por causa do golpe institucional contra Dilma Rousseff e do impacto de sete anos de derrotas acumuladas e recuperou autoridade. Atingiu o seu ápice em 2022 com o agigantamento de Lula ao sair da prisão, liderando a campanha contra Bolsonaro. Mas não conseguiu fechar, totalmente, o flanco à sua esquerda. A relocalização do PSOL, que assumiu liderança nos movimentos feminista, negro, indígena, LGBT, estudantil e popular e o protagonismo do MTST projetaram Boulos, que chegou ao segundo turno em São Paulo em 2020 e, conquistando mais de um milhão de votos em 2022, afirmou-se como a segunda liderança popular mais influente do país, emparelhando ou até superando Haddad, que tinha substituído Lula na eleição contra Bolsonaro em 2018. Ninguém pode prever qual será o desfecho do governo Lula. Manterá os índices de aprovação atuais, acima de 50%, irá se fortalecer ou enfraquecer? A resposta depende de muitos fatores, hoje imprevisíveis, o que recomenda um saudável “empirismo leninista”. Mas a disputa da prefeitura de São Paulo em 2024 será a mãe de todas as batalhas futuras. Se Boulos sair reforçado, qualitativamente, por uma vitória, muda a relação de forças dentro da esquerda e o PT sairá, inescapavelmente, diminuído, mesmo tendo apoiado o PSOL desde o primeiro turno. Mas ainda terá, talvez, a “carta” Lula – o que pode atrasar a reorganização pela esquerda do PT, e um papel maior de Boulos.

Não é possível antecipar o cenário das presidenciais de 2026, diante de incógnitas chaves. Lula terá condições de disputar a reeleição? Bolsonaro poderá ser candidato? A extrema direita sem Bolsonaro conseguirá preservar o grau de influência que conquistou? O Brasil conseguirá manter o crescimento, caminhará para estagnação ou até recessão, em função da retração do mercado mundial? Qual o desenlace das duas guerras atuais, na Ucrânia e em Gaza, e seus impactos? Qual o desfecho das eleições nos EUA? Entretanto, se o contexto de 2022 se repetir, e considerando as dificuldades imensas que o governo Lula irá enfrentar nos próximos anos, a hipótese mais provável é que a eleição será muito difícil, e a maioria da base social da esquerda se posicionará em estratégia defensiva, como na Argentina agora. Se vier a ser assim, o PT ganhará tempo histórico, mesmo que desmoronando por dentro. Mas, são muitos contrafactuais, e há outras hipóteses. Ainda é cedo para saber se o PT terá sete vidas. (Publicado no Esquerda Online em 27-10-2023)

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli  e  Revisão: Celia Bartone
Leia também “Argentina: vamos ao segundo turno“, de Adhemar Mineiro.