
O artigo “Academics Need to Wake Up on AI”, de Alexander Kustov, publicado há poucos dias, afirma que a inteligência artificial já está transformando profundamente a produção de conhecimento acadêmico, enquanto uma parte significativa do mundo universitário permanece em uma atitude de negação ou de subestimação da mudança. Essa desconexão é complexa e grave porque constitui uma crise epistemológica e institucional que coloca em questão não apenas os métodos de pesquisa, mas também os critérios de legitimidade do conhecimento.
Kustov assinala que grande parte do trabalho acadêmico tradicional — como a revisão de literatura, a redação de textos e o processamento de informações — já está sendo realizada por inteligência artificial com notável eficiência. Mas o ponto mais importante não é tecnológico; é pedagógico. Se as máquinas podem fazer uma parte significativa do trabalho técnico, então o que está em crise não é apenas a pesquisa, mas a forma como concebemos o aprendizado e a produção de conhecimento válido para a humanidade. As universidades formam seus estudantes desenvolvendo habilidades para buscar informação, organizá-la, escrever corretamente, aplicar metodologias. Hoje, em um ambiente em que a informação é abundante e a produção pode ser automatizada, essa abordagem se mostra insuficiente. Aprender já não pode significar apenas saber fazer. Deve significar, sobretudo, saber pensar.
É precisamente no ato de pensar que emerge um dos vazios mais profundos da universidade contemporânea. As instituições e, sobretudo, aqueles que dirigem os sistemas de educação superior em nossos países têm recorrido de forma reiterada e muitas vezes pouco fundamentada à noção de “pensamento crítico” como uma resposta quase automática aos desafios atuais. Com frequência, esse conceito tem sido reduzido a uma instrução vazia ou a uma habilidade instrumental, quando na realidade se trata de uma prática muito mais exigente, com raízes profundas na filosofia. Pensar criticamente não é apenas questionar; é aprender a distinguir entre o verdadeiro e o verossímil, entre o bem argumentado e o simplesmente bem expresso. É, em sentido estrito, um exercício de julgamento, de problematização e de responsabilidade ética, que faz parte de um processo civilizatório hoje claramente enfraquecido. A filosofia recupera um lugar que nunca deveria ter perdido — não como um saber abstrato ou marginal, mas como um fundamento essencial da formação universitária. De Sócrates a Immanuel Kant, pensar significou interrogar, incomodar, construir critérios para compreender e julgar o mundo. E, em uma época em que a IA pode gerar respostas de maneira instantânea, o que é verdadeiramente decisivo já não é a resposta em si, mas a capacidade de formular perguntas pertinentes e avaliar criticamente o que se recebe.
Questionar a suposta superioridade do conhecimento humano já não é opcional. Como adverte Kustov, boa parte da produção acadêmica carrega problemas de qualidade e rigor mesmo sem a intervenção da IA. Nesse sentido, a inteligência artificial não apenas desafia a universidade: expõe suas falhas estruturais. O problema não é a IA, é a fragilidade e a temporalidade do conhecimento que estamos produzindo. (Original por El Telégrafo).
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
Tradução: Eduardo Scaletsky
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