
A crise institucional no Rio de Janeiro resulta da ação de grupos que atuam sistematicamente para subordinar o poder público aos interesses do crime organizado. Desde os anos 1990, cinco ex-governadores foram presos, um foi afastado por impeachment e Cláudio Castro (2021-2026) foi condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por abuso de poder político e econômico, ficando inelegível. Nos últimos 30 anos, os únicos que não foram presos ou processados criminalmente foram Nilo Batista (PDT) e Benedita da Silva (PT).
É uma crise estrutural. E as organizações criminosas não se contentam mais com a condição de “estado paralelo”.
Quem se beneficia com o crescimento do crime?
Ao longo desses 30 anos de cerco do crime organizado ao estado do Rio de Janeiro, um grupo político foi gradativamente impondo a sua liderança política e unificando a direita e os conservadores: a família Bolsonaro. Atuam como uma empresa político-familiar, organizada para mobilizar interesses duvidosos, exercer influência nas decisões políticas e indicar aliados para postos relevantes na estrutura do estado. Para adquirir poder, Jair Bolsonaro e seus quatro filhos agem de forma estratégica para ocupar cargos de parlamentares em diferentes níveis. Todos eles se tornaram políticos profissionais muito cedo e agem numa bem distribuída divisão de tarefas. Vejamos:
- Jair Bolsonaro: foi vereador no Rio de Janeiro (1989-1991) e deputado federal por sete mandatos consecutivos (1991-2018). Eleito presidente da República em 2019, foi condenado por organização criminosa armada, golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Na sua primeira eleição, tinha 33 anos;
- Flávio Bolsonaro: foi deputado estadual no Rio de Janeiro por quatro mandatos (2003-2018), eleito senador em 2018 e candidato do clã à Presidência da República neste ano. Na sua primeira eleição, tinha 21 anos;
- Carlos Bolsonaro: foi eleito vereador no Rio de Janeiro por sete mandatos consecutivos. Renunciou em dez/25 para concorrer ao Senado por Santa Catarina. Na sua primeira eleição, tinha 17 anos;
- Eduardo Bolsonaro: deputado federal desde 2015, teve seu mandato extinto pela mesa diretora da Câmara em dezembro de 2025. Em março/25, mudou-se para os EUA, de onde conspira contra a soberania nacional. Na sua primeira eleição, tinha 30 anos;
- Jair Renan Bolsonaro: eleito vereador em Balneário Camboriú nas eleições de 2024. Tinha 26 anos quando foi eleito.
Uma facção familiar
As relações desta facção familiar com agentes públicos cooptados pelo crime e com milicianos são fartamente documentadas em relatórios e investigações criminais. Flávio e Carlos Bolsonaro condecoraram ao menos 16 policiais que foram alvos de operações de combate ao crime organizado no Rio de Janeiro. O caso mais emblemático é o de Adriano da Nóbrega, ex-capitão do BOPE e chefe do “Escritório do Crime”. Esse assassino em série foi agraciado com a Medalha Tiradentes por Flávio Bolsonaro em 2005, e o então deputado federal Jair Bolsonaro discursou na tribuna da Câmara e chamou esse assassino em série de “um brilhante oficial”. A proteção do clã ao chefe dos assassinos de aluguel foi ao ponto de Flávio Bolsonaro dar emprego para a mãe e a esposa de Adriano da Nóbrega em seu gabinete.
Na campanha de 2018, policiais presos na Operação Quarto Elemento, como os irmãos gêmeos Alan e Alex Rodrigues de Oliveira, atuavam na segurança da campanha de Flávio Bolsonaro. Fabrício Queiroz, por anos funcionário de confiança de Flávio Bolsonaro e administrador das “rachadinhas”, é apontado como elo entre o clã Bolsonaro e os milicianos. Em 2007, Flávio Bolsonaro chegou a defender da tribuna da ALERJ que as milícias deveriam ser legalizadas.
O cerco do crime ao Rio de Janeiro
O Rio de Janeiro parece estar sendo usado pela extrema direita, liderada pelos Bolsonaro, como um laboratório da fusão do Estado com o crime.
Mesmo o limitado e rejeitado relatório da CPI do Crime Organizado, cujo relator foi o senador Alessandro Vieira (MDB-SE), constatou que a “infiltração do crime organizado é um fenômeno estrutural que exige respostas igualmente estruturais”. Em seu depoimento, a fundadora do Instituto Fogo Cruzado, Cecília Oliveira, afirmou que a “colaboração de agentes públicos com as facções constitui um dos principais fatores que alimentam o crime organizado, formando uma espécie de ‘adubo do crime’”.
O ex-governador Anthony Garotinho denunciou que “Cláudio Castro e o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar, seriam os chefes de uma organização criminosa com braços no Executivo e no Legislativo fluminense” e, pasmem, afirmou que “47 dos 70 deputados estaduais da Alerj receberiam uma ‘mesada’ do crime organizado. Essa informação teria sido obtida por meio de celulares apreendidos pela Polícia Federal na casa de Rui Bulhões, chefe de gabinete de Bacellar, no âmbito da Operação Unha e Carne”.
Para o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, “a própria polarização política tem sido explorada pelas facções e a ‘instrumentalização do debate político pelo crime organizado constitui uma forma sofisticada de infiltração, assegurando um ambiente favorável à sua expansão’”. Ou seja, a violência da extrema direita no debate público é funcional ao crime e ajuda na desconstrução da imagem das instituições responsáveis por defender o Estado de Direito, como o STF, a Justiça Eleitoral, o Ministério Público, etc.
O governo títere de Cláudio Castro
Um bom exemplo é o controle mantido pela organização familiar dos Bolsonaro sobre o governo de Cláudio Castro (PL), que atuou como um governo títere e montou um secretariado para beneficiar o clã.
Douglas Costa, secretário estadual de Cidades e deputado estadual, é um dos principais nomes de confiança dos Bolsonaro. Victor Santos, secretário de Segurança Pública, reforça a tentativa de controle das polícias e de instrumentalização do aparato de repressão do Estado. Ele foi nomeado para agradar aos Bolsonaro. Outro notório aliado é Bruno Dauaire, deputado estadual, indicado para a Secretaria de Desenvolvimento Social e a Secretaria de Habitação de Interesse Social. A subordinação de Bruno aos interesses da organização familiar dos Bolsonaro é tal que, em 2019, seu gabinete de deputado estadual empregava o sargento da PM Diego Sodré de Castro Ambrósio, investigado por suspeita de pagar as contas pessoais de Flávio Bolsonaro. Pagamentos feitos em dinheiro vivo, tal como foram pagos ao menos 51 dos 107 imóveis comprados pelo clã.
O controle desta facção familiar sobre Cláudio Castro chegou ao ponto de cogitar a nomeação de Eduardo Bolsonaro como secretário de seu governo, em uma manobra desesperada para salvar seu mandato de deputado federal.
Após a renúncia de Cláudio Castro, Flávio Bolsonaro está fazendo de tudo para manter o controle sobre a sucessão, como afirmou o senador Carlos Portinho (PL), depois de visitar Jair Bolsonaro na prisão.
— Não tem martelo batido. Ele disse que uma das vagas é de indicação direta dele, mas que precisa conversar com o Flávio para fechar o arranjo no Rio. (O Globo, 19/02/2026).
A insistência em eleger Douglas Ruas, presidente da Alerj, como sucessor de Cláudio Castro visa assegurar uma potente base logística para a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, o novo chefe do clã. Flávio tem feito repetidas críticas ao STF, que manteve o desembargador Ricardo Couto (presidente do TJ-RJ) no cargo, por decisão liminar do ministro Cristiano Zanin.
Obviamente, os Bolsonaro querem que o sucessor de Cláudio Castro seja indicado por eleição na ALERJ, onde, segundo denúncia de Anthony Garotinho, “47 dos 70 deputados estaduais receberiam uma “mesada” do crime.
A resistência da democracia ao crime
O crime organizado é a maior fonte de medo e insegurança na sociedade. A sua influência em instituições estatais é incompatível com o Estado de Direito. Cabe à democracia proteger a população contra a tentativa de submeter a sociedade às milícias. O balanço consolidado das atividades do MPRJ em 2025 revela o risco disso, mas também a força da resistência institucional. Os números foram expressivos:
- 767 denúncias ajuizadas contra o crime organizado.
- 120 agentes públicos denunciados por corrupção.
- 260 policiais militares denunciados pela Justiça Militar.
- R$ 900 milhões em bens e ativos bloqueados.
Combater a governança miliciana
A candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à presidência da República demonstra o quanto essa facção familiar está determinada a retomar a sua estratégia de nacionalizar o modelo de poder forjado no submundo carioca. O governo de Jair Bolsonaro levou o país ao ponto de ruptura da democracia e da implantação de um governo autocrático, que insuflou seus bandos a depredar e deslegitimar todas as instituições próprias do Estado Democrático de Direito. Caso as instituições democráticas não tivessem reagido de forma enérgica para investigar, julgar e condenar os golpistas, a democracia brasileira teria soçobrado.
Essa candidatura mostra que a resistência democrática é a única forma de evitar que o Brasil seja transformado num “Estado-facção”, como a liderança dos Bolsonaro vem tentando impor ao Rio de Janeiro. O governo no Brasil precisa ser compartilhado com o povo e não com o crime, como quer Flávio Bolsonaro, o príncipe do submundo.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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