
Ano que finda e ano que se inicia, é tempo de passar a limpo o panorama da economia brasileira. Não parece estar mal. Muito ao contrário. A taxa de desemprego caiu a 5,2%, inclusive com menos informalidade, que atingiu 37,7% da população ocupada e um novo recorde de 39,4 milhões de trabalhadores com carteira assinada. Podia ter sido melhor, se a política monetária tivesse tido um mínimo de razoabilidade e não fosse tão contracionista. Com isso, o crescimento do PIB deve ficar aquém do registrado em 2024, situando-se em torno dos 2,2%. Para calafrios ansiosos do "mercado", a política fiscal atuou no limite do arcabouço fiscal e manteve o crescimento, que permitiu a queda do desemprego. Além disso, a taxa de câmbio recuou algo como 12%, situando-se no entorno de R$ 5,40, e a bolsa subiu 34%, alentada pela entrada de recursos externos. O Ibovespa, que chegou aos 165.000 pontos, fechou o ano acima de 161.000. O outro indicador macroeconômico crucial, a inflação, caiu abaixo do teto da meta, ficando em 4,26% no ano, inclusive com desaceleração mais acentuada em alimentos e bebidas (2,95%). Não fora a taxa de crescimento do PIB um tanto raquítica, mesmo assim próxima da média mundial, os dados apontam para um desempenho bem melhor do que o anunciado no início de 2025 pelos arautos do mercado financeiro, melhor dizendo, os economistas midiáticos.
O contraste dos dados acima com as previsões anunciadas no inicio de 2025 pode ser visto com uma consulta aos registros de então. Era esse o cenário previsto no início de 2025 pelos tais economistas? Não. De novo, muito ao contrário. As previsões anunciadas desafinaram feio, como geralmente tem acontecido, particularmente no que diz respeito à inflação e ao crescimento do PIB. Aqui a toada tem sido prever inflação mais alta e crescimento abaixo dos números reais de final de ano.
No início de 2025, as principais projeções das instituições próximas ao sistema financeiro indicavam, para o Brasil, um crescimento do PIB em torno de 2,02%, uma inflação (IPCA) projetada próxima de 4,99% e a taxa de câmbio do dólar em cerca de R$ 6,00. Em contraste, o IPEA e o FMI apostavam em crescimento de 2,4%. Portanto, os dados projetados pelo sistema financeiro e seus economistas ficaram bem diferentes dos observados.
Vale aqui, antes de prosseguir, caracterizar melhor quem são esses senhores com "direito" de fala na grande mídia. Em artigo recente publicado no site Outras Palavras (Diatribe contra a turma da bufunfa), o Prof. Paulo Nogueira Batista Jr. define bem esse grupo por ele denominado de Turma da Bufunfa: Diz ele: "A turma da bufunfa é um poderoso agrupamento de banqueiros, financistas, rentistas e empresários não financeiros de grande porte, acolitados por economistas e jornalistas serviçais. É um grupo muito influente, que se dedica a acumular dinheiro, custe o que custar, ignorando na cara dura preocupações sociais e nacionais." Inserem-se aí, portanto, não só economistas, mas estes são os porta-vozes que aparecem na grande mídia apontando as possíveis tendências dos indicadores econômicos e suas não confessadas tentativas de confundir e criar clima para favorecer seus (deles) interesses.
Dito isso, voltemos ao tema. Um aspecto relevante a observar é que esse comportamento divergente entre as previsões desses economistas e a realidade não é um fato isolado. Na verdade, se formos observar melhor, vem ocorrendo assim já há algum tempo. Particularmente quando está no poder um governo de esquerda, ou de centro-esquerda, como é o caso do governo Lula.
A pergunta que deriva daí é: será essa construção de cenários pessimistas um fato fortuito, ou desinteressado? Ou melhor: a quem interessa construir e divulgar cenários ou previsões mais "feias" do que o que está em curso? Fatos isolados, ou pontuais, já sabemos que não são. Mas, há método nessa "loucura"? Os modelos econométricos falham tanto assim? Ou tem "coisa" por trás dessa recorrência? Esse tema, em geral, passa despercebido e, no máximo, um ou outro jornalista mais cuidadoso levanta os dados de previsões de início comparando-as com o ocorrido no final do ano, até que um novo final de ano venha e tudo se repita.
As perguntas acima merecem, no mínimo, alguma reflexão. Um primeiro aspecto é tentar especular sobre as possíveis implicações de tais previsões pessimistas. Algumas são mais evidentes e bem ideológicas: um governo que tem viés esquerdista, qualquer que seja o tamanho do viés, deve ser retratado pelos representantes do "mercado" como incompetente em lidar com a política econômica. Parte-se desse princípio. Assim, não dão os senhores midiáticos suporte à ideia de que o desempenho da economia será favorável quando a mesma é gerida pela esquerda. Além disso, a previsão pessimista também contribui para difundir essa pecha de incompetência no seio da sociedade com objetivos políticos e econômicos. E haja críticas, onde a alegada "gastança" perdulária e irresponsável pontifica. A velha tática de desqualificar os "adversários" para com isso enfraquecê-los. De quebra, assim reafirmam o discurso demonizante dos gastos correntes do setor público.
Por outro lado, prever crescimento baixo do PIB também influencia para baixo as expectativas de investimentos e assim a profecia fica mais plausível de ocorrer. Afinal, com expectativas minguadas de crescimento, os empresários esmorecem ao investir, principalmente quando olham para a taxa de juros real acima de 10,0% ao ano.
Outro aspecto não trivial é que projetar, por exemplo, inflação e câmbio "fora do lugar" tem interesses não confessados por trás. Quais seriam? Entendamos. Quanto maior a inflação, ou a expectativa de inflação, e quanto mais desvalorizado o câmbio, mais se justifica e se pressiona a fixação de juros elevados por parte do Banco Central. Como assim? Ora, o juro alto virou a cantiga de uma nota só para conter a inflação e ainda ajuda a atrair dólares que levam à valorização do câmbio. Ora direis: e daí? Que mal há nisso? Males variados podem ser citados.
Em primeiro lugar, a exacerbação do rentismo e a transferência bilionária de recursos públicos para os aplicadores no sistema financeiro através de pagamentos de juros da dívida pública, cuja conta ronda R$ 1,0 trilhão por ano. Maior o juro, maior essa conta. Com isso, recursos de impostos, que poderiam ir para saúde e educação, por exemplo, ficam aprisionados pelos serviços da dívida pública, enquanto engordam o caixa, já obeso, diga-se, dos aplicadores em títulos dessa dívida. Tem mais: com a dívida crescente, o discurso, no mínimo discutível, da necessidade do corte dos gastos primários ganha força.
Além disso, o juro elevado deprime o investimento e o crescimento econômico. Tem também impacto no comércio exterior, pois juros elevados tendem a valorizar a taxa de câmbio. Com o câmbio mais valorizado, as importações ficam mais baratas e a indústria de transformação, principalmente, perde competitividade. Com isso, importa-se mais e exporta-se menos. De novo, reflexos negativos sobre a taxa de crescimento e sobre a produção doméstica. Uma menor taxa de crescimento ajuda a demonstrar a "incompetência" do governo, além de conter a queda do desemprego, reduzindo assim as pressões por salários mais altos. Portanto, favorece os capitalistas.
Assim, as previsões de inflação acima da realidade fazem parte do jogo ideológico e de pressões interesseiras para manter a taxa de juros elevada, que mantém em alta o rentismo e a dívida pública. Esses e outros aspectos ajudam a entender a "insistência" desses economistas midiáticos em distorcer as previsões. Fiquemos, pois, alertas e atentos quanto ao que costuma ser dito pelos vocalizadores de interesses não ditos, mas que ajudam a "turma da bufunfa" a enriquecer com as políticas defendidas por eles como capazes de assegurar a tão decantada austeridade nos gastos públicos. Austeridade essa que vale para os chamados gastos primários do setor público (saúde, educação, previdência, etc.), mas não vale para os gastos com juros – é sempre bom repetir.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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