As investigações da Polícia Federal atingiram o Centrão com a força destrutiva de um míssil balístico. O senador Ciro Nogueira (PP), um dos mais importantes líderes do bloco de oposição ao governo, parece ter alugado o seu mandato para o banqueiro Daniel Vorcaro. Em troca, os investigadores identificaram o recebimento de uma vultosa propina mensal, que chegou a R$ 500 mil. Além disso, o relatório da Polícia Federal aponta o recebimento de uma série de outros benefícios de luxo: pagamento de hotéis, uso regular de jatinhos, um cartão de crédito vinculado a Vorcaro para despesas pessoais e altos gastos em lojas de grife e restaurantes de luxo, no Brasil e no exterior, como em Paris e Nova York. Tudo pago diretamente pelo banqueiro, segundo a PF. Não bastasse tudo isto, Ciro Nogueira teria adquirido uma cota societária avaliada pelo mercado em R$ 13 milhões, mas pagou para o locatário do seu mandato apenas R$ 1 milhão. Os investigadores suspeitam que essa transação seja uma forma oculta de propina e/ou lavagem de dinheiro. Confirmado o recebimento desses opulentos benefícios, Ciro Nogueira merecerá o título de “sultão da corrupção”.

A Emenda Master

O seu imenso prestígio junto à direita parece ser inversamente proporcional à sua honestidade. Entre tantas vilanias, a investigação feita pela Polícia Federal destaca um Projeto de Emenda Constitucional (PEC) que teria sido redigido pelo próprio Banco Master para quadruplicar a garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Caso essa PEC fosse aprovada, as falcatruas do Banco Master poderiam crescer exponencialmente e o sistema financeiro nacional seria duramente atingido, com graves consequências para a economia do Brasil e para os brasileiros. Com essas revelações, o discurso de Ciro Nogueira e da sua turma em favor do mercado fica parecendo uma cortina de fumaça, que serve para esconder o objetivo de engordar as suas próprias contas bancárias.

Nas mensagens trocadas com Daniel Vorcaro e descobertas pela investigação da PF, fica claro que o mandato de Ciro Nogueira estava sendo alugado por Vorcaro e a sua atuação parlamentar era feita sob demanda dos interesses do banqueiro. Depois de ele protocolar a PEC no Senado, Vorcaro enviou mensagem dizendo que o texto apresentado é exatamente como ele mandou; sublinhe-se o verbo mandar.

O vice dos sonhos

Ciro Nogueira estava no auge de sua influência no campo bolsonarista. Jair e Flávio Bolsonaro não poupavam elogios ao sultão e frequentemente se referiam a ele como um “amigo leal”. Para Jair Bolsonaro, a sua nomeação como Chefe da Casa Civil, em 2021, teria dado estabilidade política ao governo. Na época, o ex-presidente declarou que Ciro era a “peça que faltava no tabuleiro” para consolidar a direita no Nordeste.

Essa admiração era compartilhada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), que vinha construindo a colocação de Ciro Nogueira como seu vice para a eleição presidencial. Flávio não poupava elogios públicos, classificando o senador como “um gigante da política”, pela sua capacidade de articulação no Congresso, e o tratava como “insubstituível” nesta tarefa. Segundo ele, Ciro Nogueira era um vice que “qualquer candidato gostaria de ter”. Hoje podemos inferir como essa “capacidade de articulação” no Congresso era realizada.

Tudo indica que entre Vorcaro e Ciro não havia amizade, mas um contrato de trabalho sujo. Em mensagem enviada no dia 30 de junho, Daniel Vorcaro se queixou de que não foram realizados pagamentos para “Ciro”:

“Cara, eu no meio dessa guerra atrasou dois meses Ciro?”

Felipe (o interlocutor) respondeu:

Vou ver se dou um jeito aqui. Vai continuar os R$ 500 mil ou pode ser os R$ 300 mil?” (G1, 07/05/26)

É difícil compreender esta situação como um caso isolado e não enxergar que podemos estar diante de uma situação na qual uma parte significativa da direita brasileira já esteja atuando como o braço político da corrupção e do crime organizado. É contra isto que a democracia brasileira precisa se defender, investigar, julgar e condenar todos os envolvidos. Sem anistiar ou tratar os corruptos condenados com pão de ló.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone

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