Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo

No engarrafamento de sempre, os ambulantes de sempre. Sempre no mesmo lugar. Vendendo os mesmos biscoitos. De polvilho. Esfarelentos. Que ressecam a boca e dão sede. Talvez por isso ofereçam água também. Ninguém vende refrigerantes, sucos, pães de queijo ou biscoitos recheados. Só água e biscoito de polvilho. E da mesma marca. Tudo rotineiro. O engarrafamento, os biscoitos e a água. Almeida não gosta de engarrafamento, nem morre de amores por biscoitos de polvilho, mas gosta de rotinas.

Até pouco tempo, a rotina do serviço público o reconfortava. Mudava o presidente, os ministros e muitos escalões de chefia, mas a burocracia, a cultura e os procedimentos permaneciam. Almeida pensava que eram por causa das normas. Estava enganado.

Ambulantes vendem sempre as mesmas coisas. E não há nenhuma norma que os obrigue a isso. Eles simplesmente fazem sempre o mesmo porque acham que o mesmo de sempre é que faz sentido.
Na repartição, Almeida e todos os outros sempre fizeram o mesmo de sempre porque isso fazia sentido. Podiam ser formas trabalhosas e idiotas, mas mudá-las parecia ainda mais trabalhoso e idiota.

Foram criadas para atingir algum propósito que parecia óbvio. Na saúde, o objetivo era a saúde; na Educação o objetivo era educar; no meio-ambiente, preservá-lo. Era. Agora nada mais é óbvio.
Por mais de 30 anos de administração pública seguiu princípios e valores que a Constituição dizia para serem seguidos. Era seu norte. Nos últimos anos, mudou. Agora, é para fazer a vontade do chefe. E a do chefe do chefe. E a do chefe do chefe do chefe. Do jeito que eles quiserem. E eles nem sempre querem as mesmas coisas. E as vontades mudam do dia para a noite. Muda o chefe e o chefe do chefe o tempo todo. Só não muda o chefe do chefe do chefe, não importa o que ele faça.

Trabalhava-se para resolver problemas reais, que apareciam na forma de relatórios com números e gráficos. Pensavam em causas e seus efeitos. Almeida é um dos que faziam relatórios com gráficos coloridos. Ninguém os lê mais, porque a realidade tornou-se irrelevante. Almeida tornou-se irrelevante. A eficácia tornou-se irrelevante.

Agora, nada precisa acontecer de verdade. Basta parecer que acontece. Fracasso e sucesso agora são medidos pelas aparências e elas não precisam dos relatórios de Almeida para serem conhecidas e medidas. Mesmo assim, ele continua fazendo relatórios. Por hábito. Por rotina. E para parecer pelo menos para si mesmo que faz alguma coisa útil.

Nó último que fez, falou de vacinas. Mostrou com números e palavras que seria uma boa ideia comprá-las. Mostrou cálculos e gráficos sobre vida e morte de gente. Impaciente, o chefe interrompeu no meio. “Não tem dinheiro e pronto!”. Engravatados do lado dele, que não fazem relatórios, diziam que deixar a doença fazer o seu serviço seria mais barato.

Saiu do gabinete constrangido. E triste por perceber que para o chefe, o chefe do chefe e o chefe do chefe do chefe, a vida de um brasileiro não valia 50 reais.

Na volta para casa, comprou 50 reais em biscoitos de polvilho. Engoliu a seco dois sacos de uma vez, mesmo sabendo que isso atiçaria ainda mais a sua azia. Olhou para o banco de trás lotado de pacotes e pensou no quanto ainda havia para engolir.

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