A escala da operação aérea dos russos que chega em Brasília nestes dias foi incomum. A mobilização  pareceu maior do que o esperado e pode indicar um rearranjo geopolítico mais amplo.

 

Ao todo, desde 29 de janeiro, cinco aeronaves oficiais russas já pousaram em Brasília, algumas em repetições pouco usuais, inclusive com origem no continente africano. Entre elas, um avião cargueiro, que, segundo explicações apresentadas por interlocutores russos, teria transportado veículos, equipamentos e suprimentos para a delegação que participa do encontro bilateral entre Brasil e Rússia, capitaneado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin.

O escopo da operação é considerado inusitado para os padrões do aeroporto e só encontra paralelo recente na visita de Vladimir Putin à cúpula dos BRICS de 2019, realizada antes da expedição do mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional, em 2023, no contexto da guerra entre Rússia e Ucrânia. Em visitas de outros chefes de Estado ao Brasil, como a de Xi Jinping, houve transporte de veículos oficiais, mas não uma mobilização logística dessa magnitude para toda a comitiva.

A justificativa apresentada para o cargueiro — automóveis e mantimentos para uma delegação numerosa — contrasta com o curto tempo previsto de permanência em solo brasileiro, estimado em horas, o que amplia as dúvidas sobre a real dimensão das conversas em curso.

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Embora o encontro conste oficialmente na agenda do Itamaraty, o comunicado divulgado limita-se a uma enumeração protocolar de temas de cooperação, evitando avançar sobre o contexto político mais amplo. Esse contexto, no entanto, é marcado por uma aceleração de rearranjos geopolíticos, em meio a ações unilaterais dos Estados Unidos — como a recente intervenção na Venezuela, país que abriga as maiores reservas conhecidas de petróleo do mundo — e pela pressão crescente sobre o multilateralismo.

É nesse cenário que a presença russa em Brasília, pela forma e pela escala, parece ir além do conteúdo formal anunciado.

O Itamaraty deixou para o último minuto a divulgação oficial do encontro. Muitos jornalistas em Brasília — e mesmo nas principais redações do país — sequer estavam informados de que uma reunião da alta cúpula russa com o Brasil teria lugar nesta semana na capital federal. O release oficial foi publicado apenas no dia 2 de fevereiro, menos de 48 horas antes do encontro, em um texto lacônico, que não detalhou local, agenda ou formato da reunião.

O comunicado limitou-se a apresentar uma sopa de letrinhas de temas genéricos, uma descrição burocrática da Comissão Brasil–Rússia de Alto Nível de Cooperação (CAN) e a confirmação da presença do primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin. Ao tratar o encontro como um evento meramente protocolar, o Itamaraty acabou por banalizar um movimento diplomático que ocorre em um contexto internacional longe de ser trivial.

Não se trata de tempos normais. Em meio ao recrudescimento das tensões geopolíticas, os Estados Unidos voltam a sinalizar disposição de exercer controle indireto sobre recursos estratégicos da Venezuela, ameaçam o multilateralismo e ampliam o uso de tarifas e sanções como instrumento de pressão política, penalizando países e empresas que mantenham relações comerciais com seus adversários estratégicos. Nesse cenário, a presença do chefe de governo russo em Brasília e a realização de uma reunião de alto nível entre Brasil e Rússia ganham peso que vai muito além da formalidade descrita no comunicado oficial.

Questionado pelo Terapia Política sobre a eventual presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no encontro — uma vez que a reunião contará com o primeiro-ministro russo, e não com o presidente Vladimir Putin, alvo de mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional (TPI), o que, ainda assim, não o impediu de realizar viagens recentes a países signatários do Estatuto de Roma, como a Mongólia —, o Itamaraty limitou-se a afirmar que “é possível” que o presidente participe das conversas. A chancelaria não confirmou a presença de Lula, tampouco a descartou, mantendo a ambiguidade.

Até o momento, a agenda oficial do presidente da República para os dias 4 e 5 de fevereiro ainda não foi divulgada pelo Palácio do Planalto.

Putin sem visto, mas com avião

Em algumas poucas publicações jornalísticas, chamou atenção o registro da chegada a Brasília de grandes aeronaves governamentais russas entre o fim de janeiro e o início de fevereiro. Entre elas, uma aeronave integrante da frota presidencial russa.

A informação foi corroborada pelo Terapia Política com especialistas em aviação e por meio de softwares de monitoramento de tráfego aéreo, utilizados para acompanhar a movimentação de aeronaves de Estado. Trata-se de um Ilyushin Il-96-300PU (Presidential Unit), modelo empregado pela Rússia no transporte de autoridades de alto escalão.

Vladimir Putin costuma adotar uma estratégia deliberada de dispersão de voos — frequentemente comparada a um jogo de copo — utilizando múltiplas aeronaves simultaneamente, o que dificulta a identificação de qual delas transporta o presidente russo. Ainda assim, é possível afirmar que uma dessas aeronaves presidenciais esteve no Brasil no período observado.

Além disso, registros de voo indicam que outra aeronave russa de grande porte partiu no dia 3 de fevereiro de Dakar, no Senegal, com destino declarado a Brasília, com chegada prevista para as horas seguintes.

“Flying Kremlin”

Supostamente, uma dessas aeronaves estaria transportando o primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin. Ainda assim, o porte da operação logística — tanto pelo tipo de aeronave empregado quanto pela sequência de voos registrados — chamou atenção mesmo entre observadores menos inclinados a especulações.

O ponto central está no histórico de uso do Ilyushin Il-96-300PU (Presidential Unit) identificado nos registros recentes. Não há precedentes públicos consistentes de que aeronaves desse tipo operem voos internacionais transportando outras autoridades russas que não o próprio Vladimir Putin. Trata-se de um modelo tradicionalmente reservado à agenda presidencial do Kremlin, associado a deslocamentos de máximo nível político.

Além do histórico, o próprio perfil da aeronave reforça essa leitura. O Il-96-300PU é amplamente customizado para uso presidencial, com sistemas avançados de comunicações seguras, capacidade de comando e controle em voo, proteção eletrônica e autonomia intercontinental. Não se trata apenas de um avião de transporte, mas de uma plataforma aérea de Estado, concebida para permitir que o presidente russo exerça plenamente suas funções mesmo em deslocamento.

Foi esse padrão de emprego — e não a confirmação de passageiros — que ampliou o interesse em torno dos voos recentes, sobretudo após o registro de que a mesma aeronave partiu de Dakar, no Senegal, no dia 3 de fevereiro, com destino declarado a Brasília. A escolha desse equipamento, em um contexto de silêncio oficial e de uma delegação numerosa, adicionou uma camada política a uma movimentação que, à primeira vista, poderia parecer apenas logística.

“El Dorado”

Algumas fontes do mercado financeiro já chegaram a especular que a questão do ouro poderia aparecer, ainda que de forma indireta, nas conversas entre Brasil e Rússia, em sintonia com debates mais amplos no âmbito dos BRICS. O tema ganha relevância num momento em que países do bloco concentram parcela significativa da produção global de ouro e em que economias emergentes passaram a liderar uma nova corrida pelo metal, movimento observado com nitidez nos últimos meses.

A China ampliou de forma inédita suas reservas, a Rússia mantém uma política consistente de acumulação desde antes da guerra na Ucrânia, e o Brasil realizou, entre setembro e novembro, a maior compra de ouro desde 2021. Em conjunto, esses movimentos apontam para uma tendência de diversificação de reservas internacionais, em resposta a um cenário marcado por tensões geopolíticas, sanções econômicas e crescente fragmentação do sistema financeiro global.

Entre especialistas, não há consenso de que o aumento das reservas de ouro represente, por si só, um mecanismo capaz de enfraquecer de forma direta a hegemonia do dólar. A avaliação predominante é mais cautelosa: trata-se menos de um ataque frontal à moeda americana e mais de um movimento defensivo, uma forma de reduzir vulnerabilidades e equilibrar reservas em tempos de incerteza. Nesse sentido, o ouro surge não como símbolo de ruptura imediata, mas como sintoma de um mundo que passa a operar com menor confiança em garantias únicas e maior atenção a alternativas.

Entre pousos discretos e comunicados tardios, é o ouro que continua se movendo sem fazer ruído.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli
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