ATO III

Cena I

Brasília. Sala do Palácio.

BRASILEIRO

Ser ou não ser – eis a questão.

Será melhor viver um mar de memes e lacrações e sofrer – com a alma nobre -pelas fake news, terraplanices e cínicos vitupêndios ou combatendo-os dar-lhes fim?

Sofrer; sorrir. Só isso. E com o riso – dizem – extinguir do coração as mil angústias a que a carne é sujeita.

Venenos afetivos; ervas daninhas plantadas nos afetos pela mente encharcada de absurdos vistos e ouvidos entre motociatas e bravatas defronte o curral das estultices.

Eis uma sensação ardentemente desejada. Sorrir, rir, gargalhar. Não como involuntária tensão das peles, tesas de enervamentos; mas num extravasar de alegria; pura; plena.

Como nas brincadeiras de crianças, cuja inocência enche de cores e encantamentos as brutalidades da vida adulta.

Mas como fazê-lo, sem o olhar de uma criança ou a mente abobalhada de um bovídeo?

Rir por rir? Se para fugir ou alienar-se, não seria mais que isso. Fuga e alienação. Inúteis como ministros tresloucados. Fugazes como bravatas de fim de semana.

Nada disso desfaz o inferno de nossa desventura.

Mas que fazer, então, para suportar o insuportável?

E aí está o problema! Suportar!

É por acharem necessário suportar que uns toleram. Ou escrevem cartas de repúdio com palavras difíceis em frases bonitas.

Quando vindas de quem pode fazer tempestades, palavras duras nada mais são que brisas à face dos injustos.

Outros, mais afeitos às ações que às palavras, esperam o momento de agir do modo que podem.

Temerosos de que suas ações sejam mal afamadas e transformem seus atos em espalhafatos aos olhos do vulgo.

Mas sem entregar-se ao riso nervoso, aos protestos ingênuos ou ao falatório engenhoso das redes, como suportar a desventura de uma nação adoentada em sua humanidade?

Sem as pequenas fugas e tímidas ações, quem suportaria as centenas de mortes evitáveis e o achincalhe da dor alheia?

Quem suportaria as assassinas mentiras públicas e as ocultações das verdades privadas?

Quem suportaria os fardos de uma vida servil, mal paga e indigna?

Quem suportaria a fome ou mesmo saber da fome de quem briga por ossos para sustentar seus corpos? Restos que os que os podem comer carne têm nojo de dar a seus cães.

Quem suportaria a pasmaceira de gente engravatada e bem paga que finge ser brincadeira a odiosa destruição de uma nação?

Como suportar, senão pelo riso; pela ironia; pela beleza que nasce da dor -como o Guernica, de Picasso!

Como suportar a desumanidade senão pela exacerbação do humano em nós? Com o riso, o choro, o grito. Mas ridos, chorados e gritados com todas as entranhas do corpo e caraminholas da mente.

Para que nosso corpo não pereça de angústias e nossa mente não se descaraminhole em indiferenças justificadas com raciocínios torpes.

Ou agir. Agora! Com emoção, mas também com razão.

Daquela que transforma a raiva em força para avançar sem raiva.

Mas agir! Sem que a reflexão em excesso nos transforme em omissos aliados da destruição.

Atenta à armadilha da mente frágil que transforma em pálido pensamento de hoje o ímpeto enfurecido de ontem.

(Vê a Democracia chorando)

Mas, devagar, agora!

A bela Democracia!

(Para a Democracia) Ninfa! Em tuas lágrimas sejam lavados meus pecados.

***
Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.

Clique aqui para ler outras crônicas do autor.