Entrando maio, estamos a menos de cinco meses das eleições. E esse tempo será ainda mais corrido na medida em que o foco, em junho e julho, estiver na Copa do Mundo. A ampulheta está virada, e a areia caindo rápido.

Os números até aqui são muito próximos do que eram no final do ano passado. O atual presidente, disputando a reeleição, em um quadro bastante disputado, com provável segundo turno, contra os candidatos da extrema direita.

Esta última apresenta uma particularidade. O que está desenhado é um quadro “chileno” (analogia com as eleições chilenas deste ano), onde os candidatos da extrema direita se juntam no segundo turno contra o candidato governista, de centro-esquerda. A questão é o roteiro até lá, na medida em que estes candidatos não têm outra possibilidade de crescer além de uns abocanharem votos dos outros, o que indica que no primeiro turno, sob o risco de não conseguir crescer, eles têm que disputar o espaço político um do outro, para tentar ir ao segundo turno (se não fosse este o objetivo, não valeria a pena nem ter se lançado, uma vez que os principais teriam grande chance de se reeleger para outros cargos, como Senado ou Câmara). Assim, a ver como vão se comportar, e qual é a capacidade de crescer um sobre o outro sem subirem o tom de modo a impedir que caminhem juntos no segundo turno e – mais importante – que seus eleitorados caminhem juntos, sem rusgas relevantes ao longo da campanha de primeiro turno.

O Congresso Nacional, por outro lado, foi tragado pela campanha eleitoral, e seus principais momentos acabam expressando o embate eleitoral em curso. Com uma maioria conservadora e “negocista”, eles buscam ir ao limite do pragmatismo, obtendo do governo federal a execução de emendas parlamentares, ao mesmo tempo em que acenam politicamente para o eleitorado conservador. Com este movimento, o Congresso se auto esvazia enquanto poder autônomo neste período, buscando se eximir de tudo que não seja acenar para seu eleitorado com posições políticas e/ou emendas parlamentares de execução local.

Cabe ao Executivo federal tentar levar adiante um enfrentamento congressual que obrigue ao conservadorismo enraizado no Congresso ter que confrontar pautas de interesse popular, como o fim da jornada 6×1, as ameaças aos direitos sociais conquistados caso a direita vença o próximo processo eleitoral (nova reforma previdenciária, novos limites a gastos públicos na área social, novas perdas de direitos trabalhistas com flexibilizações, e assim por diante), ou a proposta de tarifa zero nos transportes públicos. Nestes casos, se prevalecer a lógica do ambiente eleitoral, é até provável que a extrema direita ou tente fugir dos embates, ou dê ela mesma alguns dos votos necessários para levar adiante essas pautas, bastante populares como indicam as pesquisas, e capazes de fazer os conservadores perderem votos no caso de buscarem evitar a aprovação.

O atual governo também fica confortável ao colocar a pauta da defesa da soberania em debate, como ficou demonstrado no ano passado com a discussão das medidas tarifárias levantadas pelo governo dos EUA contra quase todos os países do mundo. Como temos uma extrema direita que, longe de ser nacionalista como algumas extremas direitas do passado, assume um tom pró-EUA qualquer que seja o tema. Isso implica que essa extrema direita acaba não se preocupando em defender os chamados “interesses nacionais”, como ficou demonstrado nos debates em torno do chamado “tarifaço” de Trump, situação que os deixa naquilo que popularmente é chamado de “saia justa” no debate. O que valeu para o “tarifaço” provavelmente estará valendo para o tema de comércio digital (agenda de um enfrentamento direto entre Brasil e EUA na última conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio), em questões de paz e defesa nacional que abundam hoje em um cenário internacional conturbado, ou em questões de exploração e processamento de terra raras (ou minerais estratégicos), que é um dos temas que pode definir possibilidades de desenvolvimento nacional em um futuro próximo.

E temos finalmente um tema que está longe de ser popular com o povão, mas que permite disputar um setor importante de classe média, como mostraram as eleições de 2022. É a questão democrática, que permitiria trabalhar de novo, como em outros momentos da história do país, a defesa da democracia. Neste ponto da pauta, a esquerda está bem confortável, já que grande parte da extrema direita segue golpista (como mostrou a votação no Congresso que buscou derrubar o veto integral da presidência aos que buscaram violar a ordem constitucional em janeiro de 2023), defensora da ditadura e da barbárie. Esse é um tema que aproximou setores de classe média da candidatura Lula em 2022, e pode funcionar de novo no mesmo sentido.

Enfim, o processo eleitoral está se acelerando, ele será bem disputado, mas o atual governo ainda dispõe de cartas importantes para jogar nesse processo até outubro desse ano.

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Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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