“Não temos amigos permanentes, nem inimigos permanentes, apenas interesses permanentes.”
Winston Churchill, referindo-se à política externa da Inglaterra.

“Um bom líder precisa ser calculista, usando a amizade com os aliados,
mas sem deixar que a lealdade o coloque em desvantagem.”
Maquiavel, colocando limites na lealdade.

Durante anos, analistas de política internacional alimentaram a tese de que a proximidade comercial e militar com a China e a Rússia serviria como um escudo de proteção contra intervenções dos Estados Unidos. O argumento era de que o custo geopolítico e militar de desafiar um aliado de Pequim ou Moscou poderia ser proibitivo. No entanto, os eventos de janeiro de 2026 na Venezuela, somados ao colapso de regimes aliados na Síria e à paralisia diplomática em relação ao Irã, desmontaram definitivamente essa teoria. O que vimos não foi a existência de um equilíbrio de forças, mas a demonstração de que o pragmatismo chinês e a exaustão militar russa deixam seus parceiros à própria sorte quando o poder militar norte-americano e a ousadia que o acompanha entram em cena.

O mito desabou de vez em Caracas. A Operation Absolute Resolve, deflagrada pelos EUA na madrugada de 3 de janeiro de 2026, mostrou o que significa a palavra geopolítica no mundo atual. Com um pacote aéreo superior a 150 aeronaves, as forças especiais americanas capturaram Nicolás Maduro e Cilia Flores em Caracas e os transferiram para solo americano, onde serão julgados. A rapidez e a eficácia da operação expuseram a fragilidade da ajuda militar russa: mesmo que tenha ocorrido traição por partes de agentes de segurança, a verdade inescapável é o fato de que os sistemas de defesa aérea fornecidos por Moscou, como os Buk-2MA e os S-300, falharam miseravelmente em impedir a incursão.

A reação russa foi meramente protocolar. Enquanto o Ministério das Relações Exteriores em Moscou classificava a ação como pirataria moderna, nenhuma medida no campo militar foi tomada. Como bem notou o nacionalista russo Igor Girkin, a Rússia, atolada no conflito da Ucrânia, mostrou-se totalmente incapaz de projetar poder para salvar um aliado vital em outro hemisfério. A festejada parceria estratégica celebrada apenas oito meses antes entre Putin e Maduro revelou-se um pedaço de papel sem valor prático diante da superioridade tecnológica e da determinação de Washington.

A tese de que a China interviria para proteger seus vultosos investimentos, estimados em mais de US$ 62 bilhões na Venezuela, também se provou falsa. O comportamento de Pequim é regido por um pragmatismo gélido, guiado pela relação custo-benefício. Se o custo de proteger um aliado supera o benefício estratégico ou ameaça a estabilidade econômica global, a China recua rapidamente para a uma retórica diplomática recheada de um eloquente “repúdio bombástico” que nada altera no mundo real.

Esse padrão de abandono já havia sido desenhado no final de 2025, com a queda do governo de Bashar al-Assad na Síria. Apesar de anos de apoio russo, o regime colapsou sem que Moscou pudesse, ou quisesse, evitar o desfecho final. O mesmo se aplica ao Irã; embora Pequim e Moscou ofereçam cobertura diplomática e rotas comerciais para contornar as sanções ao Irã, há uma hesitação clara em mostrar qualquer disposição em arriscar-se em um confronto militar com a dupla EUA/Israel para garantir a sobrevivência do regime iraniano.

Analistas importantes corroboram essa visão: Richard Haass, presidente emérito do Conselho de Relações Exteriores da Universidade de Nova York, e consultor sênior da Centerview Partner, argumenta em artigo para o Project Syndicate que a ordem global está sendo substituída por acertos regionais sob a tutela das potências mundiais. No mesmo sentido, Sven Biscop, diretor-geral do Instituto Egmont e professor na Universidade de Ghent, afirma que a estratégia de Washington sob a Doutrina Trump está dividindo o mundo em zonas de interesse, onde o poder das armas se sobrepõe a qualquer ideia efetiva de multilateralismo.

Na prática, a deposição de Maduro reforça a Doutrina Trump, que encara o Hemisfério Ocidental como uma região onde os interesses dos EUA têm prioridade absoluta sobre quaisquer outros. Para a Rússia e para a China, a aceitação tácita dessa intervenção sugere a adoção de uma realpolitik selvagem e muito bem-vinda por esses países. Se os EUA dominam a ferro e fogo o seu quintal, Pequim e Moscou podem exigir ter a mesma liberdade em suas próprias esferas de influência na Eurásia e no Indo-Pacífico.

Em suma, para qualquer governo que deposite sua segurança no fato de ter parcerias comerciais e militares relevantes com o eixo Pequim-Moscou, as lições de janeiro de 2026 são claras. Hardware não é blindagem, ter mísseis russos ou vigilância chinesa não torna um país impenetrável à guerra cibernética e às operações especiais dos EUA; e quando a conta geopolítica chega, as grandes potências eurasianas preferem não pagar absolutamente nada pela segurança alheia. A blindagem russa e/ou chinesa é, portanto, uma miragem. Aqueles que acreditam nela ignoram que, no tabuleiro das esferas de influência, o peão será sempre sacrificado em favor do rei.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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