No final de abril desse ano ocorreram eleições no Canadá. Até um mês antes das eleições, os conservadores eram franco favoritos. O Partido Liberal, do primeiro-ministro Trudeau, enfrentava fortes dificuldades com sua impopularidade pelo aumento dos preços, por questões domésticas, como moradia e aumento da criminalidade, pela resistência da população em relação a acelerar a transição energética e restringir o uso de combustíveis fósseis, e pela briga interna no partido, especialmente a partir de dezembro do ano passado, com a saída da ministra de Finanças, Chrystia Freeland. Trudeau não teve forças para concorrer à reeleição, e a vitória dos conservadores parecia favas contadas. Trump, bastante próximo ao Partido Conservador canadense, resolveu, entretanto, e sem querer, dar um gás ao Partido Liberal, chefiado na campanha pelo atual primeiro-ministro Mark Carney, ex-presidente do Banco Central do Canadá.
Primeiro, andou dando declarações de que o Canadá poderia ser o quinquagésimo primeiro estado dos EUA. A partir de março, acenou com o tarifaço, na sua primeira versão (reforçado em julho). As falas e ações de Trump foram fatais para os conservadores canadenses. O Partido Liberal assumiu a luta pela soberania do país e contra as tarifas, enquanto os conservadores não conseguiram se livrar da proximidade tóxica com Trump. Resultado: uma surpreendente virada eleitoral dos liberais canadenses, que conseguiram emplacar um inesperado novo governo após as eleições, sob o lema de campanha “Canadá forte”.
Algumas semanas depois, no início de maio, aconteceu de novo, agora na Austrália. Os conservadores da aliança eleitoral Liberal-Nacional eram franco favoritos desde o início do ano contra os trabalhistas do primeiro-ministro Anthony Albanese. A proximidade dos conservadores australianos com o discurso de Trump (bastante rejeitado na Austrália, onde a crise ambiental mostra sua cara feia com gigantescos incêndios florestais e a possibilidade de desaparecimento de pequenos “países insulares” no Oceano Pacífico, em volta do país) e, de novo, o tarifaço de Trump, mudaram rapidamente o quadro. Como resultado, os trabalhistas não apenas aumentaram sua maioria no Parlamento, como levaram Albanese a ser o primeiro líder reeleito em mais de 20 anos na Austrália.
Trump e suas ações e propaganda do programa MAGA (Make America Great Again) mostram uma gigantesca capacidade tóxica em todo mundo, e contaminam os espaços políticos nacionais. E o Brasil não escapa disso. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, andou posando com o famoso boné vermelho do presidente dos EUA, com a inscrição “Make America Great Again”. Agora, depois do tarifaço, tenta desesperadamente esconder essa foto que roda as redes, ou fazer um discurso para descarta-la, como se tivesse sido uma coisa prosaica posar com um símbolo tão identificado ideologicamente. Para Trump, fazer a América grande é fazer os demais pequenos. E “os demais” incluem o Brasil, no que Tarcísio não pensou quando fez a foto.
As últimas pesquisas eleitorais anunciadas pela Quaest mostraram os enormes efeitos do tarifaço no Brasil e os realinhamentos eleitorais em torno dele. Os setores políticos que mostraram simpatia aqui dentro pelo presidente estadunidense foram fortemente atingidos. E, no caso do Brasil, não dá nem para se descolar do tal tarifaço, uma vez que seu anúncio já anuncia que no nosso caso, não se trata apenas de uma questão comercial, já que a própria carta do presidente estadunidense colocou como uma das condições para negociar as tarifas o fim dos processos judiciais contra o ex-presidente Bolsonaro (a carta fala explicitamente que o processo contra Bolsonaro não deveria estar ocorrendo e pede que termine imediatamente – clique para ver em português, por exemplo.
O bolsonarismo não apenas foi atingido e escanteado eleitoralmente, de acordo com as pesquisas. Os acontecimentos recentes mostraram duas coisas: de um lado, parece que Bolsonaro e os mais próximos, em especial o núcleo familiar, querem manter a candidatura a todo custo, não abrindo espaço para algum aliado próximo. Tentam tomar as medidas, mesmo que extremas, para viabilizar uma candidatura do ex-presidente, ou alguém do núcleo familiar. De outro lado, Bolsonaro colocou os aliados próximos em uma sinuca, pois eles dependem do voto bolsonarista para ter viabilidade eleitoral, mas esse voto se estreita ao vir cada vez mais acompanhado por rejeição, advinda da marca de “golpista”, de defensor da ruptura institucional, da proximidade com Trump e os efeitos nocivos do tarifaço sobre a economia do Brasil.
Além disso, o discurso de defesa da economia, das empresas e do emprego nacional, fortaleceu o governo e, especialmente, a candidatura de Lula em 2026. De certa forma, as pesquisas mostram o fechamento da tal “boca de jacaré” que ia se abrindo com o tempo, entre os que rejeitavam e os que aprovavam o governo Lula. A ver se a partir daqui as tendências se invertem. Em todo caso, a vantagem de Lula contra qualquer candidato da oposição se amplia nas pesquisas para o ano que vem.
Ainda falta tempo para as eleições no Brasil. Mas Trump terá conseguido, mais uma vez?
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Ilustração: Mihai Cauli
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