Mariano é um sujeito asseado, bem vestido, bem-apessoado. Tem preocupação extrema com a aparência em tudo. Esculpe o corpo em academia, para onde vai e volta correndo. Lá estando, admira-se nos vários espelhos espalhados por todos os cantos. Posa e fotografa-se para júbilo do próprio orgulho e em busca da admiração alheia nas redes sociais. Mas, apesar de se olhar tanto, Mariano não se enxerga.

É um imbecil. Completo. De corpo e, principalmente, de alma. Burro não por ignorar o que se pudesse se esperar de alguém de sua idade e escolaridade, mas burro de burrice genuína mesmo, daquela que, mesmo tendo informações e obviedades diante de si, não possui a capacidade de chegar à conclusão alguma que faça sentido. Pensa quase que apenas por acidente, por reflexo involuntário.

Mas se acha um gênio. Muito acima da média. Um gênio incompreendido. De “genialidade” que funciona como seus espelhos, que não refletem verdade alguma, exceto as “verdades” que seu ego doente de vaidade reproduz como se fossem verdades verdadeiras, como se fossem verdades suas.

Nas conversas de bar gourmet que frequenta e nas redes sociais onde posta com identidade disfarçada, enche a boca e acelera os dedos para falar de coisas das quais não entende chongas. Política, medicina, filosofia, engenharia, receita de rocambole, pouco importa o assunto, fala e digita como sábio e toma como agressão quem lhe contradiz. Acaba “vencendo” debates na gritaria, ameaça, ofensa e, às vezes, violência em ato.

Acusações faz aos montes a todos aqueles que possuem em escala primária os defeitos que ele mesmo os tem em escala industrial. E ao apontar as imoralidades alheias cria, para si mesmo e para outros de moralidade semelhante, a imagem de que está isento daquelas mesmas imoralidades. De que é santo denunciador das malvadezas alheias. Sente e faz maldades enquanto reflete bondades aos espelhos defeituosos de uma sociedade repleta de pessoas que, como ele, não se enxergam.

Com todas essas falsas virtudes e verdadeiras imoralidades, é homem de sucesso. Conquistou prestígio num trabalho que consiste em assediar trabalhador necessitado, roubar ideias e méritos alheios, bajular quem está acima e enriquecer investidores.

Arrumou para si, como quem arruma uma roupa ou carro legal, uma esposa bonita, de corpo também esculpido em academia e mente moldada no mais medieval machismo religioso. É submissa a seu marido, nas ordens, nas vontades e nos tapas que recebe calada. “É direito dele, dado por Deus”, pensa. Às vezes, conta ao sacerdote sobre os socos que leva e é socada de volta com a ideia de que ela deve estar confundindo as coisas. Volta para casa convencida da culpa e sina de ser mulher.

Num fim de dia, Mariano chegou em casa cansado do trabalho, da academia e da amante. Encontrou sua esposa, de pouca roupa, a posar sexual e saliente para si mesma ao espelho. Busca de alguma autoestima no corpo.

Ficou enciumado. Sentiu-se traído. Ao espelho, Mariano viu obscenidade e medo. Reagiu à altura de seus vícios. Socos sem sequer uma palavra antecedida. A esposa apanhou sem também nada dizer. Apanhou muito. Mais do que o normal.

Mariano bateu até cansar. Até sua mão doer. Deu uma última bofetada como punição pela sua mão dolorida. Sentou-se na cama ofegante, tomado da tranquilidade que se vê depois da tormenta.

Olhou com satisfação para aquela carne arroxeada e inchada. Numa palavra dita com sorriso quase doce a chamou para cama. Obediente, ela obedeceu.

Abraçou-a. Ela esboçou um sorriso de simpatia, deformado pelo inchaço e tremor dos lábios. Olhou-se ao espelho e quase chorou, feliz, por aquela imagem do que lhe parecia ser a da mais pura felicidade.

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Ilustração: Mihai Cauli
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