Trump desafia a razão e lança guerras que reforçam a imagem de um imperador disposto a decidir os rumos do planeta.

Há poucos meses, Trump tomou o bridão nos dentes e chantageou o mundo com a imposição de tarifas sobre grande parte dos países, sem nenhuma autorização do Congresso dos EUA. Demorou bastante, mas acabou vindo uma retaliação não esperada da Suprema Corte, onde ele tem maioria dos votos. A política terá de ser revista pelo Congresso, mas o executivo dispõe de meios infraconstitucionais, através de Decretos Executivos, para penalizar os países com outras restrições às importações norte-americanas.
Pouco tempo depois, Trump sequestrou o presidente da Venezuela e sua esposa, levando-os como prisioneiros para serem julgados em Nova York por suposta participação no tráfico de drogas para os EUA. Fez isso também sem autorização do Congresso dos EUA. O mundo ficou atônito. Mas, pasmem, muitos países apoiaram a medida, que passou ao largo das instituições internacionais idealizadas no pós-guerra para evitar invasões arbitrárias de países, com claro desrespeito à soberania das nações. Surgiu, então, na Venezuela, uma situação esdrúxula e inusitada onde os chavistas continuaram no poder submetendo-se, contudo, às ordens dos seus algozes ianques no tocante ao petróleo e outros recursos naturais. A Venezuela passará a ser um protetorado norte-americano? Será isso possível? A conferir.
Há poucos dias, Trump, finalmente, cedeu às injunções de Israel e, em conjunto com eles, atacaram o Irã, promovendo o assassinato do seu líder supremo, num país onde vivem 88 milhões de pessoas. Inúmeros líderes civis e militares iranianos foram mortos e várias localidades e instalações foram destruídas. Outra vez, esse escabroso feito não contou com autorização do Congresso americano nem tampouco com o aval da ONU. Os governantes dos EUA dissimulam tal agressão como um ato de defesa, e não de guerra, para evitar o avanço da tecnologia nuclear em solo iraniano. Trata-se, de fato, de clara hipocrisia, já que o Irã sempre esteve disposto a negociar a não proliferação de armas nucleares. E foram os próprios EUA que decidiram romper os acordos alcançados pelo presidente Obama com o povo persa.
A covarde agressão contra o Irã reverberou na mídia internacional, sofrendo o rechaço de inúmeros governos. É provável, porém, que o assunto logo caia na vala comum dos crimes de guerra que são esquecidos e terminam não sofrendo punições internacionais. O objetivo de Trump parece ser a mudança de regime do povo persa. Como se isso fosse fácil, normal e plenamente adequado na geopolítica mundial, agora sob o comando de um novo pretenso xerife do mundo. Isso é ignorar ingenuamente a complexidade política, religiosa e militar do Irã, a milenar cultura persa, de 2.700 anos, a influência do Irã na região e suas alianças com a Rússia, China, bem como sua importância na rota da seda e nos BRICS. É impressionante a omissão por parte dos países mais importantes do planeta. Muito poucos países da União Europeia se posicionaram contrariamente à agressão. E isso para não falar das organizações internacionais, dentre elas a ONU, que perdeu completamente sua legitimidade. Será que Trump conquistou no grito a prerrogativa de decidir os desígnios do mundo? A conferir.
A operação de 28 de fevereiro de 2026, anunciada por Trump em vídeo extraoficial de seis minutos, divulgado em plataforma de mídia, batizada como uma Operação Militar Épica, atingiu centenas de alvos, da guarda revolucionária, a unidades de defesa aérea, da marinha, as instalações nucleares de Fordow, Natanz e Esfahan, dentre outros alvos. A operação foi lançada sem nenhuma aliança, exceto com Netanyahu, que está na corda bamba em Israel. No vídeo, Trump insta o povo iraniano a se render e promover uma mudança de regime. Isso é coisa muito séria, pois mistura um ataque militar ilegal com política internacional. O Irã, prontamente, lançou contra ataques contra 27 bases militares e portos utilizados pelos norte-americanos na região, além de inúmeros alvos em Israel.
O mercado do petróleo foi imediatamente afetado. O preço do barril de petróleo já atingiu os USD 80. O estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo comercializado no mundo, já está fechado. O mesmo pode acontecer com o canal de Suez.
Bill Clinton, em sua manifestação de repúdio ao ataque ao Irã, traçou cenários nada otimistas para o desfecho dessa situação. O primeiro seria tudo terminar como Trump deseja, com a mudança de regime e a desistência do desenvolvimento nuclear. Ainda assim, os EUA teriam de se envolver profundamente com o futuro do Irã, o que não parece ser o desejo dos norte-americanos após as experiências desastrosas e o esbanjamento de recursos no Afeganistão e Iraque. O segundo, mais provável, seria a regionalização do conflito, com a continuidade do apoio do Irã ao Hamas e ao Hesbollah. E o terceiro, o desencadeamento de uma guerra civil no Irã, desestabilizando a região e causando uma emigração em massa do Irã para outros países.
Já o Coronel Douglas Macgregor, ex-sênior conselheiro do Ministério de Defesa dos EUA, considera que a guerra já foi regionalizada. Ressalta a eficácia dos drones iranianos que estão debilitando as bases norte-americanas e as instalações petroleiras. Segundo ele, o cenário militar é muito problemático por força dos avanços tecnológicos das armas militares iranianas, especialmente os mísseis hipersônicos, e da incapacidade dos EUA de produzirem mísseis no ritmo necessário para a guerra.
Ele comenta que táticas vencem batalhas, mas que são as estratégias que vencem as guerras. Os EUA, muito provavelmente serão convidados a se retirarem de muitas de suas bases no Oriente Médio. Os EUA entraram nesse imbróglio sem uma estratégia. É impensável imaginar destruir uma civilização como a do Irã. Nas palavras dele, os EUA conseguiram mobilizar o povo iraniano contra os norte-americanos. E não se deve esquecer que a Turquia, China e a Rússia desejam a sobrevivência do Irã. Inshalah!
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Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone.
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