
Sentou-se à mesa de sempre que, por sorte, não tinha ninguém. O bar vivia vazio. Naquele dia, só porque era carnaval, estava apinhado de gente estranha. Dos de sempre, só ele mesmo. Era tanta gente diferente daquele lugar que ele é quem parecia o diferente dali. “Parece até que estão distribuindo dinheiro”, pensou. “Ou esperança, o que dá no mesmo”.
Não era o primeiro carnaval que passava ali. Mas este parecia diferente dos outros. As pessoas diferentes estavam diferentes. Numa diferença diferente do que ele esperava encontrar. Diferente do que já encontrou em outros carnavais, bingos, festas estranhas, jogos de futebol ou qualquer outro acontecimento que atraísse gente estranha para o bar mais ordinário daquela cidade. Estavam… Felizes!
Duvidou no começo e precisou de mais tempo, cerveja e cigarros observando os sorrisos, olhares, jeitos e trejeitos da gente estranha. Mas as evidências estavam ali. Era alegria mesmo. Genuína! Coisa estranha para um carnaval, festa em que todo mundo se esforça um pouco para entrar no clima risonho mesmo cansado, triste ou puto da vida. Clima de sorrisos escancarados por fora para esquecer as tristezas de dentro. Só porque o calendário diz que é carnaval.
“O esforço pra esquecer a merda de vida que se tem ou as merdas que acontecem na vida que se pode ter. É isso. O esforço. Ele amarela qualquer sorriso. Até aqueles de boca aberta, escancarada, que deixam ver as amídalas. Acho que quanto mais se tenta esquecer dos problemas da vida, mais a boca se abre. Ou então, é só bebida mesmo. Muita bebida. Anestesia da alma…”. Pediu outra cerveja e uma dose de tequila para misturar as ideias.
Acendeu mais um cigarro e travou o olhar num casal que se olhava e beijava com a ânsia de quem não pode esperar mais um segundo para ser feliz pelo resto da vida. Ou do romance. Ou da noite. Do que vier primeiro. Não havia neles o amarelado do sorriso que camufla tristeza, tédio ou a indiferença só porque não combinam com o carnaval. Não. Estavam realmente felizes. Realmente apaixonados. Genuinamente carnavalescos.
E não eram os únicos. O clima era de alegria tão insinuante que até seu espírito normalmente distraído e melancólico permitiu-se afetar de algum alegramento. O suficiente para estampar na cara um sorriso que não parecesse de ironia. Mas conteve-se. “Sorrir pra quê? Pra quem?”. Sentiu-se tolo por perceber em si mesmo algum contentamento. Logo ele. Logo ali. Logo naquele dia tão estranho.
“Que alegria será essa?”. Incomodou-se com a mesa de pé manco que numa trepidação quase derrubou sua cerveja. O susto lhe trouxe à mente a hipótese: “Eles não têm medo!”.
Desde o início da pandemia que a vida amedrontara-se. Às desconfianças quotidianas nascidas das nossas disputas por grana, juntaram-se os medos sanitários. Foi tanto tempo temendo que um aperto de mãos pudesse levar a uma morte sufocante, que acabaram todos se acostumando com o medo. Como se ele estivesse sempre ali. Um medo de gente. De coisa que mata a gente se a gente chegar perto de gente. Agora, acabou. Foi-se.
Era o carnaval sem medo de beijar, de abraçar ou de só ficar perto. Sem medo de usar fantasia. E de fantasiar que há em si um grande amor por si. Por uns diazinhos, pelo menos, essa gente estranha, mas tão familiar nos seus sofrimentos, conviverá sem se estranhar. Sem lembrar que aprenderam a temer e a odiar uns aos outros. Depois de muito tempo, um carnaval para se viver sem medo de ser feliz de novo.
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Ilustração: Mihai Cauli
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