Metódico que é, Sidiney incomodou-se com os fogos por começarem a estourar dois minutos antes da meia-noite. Coisa de desleixado, que não acerta o relógio, ansioso que não consegue esperar ou bêbado que não saberia dizer quando nem o que está fazendo. Ou tudo isso junto numa pessoa só. Tudo misturado numa espécie de avesso de Sidiney, num Yenidis. Só de pensar nisso ouvindo os pipocos antecipados fez a champanhe lhe descer mais amarga que de costume. Sidiney não gosta de champanhe. Não gosta de gente diferente dele. Não gosta de réveillon. Também não gosta dele mesmo.

Buscou o rosto de um dos fogueteiros antecipados para lhe dirigir um olhar de reprovação, mas desistiu quando achou o sujeito familiar. O homem também pareceu ter reconhecido Sidiney. O início no tempo correto do foguetório o distraiu do homem. Inclinou a cabeça para trás e assim ficou por mais de dez minutos vendo os coloridos luminosos tediosamente parecidos com os do ano passado, e do passado daquele, e do anterior também. Quando voltou seus olhos para o entorno terreno, percebeu o sujeito do seu lado.

“Oi!”, disse o homem com simpatia. Sidiney estava um pouco desconcertado. O sujeito era realmente familiar. Familiar até demais. Na verdade, se parecia muito com ele mesmo. “Será um irmão?”, pensou. Não poderia ser. Queria perguntar quem ele era, de onde se conheciam, mas teve receio de cometer alguma gafe. Sidiney era mal-humorado, mas não era grosseiro, nem gostava de constrangimentos. Queria só ficar só com seu mal-humor. “Oi.”, respondeu afinal.

“Você não está me reconhecendo, não é?”, perguntou o homem sem abrandar a simpatia ou demonstrar qualquer decepção. “Não, realmente não estou lhe reconhecendo”, disse Sidiney com um misto de alívio pela situação ter vindo logo à tona e decepção com sua memória que lhe colocou naquela situação.

“Eu, sou você. Não está vendo?”.

“Pronto! Um maluco!”, pensou. “Era só o que faltava para completar aquele ano passado horrível”. Mas, realmente, aquele sujeito não era apenas familiar. Era mesmo a sua cara. De familiaridade mais do que familiar, ainda que Sidiney o olhasse com alguma estranheza, sem saber se por causa da semelhança, do inusitado da situação ou se por algum outro motivo que não conseguia identificar. “Fala sério?”. Perguntou com desconfiança.

O sujeito riu com espontânea alegria. “Claro! Não está vendo? Você não se reconhece?”.

“Será?”, pensou, “será que é verdade? Ele sou eu?”. “E se for verdade, será que eu não sou capaz de me reconhecer?”. Esses pensamentos o deixaram estranhamente atordoado. Como numa embriaguez mais da alma que da cabeça. “Mas como assim?”.

“Cara, você bebeu. Bebeu muito. E entrou nessa onda de fazer uma espécie de balanço do ano passado e projetos de ano novo. E você não quer ser mais que nem você. Quer ser como eu. Eu sou o você que você deseja ser. O você preso dentro de você. O você que você se ressente de não ser e que por isso critica, condena, olha feio, repreende, fala mal de gente em quem você reconhece alguma atitude ou jeito de ser que você queria que fosse o seu jeito de ser. Um você que não se irrita com bobagens. Que não liga para coisas pequenas e, olha, quase tudo nessa vida é coisa pequena diante da grandeza da vida. Eu sou Yenidis”.

Sidiney não sabia o que pensar. Nem o que sentir. Menos ainda o que fazer. E foi nesse momento de vazio de saber, que se abraçaram e assistiram aos últimos clarões dos fogos de ano novo.

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Ilustração: Mihai Cauli
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