Os Estados Unidos intensificaram o cerco à Ilha

Em uma escalada dramática das tensões no Caribe, Donald Trump anunciou neste domingo (11) que Cuba não receberá mais petróleo nem dinheiro da Venezuela, pressionando o governo da Ilha a fechar um acordo com Washington "antes que seja tarde demais". A declaração ocorre no rastro da recente intervenção dos EUA na Venezuela – aliada histórica de Havana – e marca uma das fases mais duras da política externa americana contra Cuba em décadas.

Fim dos fluxos venezuelanos para Cuba

Trump publicou em sua rede social que "não haverá mais petróleo nem dinheiro indo para Cuba – ZERO!", em referência ao fim das remessas da Venezuela, que por anos sustentaram a economia cubana.

Cuba tem uma dependência estrutural de petróleo importado. Produz apenas cerca de 40% do petróleo que consome. O restante sempre dependeu de acordos políticos – primeiro com a URSS, depois com a Venezuela chavista, em condições preferenciais, compensadas por serviços médicos, inteligência e cooperação política.

Entre 2015 e 2023, a Venezuela forneceu de 25 mil e 40 mil barris/dia a Cuba, volume que cobriu aproximadamente metade do déficit energético da Ilha. Havana tem sofrido apagões energéticos frequentes, escassez de combustíveis – que praticamente paralisou os ônibus vendidos pela China –, alimentos e medicamentos, além de um êxodo crescente de cidadãos em busca de trabalho no exterior, como consequência do cerco ilegal à Ilha.

Diplomatas apontam que nenhum carregamento de petróleo partiu dos portos venezuelanos para Cuba desde o sequestro do presidente Nicolás Maduro, no início de janeiro, o que revolveu a geopolítica regional. Com a interrupção abrupta desse fluxo após a ofensiva americana contra Caracas, Cuba perdeu até 50% do combustível usado para geração elétrica. E apagões diários voltaram a ultrapassar 12 horas em várias províncias.

Efeito dominó na economia

Segundo a agência Reuters, a economia cubana, que já havia encolhido mais de 10% entre 2020 e 2023, entrou em 2025 em estado de estagnação crítica. O corte do petróleo venezuelano tende a provocar retração adicional do PIB em 2% a 4% ao ano, aumento da inflação alimentar e nova onda migratória, sobretudo rumo aos EUA e ao México.

O turismo – principal fonte de divisas – também é duramente atingido. Hotéis operam com geradores, voos regionais são cancelados e cadeias internacionais pressionam por garantias energéticas.

Reação de Havana: soberania

O presidente cubano Miguel Díaz-Canel respondeu às ameaças americanas, rejeitando a narrativa de Trump e reafirmando que os EUA não têm autoridade moral para forçar um acordo com Cuba. Em postagens nas redes sociais, Díaz-Canel declarou que Cuba é uma "nação livre, independente e soberana" e que ninguém dita o que o país faz.

O chanceler cubano Bruno Rodríguez também ressaltou que Cuba tem o direito de importar combustível de quem quiser, negando que o país tenha recebido compensações financeiras pelo apoio prestado à Venezuela no passado.

Cuba e a Venezuela possuem acordo de envio de médicos e outros profissionais de saúde, à semelhança do programa Mais Médicos, com o Brasil. Havana também tem fornecido agentes de segurança à Presidência venezuelana. Não é por outra razão que Trump apregoou que a maior parte dos mortos durante o ataque de suas Forças à moradia de Maduro eram guarda-costas cubanos.

No próprio domingo (11), o capítulo cubano da Red de Intelectuales y Artistas en Defensa de la Humanidad emitiu um apelo em seu âmbito: "Diante do atual rumo genocida e agressivo do governo Trump, conclamamos intelectuais, artistas e movimentos sociais a unirem forças e se organizarem em defesa da soberania de Cuba".

Contexto regional e geopolítico

A pressão dos EUA sobre Cuba intensificou-se a partir de uma série de ações contra a Venezuela, incluindo a apreensão de petroleiros suspeitos de transportar óleo venezuelano, parte de uma estratégia americana de controlar a produção e distribuição de petróleo venezuelano.

Em uma operação no início de janeiro, Washington interceptou navios acusados de violar seu embargo – inclusive um que navegava sob bandeira russa –, sinalizando a intenção de dominar o setor energético venezuelano e roubar até 50 milhões de barris de petróleo para os EUA.

Trump também tem justificado suas medidas com alegações de que Cuba exerce influência desproporcional sobre a política venezuelana. Além disso, os EUA estão negociando um acordo de US$ 2 bilhões com o governo interino venezuelano para o fornecimento de petróleo, um arranjo que pode marginalizar ainda mais Havana como cliente energético.

Economia cubana em risco

A dependência histórica de Cuba em petróleo estrangeiro – associada a décadas de embargo econômico americano – deixou a economia da Ilha vulnerável a choques externos. Analistas indicam que as sanções e a perda do fluxo venezuelano agravam a crise econômica, com apagões prolongados e aumento da inflação, que já abala setores como agricultura e turismo.

Diante disso, o México tem surgido como fornecedor alternativo de petróleo, embora em volumes insuficientes para compensar o colapso dos envios venezuelanos.

Perspectivas e riscos

A retórica de Trump reflete uma postura mais agressiva dos EUA no Hemisfério Ocidental, buscando estrangular Cuba e reconfigurar alianças regionais após anos de governos democratas mais conciliadores no continente.

A pressão sobre Havana para um "acordo" antes que seja "tarde demais" aponta para uma pressão política e econômica crescente, que busca intensificar a instabilidade interna em Cuba e derrubar o regime comunista, fundado em 1959.

Relatórios de analistas estadunidenses, porém, indicam baixa probabilidade de colapso imediato do regime, apesar da gravidade da crise.

Violação da soberania

Em 2025, o Brasil reafirmou sua posição contrária ao embargo econômico e à inclusão de Cuba em listas de 'patrocinadores do terrorismo' impostas unilateralmente pelos Estados Unidos.

Em setembro do ano passado, antes, portanto, do ataque estadunidense à Venezuela, em reunião da Conferência de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), o Brasil e outros 21 países expressaram "profunda preocupação" com movimentações militares e estratégicas de Washington no Caribe, interpretadas como interferência extra-regional e potencial ameaça à estabilidade regional, sobretudo as pressões que afetam a soberania de países vizinhos – Venezuela e, por extensão, Cuba.

No Conselho de Segurança da ONU, o Brasil também condenou uma ação de força dos EUA na Venezuela, que tem efeitos diretos sobre Cuba, classificando a operação, junto com outras nações como China, Rússia e Colômbia, como uma violação da soberania e do direito internacional.

O Brasil exporta para Cuba, em volumes muito modestos, basicamente alimentos – carne e seus derivados, peixes e frutos do mar, cereais, gorduras e óleos animais e vegetais, laticínios, ovos, mel. Petróleo não aparece nessa relação.

A balança comercial é francamente desfavorável a Cuba. Conforme a ONU Comtrade, em 2024, o Brasil exportou para Cuba US$ 277 milhões e importou US$ 3,02 milhões.

Para a emergência energética e alimentar do povo cubano, seus aliados precisam fazer muito mais. E urgentemente.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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