Meu colega Eddi de la Pera contou sobre um episódio durante sua reportagem em um hospital materno infantil da província de Holguín, no leste do país:

“Estávamos gravando. Acabou a energia elétrica. Naquele momento de incerteza, testemunhamos o imenso profissionalismo dos médicos e enfermeiras. Apesar de seus rostos contraídos pela preocupação, seu esforço se focou em cuidar dos recém-nascidos. Na penumbra, só se escutava o caminhar rápido e os sussurros dos profissionais se movimentando junto das incubadoras. Nas sombras, se via os jovens médicos com uma entrega repleta de amor”.

Essa realidade tem por trás histórias cotidianas de partir o coração: mais de 32 mil grávidas enfrentam riscos adicionais, ameaças e limitações como consequência do bloqueio energético do governo dos Estados Unidos contra Cuba. Ao mesmo tempo, são afetados outros serviços para recém-nascidos, menores de idade, diabéticos, com tratamentos para câncer, ou necessitados de cirurgias ou atendimento emergencial.

Na tarde de 29 de janeiro, à brutalidade do bloqueio de quase sete décadas somou-se uma ordem executiva publicada em Washington: foram 2.207 palavras nas quais Donald Trump decretou “combustível zero” para a ilha. O argumento apresentado? Cuba tem uma política hostil para com os Estados Unidos e representa uma “ameaça nacional”. Para responder a esta “ameaça”, os Estados Unidos devem tomar medidas radicais e aumentarão as tarifas sobre produtos de países que ousarem violar a ordem de não fornecer petróleo a Cuba. Exibindo seu punho de ferro, Trump exclamou: “Parece que não poderá sobreviver. Cuba não poderá sobreviver”.

Mais do dia a dia.

Em meu bairro, o silêncio das manhãs contrasta com a habitual agitação de tempos passados: a escola de ensino médio está funcionando, mas com horário reduzido. Pelas ruas apenas transitam o que chamamos de “riquimbilis”, transporte de passageiros em carrinhos elétricos, que usamos para tudo.

O lixo se acumula na esquina porque não há combustível para recolhê-los. As intermináveis ​​caminhadas até o médico ou para encontrar alimentos básicos são um fardo, e os longos cortes de energia a qualquer hora do dia ou da noite tornam a vida uma grande incerteza.

A Dra. Yudmila Rodríguez Verdecia, diretora da unidade cirúrgica e de serviços de anestesia do Hospital Materno Ramón González Coro, conta que sua equipe está pronta para atender urgências, mas com a possibilidade de que, a qualquer momento, falte energia. “Aqui se recebe pacientes em que corre perigo não só a vida do recém-nascido, mas também a da mãe. Pelo tempo que têm de utilização, as baterias destes equipamentos já não funcionam”.

Outra história recente relata uma cirurgia de urgência realizada durante um apagão, só com as luzes de telefones celulares.

Os estudantes da faculdade de Artes (que formou milhares de músicos e artistas cubanos por seis décadas) estão praticamente paralisados.

As universidades passaram para o ensino à distância, com a desvantagem das conexões instáveis devido aos cortes de energia.

Recentemente, a empresa mineradora canadense Sherritt anunciou que interromperá suas operações em Cuba a partir da próxima semana devido ao bloqueio de combustível imposto pelos Estados Unidos. Esta empresa, que opera a mina de níquel e cobalto de Moa, é um dos maiores projetos industriais de Cuba e uma importante fonte de recursos para a ilha.

No meu bairro, os vizinhos se organizaram para o trabalho voluntário. Varremos a rua, limpamos e juntamos o lixo na esquina para quando for possível recolhê-lo. As pessoas passam, cumprimentam-se, sorriem, apesar de tudo, e se ajudam.

De minha janela vejo o flamboyant coberto de brotos. Ele espera as primeiras chuvas da primavera caribenha para florescer.

Frequentemente ouve-se a frase cubana que resume tudo:

– Não é fácil!

E acrescenta-se a pergunta:

– Por quê? (Carta da jornalista enviada ao Jornal Grifo)

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Ilustração: Mihai Cauli
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