A inflação que afeta o Brasil é impulsionada por turbulências geopolíticas, preços de energia em alta e cadeias de suprimentos frágeis, em vez de excesso de demanda. No entanto, os formuladores de políticas continuam a tratar isso como um problema monetário, confiando em uma ferramenta que não pode abordar as causas subjacentes.

O Banco Central continua com a sua decisão de manter as taxas de juros elevadas como um exercício de prudência. Com a inflação voltando a subir, mesmo com o crescimento desacelerando, a autoridade monetária enfatiza a paciência e a “dependência dos dados” como o caminho responsável – uma abordagem moldada sobretudo por temores persistentes de repique inflacionário.

A pergunta que importa para a sociedade não é por quanto tempo os bancos centrais podem manter as taxas de juros elevadas ou o ritmo do aperto monetário. É se os formuladores de políticas conseguem manter a ficção de que taxas de juros mais altas são uma resposta eficaz, ou até neutra, às pressões inflacionárias que o Brasil enfrenta atualmente.

As pressões inflacionárias de hoje não são alimentadas por mercados de trabalho superaquecidos ou demanda crescente dos consumidores. Elas refletem preços mais altos da energia, conflitos geopolíticos, perturbações relacionadas ao clima, cadeias de suprimentos frágeis e, cada vez mais, o poder de precificação das grandes corporações. Aumentar as taxas de juros pouco faz para atacar as causas subjacentes da inflação.

Essas pressões de oferta provavelmente vão se intensificar. A recente decisão dos Emirados Árabes Unidos de sair da Organização dos Países Exportadores de Petróleo – OPEP sinaliza uma mudança estrutural mais profunda na economia política da energia, marcada por mudanças nas dinâmicas de poder nos mercados globais de petróleo e pelo enfraquecimento da capacidade das instituições existentes de gerenciar um recurso altamente financeirizado e geopoliticamente importante.

A saída dos Emirados Árabes Unidos mina o papel tradicional da OPEP na gestão do fornecimento. Com um de seus maiores e mais flexíveis produtores se separando, a coordenação se torna mais difícil de sustentar, aumentando a volatilidade do mercado. Os mercados de petróleo, por sua vez, estão cada vez mais fragmentados e respondendo menos à estratégia coletiva do que ao risco geopolítico e à tomada de decisão unilateral.

Nessa situação, a concepção de política monetária que domina o Banco Central torna central o dilema de, no caso de manter as taxas de juros baixas por muito mais tempo, correr o risco de corroer sua credibilidade à medida que a inflação sobe gradualmente. Por outro lado, aumentar as taxas de forma muito agressiva pode aprofundar as pressões recessivas, agravar os encargos da dívida privada e pública e comprimir ainda mais famílias já afetadas pelo aumento dos custos de alimentos, moradia e energia e pelo endividamento dos juros bancários excessivos.

A verdade é que a distopia do Banco Central o faz pensar que está definindo livremente a taxa de juros entre outras opções de políticas que seriam populistas. Mas, ao contrário, ele opera dentro de restrições estruturais rígidas, impostas pelos mercados financeiros, fragilidade fiscal e pressões políticas, especialmente no que diz respeito à taxa de desemprego. Os mercados, por sua vez, antecipam cada vez mais aumentos de juros não porque resolvam a inflação, mas porque o Banco Central se sente compelido a agir, mesmo quando sua ferramenta é inadequada para a tarefa.

As consequências distributivas desse reflexo político muitas vezes são negligenciadas. Taxas de juros mais altas atuam como um mecanismo disciplinar: protegem o valor dos ativos, recompensam credores e transferem o ônus do ajuste para trabalhadores, aumentam o endividamento, especialmente na compra de bens duráveis e habitação, aumenta o endividamento público e pressão para mais aperto monetário para controlar a demanda, quando o problema não é de demanda. Encarar a inflação como um problema do mercado de trabalho, mesmo que seja impulsionada por monopólios de energia, tensões geopolíticas e interrupções no fornecimento logístico, é uma escolha política, não uma necessidade econômica. Na realidade, taxas de juros mais altas não eliminam a inflação, mas redistribuem seus custos por meio de maior desemprego, aumento da dívida das famílias e redução fiscal. Isso não é um efeito colateral não intencional da política monetária, mas o mecanismo pelo qual a inflação é normalmente gerenciada. Isso causa um mal-estar na população, mesmo quando os números agregados podem ser positivos, mas o impacto na vida concreta é de formar expectativas negativas sobre o futuro da ascensão social e melhoria de vida.

A concepção hegemônica de política macroeconômica continua tratando a inflação como um problema monetário, e não estrutural e de distribuição de renda. O Banco Central, ao endurecer as condições financeiras com taxas de juros mais altas, não faz nada para reduzir os preços dos alimentos, que refletem o aumento dos custos de fertilizantes e energia. No entanto, eles aumentam o risco de perda de empregos, dificuldades com dívidas e pobreza estrutural.

Se a inflação permanecer alta por anos, o problema se torna de exaustão social. As famílias não podem continuar absorvendo custos mais altos sem danos a longo prazo, desde o aumento do endividamento até a pior nutrição e o agravamento dos resultados de saúde. Nesse ponto, a inflação não é mais apenas uma questão econômica, mas uma fonte de instabilidade política, potencialmente levando a uma crise de legitimidade institucional.

Essas dinâmicas ressaltam os limites da abordagem atual do Banco Central e da política monetária. À medida que a inflação se torna intimamente ligada a choques climáticos, guerra e ao controle estratégico de recursos essenciais, a política monetária sozinha não pode estabilizar preços sem impor sérios custos sociais e econômicos. Taxas de juros mais altas podem suprimir a demanda, mas não podem produzir petróleo e gás natural, desbloquear portos, reparar cadeias de suprimentos ou reduzir as margens corporativas.

Os formuladores de políticas estão usando um instrumento tecnocrático projetado para a gestão da demanda para conter aumentos de preços, impulsionados por forças estruturais e políticas.

Até que essa contradição seja resolvida – por meio de política energética coordenada, investimento público, regulação de preços, estratégia industrial ou intervenção fiscal ativa –, as taxas de juros continuarão oscilando sem resolver o problema que deveriam resolver. O aperto monetário continuará sendo um gesto simbólico para transmitir controle, e não uma solução real.

Essa é a distopia central da atual política macroeconômica. A dissonância cognitiva está relacionada diretamente com a política macroeconômica. Em grande parte, porque o relativo sucesso de Lula I e II foi tomado como base para a aplicação da mesma política em condições distintas. Assim, para evitar que a dissonância cognitiva aumente, temos que dar por encerrado o ciclo de políticas baseadas em altas taxas de juros, restrição fiscal e abertura das contas de capital. Voltar a pensar em uma política de inovação industrial direcionada para resolver os problemas da sociedade através dos serviços públicos de cidadania. Para isso ser efetivo, a prioridade do poder de compra do Estado tem que estar voltada para atender a demanda originada pela política de inovação industrial com prioridade para resolver os problemas da sociedade definidos em articulação com a participação popular. Essa é a base para a formação de empresas de capital nacional e a afirmação da soberania nacional pelo fortalecimento do processo democrático. O modelo que teve relativo sucesso no início dos anos 2000 –  macroeconomia liberal com transferência de renda social já esgotou a sua efetividade.

No seu cerne, a contínua dependência dos formuladores de políticas nas taxas de juros para gerenciar crises decorrentes da interação entre mercados de energia, poder corporativo e conflitos geopolíticos reflete a forma como a inflação é enquadrada. Tratar a inflação estrutural como um problema de gestão da demanda permite que os formuladores de políticas pareçam decisivos, evitando um confronto mais difícil com aqueles que definem preços, controlam recursos e extraem rendas. Essa também é uma escolha política, cujos custos sociais estão se tornando cada vez mais difíceis de ignorar.

Finalmente, é preciso deixar de normalizar certos conceitos vazios de concretude histórica da mesma forma que a política macroeconômica dominante é uma abstração ahistórica, resultado de uma dissonância cognitiva. Reindustrializar é um deles. Reindustrializar para manter a mesma estrutura industrial que vigora desde JK e que nos levou à situação atual? Redemocratizar? O Brasil já foi uma democracia? Portanto, sem alterar a política macroeconômica atual, as altas taxas de juros, a austeridade fiscal e a abertura da conta de capitais, não se terá uma política de inovação industrial para aumentar e melhorar os serviços públicos de cidadania e fortalecer a esperança na melhora da vida concreta e no processo democrático.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Revisão: Celia Bartone
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