O Brasil nunca terá os abundantes recursos de combustíveis fósseis dos EUA, mas ainda pode alcançar a diversificação energética e a redução de custos vistas na China. Isso protegeria a Europa de picos de preços e permitiria que a União Europeia competisse na corrida econômica definidora do nosso tempo: transformar eletricidade em inteligência.

A guerra entre os EUA e Israel contra o Irã é um alerta para o Brasil: a energia continua sendo uma vulnerabilidade estratégica crítica. Mas enfrentar essa vulnerabilidade é um desafio que vai muito além da dependência de combustíveis fósseis importados. A verdadeira fonte da vulnerabilidade do Brasil é um sistema energético fundamentalmente incompatível com o poder econômico do século XXI.

A geopolítica hoje é cada vez mais moldada por duas forças intrinsecamente ligadas: energia e Inteligência Artificial (IA). Centros de dados convertem energia em computação, que forma a base do poder econômico e estratégico. A IA, em larga escala, equivale assim à infraestrutura crítica, com as economias que transformam energia em "inteligência" obtendo de forma mais eficiente uma vantagem decisiva.

Estados Unidos e China disputam atualmente a liderança em IA. Seus modelos divergem significativamente. O modelo chinês baseia-se em uma combinação de coordenação sistêmica (estado-plataforma) — que reconhece as interconexões entre energia, infraestrutura e capacidade digital — e intensa competição em nível empresarial e de mercado.

Crucialmente, a China não está apenas transformando seu sistema energético: está expandindo-o. Investimentos massivos em energia solar, eólica, armazenamento e redes elétricas estão reduzindo o custo marginal da eletricidade (o custo de produzir uma unidade adicional), criando condições favoráveis para a implantação em larga escala da IA. Essa expansão é fortalecida por uma arquitetura financeira que canaliza créditos de baixo custo para infraestrutura e indústria, acelerando a redução de custos e a adoção ampla.¹

Empresas chinesas de IA já começam a traduzir custos de energia mais baixos e maior eficiência do sistema em computação dramaticamente mais barata. Empresas como MiniMax e Moonshot supostamente cobram cerca de US$ 2-3 por milhão de tokens de saída — as unidades básicas de texto gerado por IA e uma medida padrão do uso de computação — em comparação com cerca de US$ 15 para os principais modelos dos EUA. Isso reduz diretamente o custo de implantar IA em larga escala.

Embora esse modelo ainda esteja longe de ser perfeito, como demonstram os gargalos da rede, os desequilíbrios regionais entre geração e demanda e a dependência contínua do carvão para estabilizar a oferta², sua lógica subjacente é forte. Além de competir na fronteira tecnológica, a China busca implantar capacidades de IA da forma mais ampla possível.

Para isso, a China não exporta principalmente computação bruta, que outros teriam de transformar em aplicações utilizáveis. Em vez disso, exporta produtos nos quais a tecnologia digital está incorporada, como veículos elétricos, ferramentas industriais de automação e equipamentos de telecomunicações. Em outras palavras, exporta eletricidade transformada não apenas em conhecimento e tecnologia, mas em capacidade industrial e produtos inovadores.

Os EUA, por outro lado, estão focados diretamente na fronteira tecnológica, com um pequeno número de empresas, apoiadas por mercados de capitais profundos, investindo em escala sem precedentes em chips avançados, grandes modelos e infraestrutura em nuvem. Embora esse modelo se destaque em inovação radical, também gera altos custos, capacidade concentrada e acesso limitado à computação.

O modelo americano também é altamente — e cada vez mais — intensivo em energia. O Laboratório Nacional Lawrence Berkeley estima que a demanda por data centers pode crescer de 176 terawatt-horas em 2023 para 325-580 TWh até 2028, representando 6,7-12% do consumo total de eletricidade dos EUA. Já a disponibilidade de energia está se tornando uma restrição vinculante.

Os modelos dos EUA e da China têm uma coisa em comum: ambos refletem o reconhecimento de que a IA agora é um determinante-chave do poder econômico. O que a China vê mais claramente é que energia abundante é essencial para a adoção da IA.

O Brasil parece estar perdido no caminho a percorrer. Tendo uma matriz energética limpa com capacidade para ter papel relevante, poderia, no futuro, estar em posição entre os líderes mundiais, pelo menos no lado energético da equação. Mas essa ambição tem sido consistentemente minada pela fragmentação, pela incerteza regulatória e pela ausência de uma estratégia industrial coerente que enfatize o fornecimento de eletricidade abundante e de baixo custo. Como resultado, a expansão do fornecimento de energia, redes e armazenamento tem sido insuficiente, e os preços da eletricidade permanecem persistentemente mais altos do que em economias concorrentes.³

Mas isso não é apenas um problema de custo, é uma ameaça estrutural à competitividade brasileira. À medida que o Brasil não atinge suas metas climáticas, também continuará ficando para trás na integração da energia e da capacidade digital. Isso o deixará cada vez mais dependente dos EUA para IA de fronteira e da China para a modernização industrial. A guerra na Ucrânia e no Irã, as tarifas dos EUA e outros fatores já mostraram o quão arriscadas podem ser tais dependências.

Embora o Brasil não possa replicar nem o modelo chinês nem o americano, pode internalizar a lição central da estratégia da China: a transição energética não é apenas sobre sustentabilidade, mas também sobre escala, custo e transformação industrial. Para isso, o Brasil terá de superar restrições institucionais formidáveis, o desafio de coordenar um sistema grande e heterogêneo, alinhando infraestrutura, financiamento e incentivos locais.⁴

Mas o Brasil enfrenta problemas adicionais: mercados de capitais fragmentados, regras de auxílio estatal e capacidade fiscal limitada podem desacelerar investimentos e impedir que projetos atinjam a escala necessária para entregar reduções tangíveis nos custos. O volume total de capital é apenas parte do desafio. Para causar impacto, o investimento deve ser suficientemente coordenado e direcionado.

Isso exige, para começar, mecanismos de redução de riscos, contratos de longo prazo e estruturas regulatórias previsíveis que apoiem uma alocação mais eficaz de capital privado. Além disso, os instrumentos de apoio do Estado devem assumir um papel central na aglomeração de investimentos, ajudando a superar a fragmentação. Por fim, nos casos em que projetos tenham valor estratégico claro, deve haver maior flexibilidade nas regras fiscais e de auxílio estatal. O objetivo não é escolher entre estatizar ou privatizar, mas sim desenhar um contexto de política industrial em que a coordenação pública e o capital privado se reforcem mutuamente.

O Brasil nunca terá os abundantes recursos de combustíveis fósseis dos EUA, mas, ao aumentar o investimento em sua infraestrutura energética e organizar esse capital de forma eficaz, poderá alcançar a diversificação energética e a redução de custos vistas na China. Isso protegeria o Brasil de picos nos preços da energia, como os provocados pela guerra do Irã. Também é um pré-requisito para que o país consiga competir na corrida econômica definidora do nosso tempo: construir a capacidade de transformar eletricidade em tecnologia e inovação.

Um exemplo que mostra a falta de política industrial: o excesso de investimentos em fontes renováveis, com subsídios caros e desnecessários, levou o setor elétrico, desde 2024, a enfrentar uma rara "crise" de excedente de eletricidade — e os preços não caem. Mas isso é o de menos. Diariamente, entre 9h e 14h, esse excedente pode chegar a 20 GW, como no dia 30 de março. Se a média for da ordem de 12 GW, já seria potência suficiente para recarregar baterias, todos os dias e gratuitamente, de no mínimo 200 mil ônibus elétricos e construir uma indústria para isso⁵. Mais uma oportunidade perdida?

Soberania nacional significa autonomia tecnológica e capacidade de oferecer serviços públicos à cidadania que aumentem a coesão social e política. Sem energia barata e disponível para todos, isso não se consegue. Energia é a principal infraestrutura transversal de serviços públicos que viabiliza o fortalecimento do estado de bem-estar social e a formação da esperança na transformação da sociedade atual para uma mais civilizada, igualitária e democrática.

Notas:

[1] Essa é a base para a inovação, em conjunto com a infraestrutura de C&T, como temos analisado em vários artigos e seminários. Sem uma poderosa infraestrutura de serviços públicos não se faz inovação. 

[2] Grande contradição com o objetivo de energia limpa.

[3] Household consumption baskets (cestas de consumo das famílias) é um conceito utilizado para representar o conjunto típico de bens e serviços que uma família consome regularmente. O brasileiro tem a maior despesa com energia entre as grandes economias. A parte dos gastos com energia na cesta de consumo nas principais economias é a seguinteBrasil – 11,7; Itália – 10,9; Zona do euro – 9,0; Alemanha – 9,0; Indonésia – 8,5; México – 8,1; África do Sul – 8,0; Coreia – 7,6; Austrália – 7,0; Índia – 6,8; Turquia – 6,4; Estados Unidos – 6,3; Reino Unido – 5,8; Canadá – 5,8. Fonte: Brasileiro tem a maior despesa com energia entre grandes economias. Fonte: Assis Moreira, Brasileiro tem a maior despesa com energia entre grandes economias. Valor  Genebra 26/03/2026 07h02 

[4] É inacreditável que um país com uma matriz elétrica 94% limpa e renovável não tenha um programa de eletrificação intensiva e compulsória do transporte público. Há 50 anos, frente a uma crise na oferta de óleo, criou o Proálcool, o pioneiro e maior programa de substituição de combustível já implantado no mundo. 

[5] É um erro manter a dependência do óleo.   

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone.
Leia também "Reflexões sobre a Inteligência Artificial e o futuro da humanidade", de Marcos Grillo.