Vastas emoções se expressam no entusiasmo a recuperação de uma totalidade perdida, na integração de cada um num todo, pois, ao nascer, a gente é arrancado da totalidade. Esse sentimento de vastas emoções agora nasceu como resposta à frustração com o resultado das eleições, o que levou a UNE – União Nacional dos Estudantes – a reagir com um manifesto para os estudantes irem às ruas. As manifestações não foram espontâneas, é preciso ler o manifesto da UNE lançado no início de outubro, conclamando os universitários e o povo brasileiro para permanecerem nas ruas até o final do segundo turno.

Chico Buarque de Holanda foi a uma manifestação no Rio para agradecer aos estudantes e à UNE por terem iniciado a reação ao dia quatro de outubro. Quem sabe, no futuro, se escreverá sobre a geração 26, pois as manifestações de jovens ocorrem aqui e em vários países. Ocorrem também atos liderados por artistas em várias cidades, com destaque ao Rio de Janeiro, com centenas de milhares liderados por Caetano Veloso. O presidente Lula poderia falar mais nos debates e entrevistas como os estudantes nos lideraram a todos para irmos às ruas com entusiasmo para defender a democracia com justiça social.

Vivemos vastas emoções com fraternidade e solidariedade, em que todos se integram num mesmo objetivo, tanto nas passeatas como nas concentrações. São muitos milhares que se unem na luta por um país mais justo e humano. A união pelo amor à liberdade, amor à democracia, amor à justiça, amor ao público na política são momentos de vastas emoções ao caminhar e cantar num gozo coletivo.

Os humoristas estão presentes, como a coragem de Paulo Vieira, proibido de ir abraçar o presidente Lula antes da entrevista na Globo, e que depois criticou a proibição. Há apoio total dos humoristas, artistas, estudantes, jovens e joviais que são os mais velhos e até os velhinhos que fazem o L e se mobilizam pela democracia contra o extremismo.

Viver pode gerar vastas emoções quando se é capaz do espanto, viver na aceleração criativa, vibrar com o amor e assim mudar a vida. Mudar a vida, mudar o mundo, o que pode ser mudado requer imaginação, pois o povo brasileiro volta a sonhar com um país melhor na ocupação que faz das ruas e praças do País.

Agora foi aprovado o 5X2 no trabalho, apoiado pela população em meio à maior mobilização popular da História brasileira que segue sem parar. Essa geração 26 surpreende o país e o mundo, e tudo que não ocorreu no primeiro turno está acontecendo agora.

Um outro exemplo de jovialidade são os grupos como o ESPERANÇAR, verbo criado por Paulo Freire. É um grupo de aposentados aqui em Porto Alegre (mas não só), com centenas de integrantes de sessenta, setenta e até oitenta anos, dividido em três grupos de trabalho: os que ficam na sede distribuindo propagandas, recebendo novos integrantes, os que trabalham com a mídia virtual e os que vão às ruas em paradas de ônibus, terminais, hospitais, para conversar com as pessoas. São trabalhos difíceis, várias horas por dia, decorrentes do entusiasmo dos integrantes, que merecem aplausos. Fui ao comitê para conhecer e li material de propaganda, como um folheto que de um lado, num fundo verde, estão escritas várias frases como: Escala de trabalho 5X2, Programas para evitar a fome, Bolsa Família atualizado, Preservação da Natureza e da Amazônia, e muito mais. Do outro lado do folheto, o fundo é preto: Se votar no outro vai concordar com: salário mínimo congelado; a volta do Brasil ao mapa da fome e as filas do osso; entrega das riquezas ao Trump e EUA; reativação do escritório do ódio e fake news; abandono da cultura e das universidades públicas e da saúde pública, entre outros.

Convém sentir vastas emoções e sonhar com a vitória do brasileiro mais famoso no mundo – mas é óbvio que erra e tem defeitos, é um ser humano, e o ódio a ele tem a ver com sua origem, seu amor ao povo brasileiro e à natureza, pois já passou para a História como nosso maior líder político. É atacado pela mesma extrema direita que já apoiou a ditadura militar e agora trabalha para esvaziar a democracia através do poder econômico e das grandes mídias.

Quem defende a educação pública, a universidade pública, a saúde pública e, logo, o povo brasileiro com sua natureza, está fazendo o L não só de Lula, mas de LIBERDADE. Teremos dias e noites de mobilização, pois está em jogo o amanhã, e a coragem não faltará nas redes e nas ruas.

Entretanto, independentemente do resultado das eleições, convém pensar sobre a política, pois somos seres políticos na medida em que vivemos em sociedade, e a política não se resume a partidos políticos. As instituições científicas, de humanismo, artísticas e comunitárias fazem política num sentido amplo. Logo, convém saber quem são os líderes da extrema direita, só extrema, pois talvez seja a única no mundo hoje e que cresceu seu poder nos últimos anos.

Em seu texto “Televisão”, Jacques Lacan define o canalha (“canaille” em francês) como uma categoria clínica e ética, pela forma como ele lida com a verdade. Diz: “É preciso recusar a análise aos canalhas, pois eles se tornam bobos/tolos e pode ser uma melhora, mas sem esperança”. O canalha sabe o que é o Grande Outro: as leis, as instituições, mas manipula e se coloca no lugar do Outro. Sua ambição é dominar o desejo alheio em proveito próprio, pois o canalha se aproveita de uma tendência humana – a servidão voluntária, logo, masoquista, de sofrimento, mas de amparo, mesmo que ilusório. Aí entram algumas das tendências evangélicas e outras – não esquecer – para dar uma aparência religiosa, na qual a violência e a crueldade são legitimadas.

Por fim: uma amiga foi fazer trabalho político na rodoviária de Porto Alegre e passou quase cinco horas indo de fila em fila. Escutá-la sobre as conversas que teve daria um ensaio, mas num momento ela encontrou um casal da extrema direita e ela sorriu. O homem perguntou por que estava sorrindo diante de saber que eles eram o oposto dela, a amiga disse: “Democracia é Alegria”. Escreverei na semana vindoura sobre: alegria da democracia. Vivi as ditaduras do Brasil e da Argentina. Foram anos terríveis, cruéis. Portanto, precisamos cuidar da democracia sempre frágil, pois ela é alegre. Somos alegres, sonhamos o amanhã. Somos poéticos e capazes de nos entusiasmarmos, como ocorreu nas passeatas.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone

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