A vergonha dos brasileiros

Ilustração: Mihai Cauli

No recato da casa, Luís se achava livre dos perigos de um mundo enlouquecido. Trancou portas e janelas. Verificou e tampou frestas que poderiam servir de entrada para vírus ou a olhares desqueridos. Ingênuo, esqueceu-se da TV e da internet. Não são buracos, mas é como se fossem. Quando percebeu a falha, já era tarde. Estava adoecido de vergonha.

Chegou aos poucos. De imagem em imagem. Notícia em notícia. Descalabro em descalabro. Primeiro, era apenas o ridículo daquelas patetices e ignorâncias risíveis. Show diário do quanto a ignorância pode nos apequenar como espécie e, mais ainda, como sociedade.

Ao risível, sucedeu-se o grotesco. Na seriedade daquela gente estranha que levava a sério o incrível. Assistiu, incrédulo, à defesa de terraplanices e teorias conspiratórias que juntavam, num só conto, comunistas, gays, nazistas, o Papa, a Microsoft, a imprensa, a Europa e ETs. Tudo explicado com a convicção que só é capaz de ter quem não faz ideia do que fala. Despudor de coisas implausíveis apresentadas como obviedades. Repetidas e espalhadas não se sabe se por má fé, má índole, má educação ou só falta de vergonha na cara mesmo.

Tudo aplaudido. Tudo curtido. Tudo aceito e corroborado, fosse o absurdo que fosse. Pensou no risível e no ridículo. Em como a estética nos coloca no lugar. Como um olhar disciplinador do outro a nos impor não apenas os limites entre o belo e o feio, mas também entre o decente e o indecente, o bem e o mal.

Luís tem medo excessivo do ridículo. Paralisante até. Mas é o medo do ridículo que faz dele um sujeito social e sociável. Não é pela possibilidade da multa que respeita a vaga de idoso no estacionamento, mas pela vergonha da esperteza mesquinha. A multa, paga-se, mas a vergonha não se esquece.

Quem não teme o ridículo é capaz de qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. É libertador. Mas também perigoso. Principalmente, quando os espíritos pequenos, ressentidos ou perversos perdem as vergonhas. O ridículo é o limite estético entre civilização e a barbárie.

A única forma justa de se libertar da vergonha do ridículo é pela arte, porque ela respeita a estética. Um artista é capaz de pecar contra tudo, exceto contra a beleza. Já os sem-vergonha pecam sem limites. Corrompem de feiura até o que encanta e comove.

O país virou uma terra sem-vergonha. Fala-se de liberdade, mas já é livre da lei e da decência. Da coerência e da razão. Do conhecimento e do respeito. Livre da humanidade e da dignidade.

Livres do que nos torna sociáveis, viramos escravos de vontades, voluntarismos e ambições de poucos. Que se impõem não a partir de entendimentos, razões e acordos, mas da força. Não é à toa que arminha é símbolo da busca por vergonhosa “liberdade”.

Luís ainda está inseguro. Mas a vergonha é mais forte. Vergonha de uma gente que não apenas deixa morrer por incompetência, mas que mata por ambição. Por medo, trancou-se em casa. Por vergonha, vai para as ruas. Sua vergonha é alheia, mas se não for para as ruas gritar suas vergonhas, será vergonhosa omissão. E Luís não aguenta mais tanta vergonha.

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